quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Tradução de Excertos de Hacker, P. Insight and Illusion: themes in the philosophy of Wittgenstein; cap. 2. New York: Oxford University Press, 1987.

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2. A ‘Preliminar’ na Filosofia

Para entender as breves observações de Wittgenstein sobre a filosofia no Tractatus é essencial perceber que sua prática e sua teoria são desemparelhadas entre si. Neste livro, a abordagem oficial de jure da filosofia é completamente diferente da prática de facto da filosofia. A prática se conforma à abordagem da filosofia que Wittgenstein fez em sua breve ‘Preliminar’ do ‘Notes on Logic’ de 1913. O quanto sua concepção de filosofia mudou pode ser medido ao compararmos o ‘Notes to Logic’ ao Tractatus. A causa dessa mudança pode ser atribuída à emergência da distinção entre mostrar e dizer.


A ‘Preliminar’ de ‘Notes on Logic’ contém três teses, que em conjunto demarcam o domínio da filosofia e caracterizam sua natureza. A primeira tese reivindica que a filosofia é puramente descritiva e não contém deduções. Assim, na filosofia, não há proposições privilegiadas que detém prioridade lógica ou epistemológica sobre as outras proposições que foram delas deduzidas. A filosofia é ‘plana’ [Flat]. Isso distingue a filosofia de ciências axiomáticas a priori tais como a geometria, tendo em vista a concepção hertziana dedutivista das teorias científicas concebidas a partir das ciências naturais. De acordo com isso, a segunda tese diz que a filosofia está acima ou abaixo das ciências naturais, mas não lado a lado. A filosofia pode ser a rainha das ciências ou trabalhar para elas; porém, de todo modo, a filosofia não é uma cidadã liberta de uma república de idéias. A razão dada para essa linha de demarcação repousa em termos hertzianos. As ciências naturais nos dão figuras da realidade, i.e., os modelos teóricos. A filosofia, não; consequentemente, ela não está em competição com as ciências naturais e não pode nem confirmar nem refutar as proposições científicas. Junto com a tese anterior, a segunda tese afirma que a filosofia é sui generis. A terceira tese descreve o domínio da filosofia. Ela é a doutrina da forma lógica das proposições científicas, i.e., empíricas. Assim, as formas das proposições, e também do pensamento em geral, provê à filosofia o seu objeto de estudo. Sobre este tópico, incidentalmente, houve uma concordância inicial entre Russell e Wittgenstein. Em sua Conferência de 1914 em Herbert Spencer “On Scientific Method in Philosophy”, assim como em suas Conferências de 1914 em Lowell Our Knowledge of the External World, Russell enfatiza que a filosofia, propriamente falando, é indistinguível da lógica e se preocupa acima de tudo com o estudo das formas lógicas. Entretanto, como veremos no próximo capítulo, Russell não atentou para todas as implicações de sua demarcação do objeto de estudo. Como veio Wittgenstein veio perceber, a concepção de Russell de forma lógica era defectiva. Além do mais, sua compreensão do caráter da investigação filosófica era metodologicamente fraca. Russell argumentou em ‘On Scientific Method in Philosophy’ que era por concentrar a atenção sobre a investigação da forma lógica que o novo estilo de filosofia analítica poderia evitar os métodos holísticos e os conseqüentes erros da filosofia passada, e emular os métodos progressivos [progressive methods] das ciências.

Uma filosofia científica tal como quero recomendar será produzida por partes e por tentativas como as outras ciências; acima de tudo, ela será apta a inventar hipóteses que, inclusive se não forem completamente verdadeiras, ainda continuarão frutíferas depois de as correções necessárias serem feitas. Esta possibilidade de aproximações sucessivas da verdade é, mais do que qualquer outra coisa, a fonte dos triunfos da ciência, e transferir esta possibilidade para a filosofia é assegurar um progresso no método cuja importância seria quase impossível de exagerar. (Russell. ‘On Scientific Method in Philosophy’. In: Mysticism and Logic. Harmondsworth: Penguin, 1953, cap. VI, pp. 95-119.)

Não é surpreendente que em seu caderno de anotações Wittgenstein tenha observado em 1915: ‘O método de Russell em seu “Scientific Method in Philosophy” é simplesmente uma degeneração do método da física (NB, p. 44). Pois, como Hertz mostrou, o método da física é a construção de figuras da realidade. Essas são de fato opcionais e por tentativas, o que possibilita maiores ou menores aproximações de suas consequências hipotético-dedutivas para os fatos. Mas a lógica, na medida em que é uma condição para o sentido, não pode permitir hipóteses. Se a filosofia é a descrição da forma lógica, então não pode haver nada formado em partes ou meramente aproximadamente correto sobre isso. Pois o que seria uma mera aproximação na ciência seria sem sentido [nonsense] em filosofia. É inconcebível que a filosofia deva [tenha que] compartilhar os métodos das ciências naturais.

A ‘Preliminar’ adiciona uma demanda programática: a explanação correta das proposições lógicas deve dá-las uma posição única em comparação a todas as outras proposições. Este programa foi realizado pelo Tractatus. Há também uma afirmação com relação à própria estrutura da filosofia – que consiste de lógica e metafísica, sendo a primeira sua base. Entretanto, não é claro como uma abordagem puramente descritiva pode ter uma parte como base de outra. Presumivelmente, Wittgenstein quis dizer que as investigações lógicas revelam verdades metafísicas, que as formas lógicas das expressões mostram algo sobre a estrutura essencial e metafísica do mundo. Finalmente, há um requerimento metodológico em conformidade com as doutrinas fregeana e russeliana: a desconfiança da gramática é o primeiro requisito para filosofar.

Na época em que escreveu o Tractatus, Wittgenstein tinha mudado de idéia sobre algumas de suas afirmações anteriores salientes sobre a natureza da filosofia. O status de jure da filosofia mudou dramaticamente. A tese de que a filosofia é a descrição da forma lógica, que ambos ele e Russell tinham anteriormente proposto, era agora rejeitada. A forma lógica é indescritível, e assim a preocupação da filosofia com a forma lógica não pode ser direcionada para a sua descrição. Todavia, não foi tudo repudiado. A demarcação anterior da filosofia a distinguiu de modo preciso das ciências naturais. A isso, Wittgenstein continuou a aderir. No Tractatus, 4.111, ele disse ‘A filosofia não é uma das ciências naturais’, e entre parênteses adicionou uma observação retirada do ‘Notes on Logic’: ‘A palavra “filosofia” deve significar algo que está acima ou abaixo das ciências naturais e não lado a lado com elas’. Ele enfatiza essa tese negativa em 4.1121: ‘A psicologia não é mais aparentada à filosofia do que qualquer outra ciência’. Na observação seguinte, ele adiciona: ‘A teoria de Darwin não tem mais a ver com a filosofia do que qualquer outra hipótese das ciências naturais’ (TLP, 4.1122). Este aparente non sequitur é outro espinho apontado para as visões expressas nas Conferências de Russell em Lowell. Russell distinguiu três tipos de filosofia – a tradição clássica, derivada em última instância dos gregos; o evolucionismo, derivado de Darwin; e o atomismo lógico, que representa o mesmo tipo de avanço na filosofia que Galileu fez pela física. Embora Russell tenha rejeitado o evolucionismo, como o fez a tradição clássica, por ele não ser uma ‘verdadeira filosofia científica’, ele o concebeu como um tipo de filosofia. Wittgenstein pensou que isso envolve uma má classificação baseada numa concepção obscura da natureza da filosofia.

Embora a primeira e a terceira teses da ‘Preliminar’ fossem rejeitadas, a visão de que a filosofia é sui generis foi, não obstante, aceita. Entretanto, Wittgenstein cessou de acreditar que a singularidade [imparidade, uniqueness] da filosofia é exprimível por meio de proposições filosóficas que descrevem um objeto de estudo a priori e especial. Sua singularidade jaz na atividade da filosofia, não em seu produto. Wittgenstein chegou a acreditar que não há proposições filosóficas. Por isso, a filosofia não é uma doutrina nem da forma lógica e nem de nenhuma outra coisa.

3. Filosofia e Ilusão

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4. A Filosofia como Crítica e como Análise

Toda a filosofia’, escreveu Wittgenstein numa observação que anunciou a característica ‘virada linguística’ da filosofia analítica do século vinte, ‘é uma “crítica da linguagem”’. Sua tarefa não é descrever as verdades mais gerais acerca do universo – este é o domínio da física. Ela não está preocupada em estudar os trabalhos da mente humana – este é o domínio da psicologia. Ela não investiga a natureza metafísica das coisas e reporta suas descobertas em proposições filosóficas especiais sintéticas a priori, pois não há tais proposições. A filosofia não visa um novo conhecimento, mas sim um ponto de vista lógico correto do conhecimento não-filosófico existente.

Uma crítica é uma investigação sobre os limites de uma faculdade. A Crítica da Razão Pura de Kant intentava restringir as pretensões da filosofia ao demonstrar que a razão pura sozinha não pode chegar a verdades metafísicas transcendentes. Tudo que ela pode alcançar é o conhecimento de proposições sintéticas a priori que descrevem as condições de possibilidade da experiência. O Tractatus intentava esclarecer os princípios para uma crítica da linguagem e do seu uso. Sua tarefa era:

Colocar um limite ao pensamento, ou melhor – não ao pensamento, mas à expressão do pensamento: pois para ser capaz de colocar um limite ao pensamento, deveríamos ter que encontrar ambos os lados do limite do pensável (i.e. deveríamos ter que ser capazes de pensar o que não pode ser pensado). (TLP, p. 3)

Os limites do pensável são estabelecidos na linguagem, determinados pela natureza essencial da representação. O que jaz para além desses limites não pode ser dito. A totalidade das proposições genuínas constitui o pensável; a totalidade das proposições verdadeiras constitui o todo da ‘ciência natural’. Ao especificar os limites da linguagem, a filosofia estabelece os limites de uma esfera muito disputada da ciência natural, a esfera do conhecimento possível. Pode, assim, a ciência, amplamente concebida, nos dizer se possuímos uma alma imortal ou se Deus existe? Apenas se a totalidade das proposições contiver proposições sobre Deus e sobre a alma. Há um conhecimento ético ou estético possível? Apenas se houver proposições éticas ou estéticas. A crítica de Kant da razão especulativa negou ao conhecimento espaço para a fé, para a crença que é justificada pela razão prática. A crítica da linguagem de Wittgenstein alcançou conclusões mais radicais. O que não estamos, em princípio, aptos a saber também não estamos aptos a pensar. Os assuntos metafísicos tradicionais sobre Deus e sobre a alma jazem para além das fronteiras da linguagem. Mais radicalmente, não pode haver proposições éticas ou estéticas. O conhecimento é proibido de reservar um lugar para o silêncio. Finalmente, e aqui o contraste com Kant é profundo, a própria crítica, a descrição dos limites da linguagem, jaz para além do reino do que pode ser dito. A linguagem não pode descrever a sua própria natureza mais do que ela pode descrever a essência do mundo.

A filosofia não propõe doutrinas, não constrói teorias, não alcança conhecimento. Ela é uma atividade de esclarecimento lógico. Ela elimina mal entendidos, resolve obscuridades e dissolve problemas filosóficos que decorrem de proposições empíricas comuns [ordinary]. Isto é para ser feito pela análise:

A idéia é expressar um simbolismo apropriado, o que na linguagem ordinária leva a mal entendidos sem fim. Isso é dizer que onde a linguagem comum disfarça sua estrutura lógica, onde ela permite a formação de pseudo-proposições, onde ela usa um termo com uma infinidade de significados [meaning] diferentes, devemos trocá-la por um simbolismo que nos dê uma figura clara de sua estrutura lógica, que exclua pseudo-proposições e que use os termos sem ambigüidades.

A necessidade de tal análise surge de obscuridades no sentido de uma dada proposição comum. Se a análise vai ou não precisar ser perseguida até o nível das proposições elementares (atômicas) e dos nomes logicamente próprios, dependerá de se as dificuldades que precisam ser resolvidas podem ser eliminadas num nível superior ao da estrutura ‘atômica’ última.

Adicionado ao seu papel como esclarecedora do bom senso, a filosofia tem uma tarefa dialética mais negativa. Se alguém quiser dizer verdades metafísicas, a filosofia deve mostrá-lo que ele não tem nenhum significado para certos sinais de suas proposições (TLP, 6.53). Se alguém, ao tentar descrever essências, se empenha em usar ‘é um número’ ou ‘é um objeto’ como expressões predicativas, devemos mostrar que, na forma de variáveis de predicados de substituição de instância, não foi dado nenhum significado a esses sinais. Eles são sinais para variáveis, e não nomes. Isso deve parecer insatisfatório para a pessoa cuja perplexidade estamos resolvendo e para os pronunciamentos metafísicos que estamos demolindo. Pois ao fazer filosofia deste modo, não dizemos nada de metafísico sobre a essência do mundo e não apresentamos nenhuma doutrina sobre a forma lógica da essência da linguagem. Mas este método é o único estritamente correto. O desejo ardente dos metafísicos pela essência do mundo não pode ser satisfeita por proposições filosóficas, pode apenas pela apreensão das formas das proposições não-filosóficas. Pois cada proposição genuína, em adição a dizer o que ela diz, mostra uma propriedade lógica do universo (NB, p. 107). Quando as formas da linguagem estão expostas em uma notação conceitual apropriada, a essência do mundo, que a filosofia sempre lutou para descrever, embora fosse indescritível, estarão expostas numa superfície para a visualização completa.

Se segue que o método filosófico praticado no Tractatus (como oposto ao método pregado pelo Tractatus) não é o método estritamente correto. O Tractatus não estabelece um limite ao pensamento pela apresentação clara do que pode ser dito. As proposições do Tractatus não são esclarecimentos de proposições empíricas comuns. Ao contrário, elas são, como indicado por Wittgenstein na penúltima observação de seu livro, pseudo-proposições absurdas [nonsensical]. Uma crítica do tipo constituída pelo próprio Tractatus teria que permanecer, como ela de fato fazia, em ambos os lados do limite do pensável. Tal crítica não poderia fazer sentido. Qual é então a sua razão? Qual o ponto que podem ter tais absurdos [nonsense]?

A observação de Wittgenstein de que quem o entendesse iria reconhecer que as proposições do Tractatus eram absurdas [nonsense] (TLP 6.54) foi recebida com uma indignação incrédula pelos filósofos. Em seu prefácio, Russell observou que ‘enfim, o Sr. Wittgenstein conseguiu dizer muitas coisas sobre o que não pode ser dito’. Black, assim como Russell, não pode duvidar que entendemos o livro e que aprendemos muito com ele; donde, deve haver alguma maneira de sair desse paradoxo. Ele sugere que podemos conceder que se a comunicação for equalizada exclusivamente com ‘o falar’, então o Tractatus não comunica nada. Entretanto, de acordo com o próprio Tractatus, há ainda muito que pode ser mostrado, mesmo que não possa ser dito. Por isso, certamente o Tractatus mostra um grande negócio, e isso é salvador [shows a great deal, and this is salvageacle]. Black procede intentando erigir o que ele chama de ‘uma linha de defesa’. De acordo com isso, todos os casos nos quais Wittgenstein está procurando a essência de algo que resulta em juízos a priori pertencentes à sintaxe lógica ou gramática filosófica (o exemplo de Black é ‘uma proposição não é um nome complexo’) consistem em juízos formais mostrando algo que pode ser mostrado. Estes, afirma Black, não são piores do que os juízos lógicos que não envolvem violação das regras da sintaxe lógica.

Isso é um erro. As proposições lógicas são sem sentido [senseless], mas não absurdas [nonsense]. Elas não dizem nada, mas elas mostram as propriedades internas das proposições compostas e representam os andaimes do mundo. Os ‘juízos formais’, entretanto, nem dizem nem mostram nada. Eles de fato violam as regras da sintaxe lógica, pois eles empregam erroneamente os conceitos formais. Assim, no exemplo de Black, ‘proposição’, ‘nome’ e ‘complexo’ são todos conceitos formais. Por isso, os ‘juízos formais’ que os utilizam são absurdos [nonsense]. Wittgenstein estava bastante correto e consistente; de fato o Tractatus consiste largamente de pseudo-proposições. É claro, o que Wittgenstein quis dizer com essas observações (como o que o solipsista quer dizer (TLP, 5.62)) é, em sua visão, bastante correto, apenas não pode ser dito. Aparentemente, o que alguém quer dizer ou intenciona dizer por uma observação pode ser entendido mesmo que a sentença proferida seja, estritamente falando, absurda. (Assim que Wittgenstein afirma entender o que o solipsista quer dizer.)

A difícil distinção entre absurdos iluminantes e absurdos enganadores tem sido frequentemente atacada por críticos. Ramsey argumentou que ou a filosofia deve ter algum uso, ou então é uma disposição que temos que controlar. Se a filosofia é absurda, então é sem utilidade, e não devemos fingir, como o fez Wittgenstein, que é um absurdo importante. Comentadores posteriores têm seguido a posição de Ramsey ao achar essa noção absurda, e tem sido objetado em defesa que Wittgenstein nunca disse ou pretendeu dizer tal absurdidade. Certamente, Wittgenstein não usou o termo ‘absurdo iluminante’. O que ele disse foi que as proposições do Tractatus elucidam ao levar quem quer que seja que entenda o autor a reconhecê-las como absurdas [nonsensical]. Elas não são elucidações no sentido de análises de proposições ‘científicas’ em suas constituintes. Elas são antes pseudo-proposições por meio das quais podemos subir para além delas. Elas nos levam a ver o mundo corretamente, de um ponto de vista lógico correto. Poderemos, então, perceber que elas são absurdas [nonsensical], e jogar fora a escada pela qual subimos.

Ramsey afirmou que se a filosofia é absurda, ela é uma disposição que deve ser controlada. Isso se segue? Em um sentido, sim. A filosofia como praticada no Tractatus não deve ser mais escrita. Se alguém disser algo metafísico, devemos dialeticamente fazê-lo ver seus erros. Suas questões metafísicas não terão sido respondidas, mas sua mente, ‘não mais atormentada irá cessar de perguntar questões ilegítimas’. De acordo com o Tractatus, o âmbito desta filosofia futura deve ser puramente analítico e terapêutico. O próprio Tractatus, embora seja uma manifestação da nossa disposição natural para a metafísica, é um empreendimento justificável que foi completamente e finalmente cumprido. Ele não é um prolegômeno [introdução] para uma metafísica futura, mas é a aparição final [o canto final, o canto do cisne, the swansong] da metafísica.

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