sábado, 2 de março de 2019

Tempos de Borboleta I



Tempos de Borboleta I


"E tudo o que se sente directamente traz palavras suas"
- Alberto Caeiro

Quando paramos para refletir sobre o nosso tempo, os “tempos modernos”, nos perguntamos se ele pode vir a ser melhor, se há possibilidade de transformação e acontecimentos novos. Se um dia o homem que se aprisionou na máquina virá a sair dessa condição. Esse tempo por vir é o que chamarei de “tempos de borboleta”. Para explicar melhor em que consiste os tempos de borboleta, cito uma passagem de Ciro Marcondes Filho em sua obra “O rosto e a máquina”:

Assim, o ‘isso’ pode tornar-se um ‘tu’. Ele é como uma crisálida, diz Buber, de onde por surgir uma ‘borboleta’. Em termos de comunicação, quando encontramos alguém e o saudamos com formas desgastadas como “Olá!”, “Tudo bem?”, estaremos nos relacionando com essa pessoa da maneira eu-isso. Em nossa terminologia, não estaremos nos comunicando, apenas trocando sinais.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

O Fantasma do Marxismo




O fantasma do marxismo

O marxismo é como um fantasma.
É muito difícil capturá-lo,
ou melhor, é impossível contê-lo.
(Pinochet)


O que é propriamente o marxismo? Muito se tem falado sobre isso nos últimos tempos, mas sem propriedade adequada, o que leva a certos equívocos. Para evitar isso, resolvemos escrever essa coluna dando alguns esclarecimentos mínimos sobre o assunto para que pelos menos se tenha maior cuidado ao falar de algo que se desconhece ou, pelo menos, não se conhece tão bem assim.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Mitologias V




Mitologias V

Acrescentamos abaixo mais um fragmento da obra “Mitologias” de Roland Barthes sobre os mitos de direita:

Estatisticamente, o mito se localiza na direita. É aí que ele é essencial: bem-alimentado, lustroso, expansivo, falador, inventa-se continuamente. Apodera-se de tudo: justiças, morais, estéticas, diplomacias, artes domésticas, Literatura, espetáculos. A sua expansão tem a exata medida da omissão do nome burguês. A burguesia pretende conservar o ser sem o parecer: é, portanto, a própria negatividade do parecer burguês, infinita como toda negatividade, que solicita infinitamente o mito. O oprimido não é coisa alguma; possui apenas uma fala, a de sua emancipação, o opressor é tudo, a sua fala é rica, multiforme, maleável, dispõe de todos os graus possíveis de dignidade: tem a posse exclusiva da metalinguagem. O oprimido faz o mundo e possui apenas uma linguagem ativa, transitiva (política). O opressor conserva o mundo, a sua fala é completa, intransitiva, gestual, teatral: é o Mito; a linguagem do oprimido tem como objetivo a transformação e a linguagem do opressor, a eternização.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Mitologias IV




Mitologias IV

Coloco o quarto fragmento da obra “Mitologias” de Roland Barthes sobre os mitos de esquerda:

Existe, portanto, uma linguagem que não é mítica, que é a linguagem do homem produtor: sempre que o homem fala para transformar o real, e não mais para conservá-lo em imagem, sempre que ele associa a sua linguagem à produção das coisas, a metalinguagem é reenviada a uma linguagem-objeto, e o mito torna-se impossível. Eis a razão por que a linguagem propriamente revolucionária não pode ser uma linguagem mítica. A revolução se define como um ato catártico, destinado a revelar a carga política do mundo: ela faz o mundo, e toda a sua linguagem é absorvida funcionalmente neste “fazer”. É por produzir uma fala plenamente, isto é, inicialmente e finalmente política, e não, como o mito, uma fala incialmente política e finalmente natural, que a revolução exclui o mito. Do mesmo modo que a deserção do nome burguês define simultaneamente a ideologia burguesa e o mito, assim a denominação revolucionária identifica a revolução com a ausência do mito: a burguesia se mascara como burguesia, esse mascarar-se produz o mito; a revolução se ostenta como revolução e, dessa forma, suprime o mito.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Black Mirror - Feixe Temporal




O filme recente da Netflix “Black Mirror: Bandersnatch” lançado em dezembro de 2018 traz uma interatividade para os usuários da plataforma. Isso significa dizer que em determinados momentos do filme os usuários são convidados a “escolher” entre duas alternativas o que irá fazer o personagem principal. Tal interatividade permite que o filme tenha finais diferentes dependendo da escolha que se faz. O filme trata de um jovem programador que adapta um romance de fantasia ao videogame durante os anos de 1980. Através de escolhas sempre binárias, o filme caminha para novos rumos.

domingo, 13 de janeiro de 2019

Mitologias III



Mitologias III

Acrescentamos abaixo mais um fragmento da obra “Mitologias” de Roland Barthes:

E é aqui que voltamos a encontrar o mito. A semiologia nos ensinou que a função do mito é transformar uma intenção histórica em natureza, uma eventualidade em eternidade. Ora, este processo é o próprio processo da ideologia burguesa. Se a nossa sociedade é objetivamente o campo privilegiado das significações míticas, é porque o mito é formalmente o instrumento mais apropriado para a inversão ideológica que a define: a todos os níveis da comunicação humana, o mito realiza a passagem da antiphysis para a pseudophysis.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Mitologias II



Mitologias II

Continuando a análise da obra “Mitologias” de Roland Barthes, colocamos mais um trecho:

Se me contento aqui com um esboço sincrônico dos mitos contemporâneos, é por uma razão objetiva: a nossa sociedade é o campo privilegiado das significações míticas. É preciso agora dizer por quê.
Quaisquer que sejam os acidentes, os compromissos, as concessões e as aventuras políticas e sejam quais forem as modificações técnicas, econômicas ou mesmo sociais que a história nos traga, a nossa sociedade ainda é uma sociedade burguesa.

domingo, 30 de dezembro de 2018

A função do mito em Platão


A função do mito em Platão

O trabalho que nos propomos sobre o estudo do mito na obra de Platão tem como base o artigo de Ludwig Edelstein intitulado “The Function of the Myth in Plato’s Philosophy”. Em seu trabalho, Edelstein nos apresenta, de forma geral, o porquê de Platão se utilizar do mito e a função que este desempenha em sua filosofia. O autor contribui assim para o desenvolvimento do pensamento sobre o assunto e proporciona uma alavanca para os estudos posteriores sobre o mito em Platão. Por fim contribuiremos com uma conclusão crítica sobre o assunto.

Para ler o artigo completo, aqui.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

O Problema da Demarcação: Uma Introdução



O Problema da Demarcação na Filosofia de Karl Popper
Luiz Maurício Bentim da Rocha Menezes

Resumo: O intuito deste artigo e é estudar o problema da demarcação na filosofia de  Karl  Popper  e  suas  consequências  para  a  epistemologia  e  para  o  fazer científico.  O  problema  da   demarcação  consiste  em  distinguir  a  ciência  da pseudociência.  Como  é  possível  reconhecer  uma  teoria  realmente  científica  e fazer uma distinção de uma teoria não científica? Em outras palavras, o problema envolve  a  justificação  daquilo  que  se  constitui  como  ciência.  O  problema  da demarcação consiste em verificar o próprio valor da ciência e suas implicações no mundo.

Para ler o artigo na íntegra, aperte aqui.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Mitologias I




Mitologias I

Inicio uma série de comentários sobre trechos da obra “Mitologias” de Roland Barthes.

Na realidade, aquilo que permite ao leitor consumir o mito inocentemente é o fato de ele não ver no mito um sistema semiológico, mas sim um sistema indutivo: onde existe apenas uma equivalência, ele vê uma espécie de processo causal: o significante e o significado mantêm, para ele, relações naturais. Pode exprimir-se esta confusão de um outro modo: todo o sistema semiológico é um sistema de valores; ora, o consumidor do mito considera a significação como um sistema de fatos: o mito é lido como um sistema factual, quando é apenas um sistema semiológico. (2003, p. 223)

domingo, 16 de dezembro de 2018

Héracles: força, amizade e humanidade


Héracles: força, amizade e humanidade


 Falaremos hoje da tragédia "Héracles", escrita pelo poeta grego Eurípides (c. 480-406 a.C.). Héracles, mais conhecido pelo seu nome latino Hércules, é o herói filho do deus Zeus com a mortal Alcmena. O sentido do nome Héracles é a reunião das palavras "Hera", a deusa esposa de Zeus que perseguia incansavelmente o herói, e Cléos, que significa glória, formando, em tradução livre, a "glória de Hera". Isso se deve a imposição de Hera a uma série de trabalhos a Héracles (os famosos 12 trabalho) nos quais a sua fama ia aumentando. Em seu Héracles, Eurípides subverte o enredo mitológico, pois antepõe os trabalhos ao assassinato de sua família. Quando a história se inicia, o herói encontra-se no Hades para realizar seu último trabalho (capturar Cérbero, o cão de três cabeças que guardava a entrada do submundo) e sua família está ameaçada de morte pelo tirano Lico, que na ausência de Héracles assassinara Creon, rei de Tebas e pai de Mégara (esposa de Héracles), e usurpara o trono, fiando-se na probabilidade quase nula de o herói escapar dos ínferos com vida. Mas, para azar de Lico, Héracles retorna e acaba com seu breve reinado. É nesse momento, exatamente no meio da peça, que há uma reviravolta nos acontecimentos e Héracles é acometido pela loucura divina que o faz matar sua esposa e filhos. Ato feito, ele acaba adormecido pela deusa Atena para evitar que ele continue a matança pela cidade.

sábado, 8 de dezembro de 2018

Sobre o Homem Absurdo


Sobre o homem absurdo

Continuando o assunto da coluna passada sobre “O Mito de Sísifo” de Albert Camus, retomamos a problemática do homem absurdo. A obra abre com uma questão de suma importância, uma questão que, segundo Camus, seria a primeira de todas as questões filosóficas: devemos optar pela vida? Ou, trazendo para o pessoal, pois se trata de uma questão em que cada um deve se esforçar para responder: devo eu me suicidar ou optar pela vida? E por que seria essa a questão fundamental? Porque se não vale a pena viver, então nada mais deve ser vivido, nenhuma questão, experiência ou pensamento.  Desse modo, responder a questão sobre a própria vida é a primeira coisa a ser feito, já que todo o resto decorre disso.

domingo, 2 de dezembro de 2018

Sísifo ou o absurdo do amanhã



Sísifo ou o absurdo do amanhã
Em nossa primeira coluna neste jornal (30/07/2017), e que abriu a categoria “Cidade Filosófica”, escrevemos sobre a obra “O Mito de Sísifo” do argelino Albert Camus. Gostaríamos hoje de retomar a temática do absurdo presente na obra. Segundo Camus, o absurdo não pode ser uma filosofia, mas é um sentimento. É quando a razão se depara com seus limites e o homem se encontra divorciado do mundo: não se pode compreendê-lo. Disso surge o homem absurdo, isto é, o resultado do sentimento do absurdo no homem e sua incapacidade para racionalizar o mundo. Nas palavras de Camus: “o homem absurdo, ao contrário, não processa esse nivelamento. Reconhece a luta, não despreza de modo algum a razão e admite o irracional. Desse modo, ele encobre do olhar todos os dados da experiência e não está nada disposto a saltar antes de saber. Ele sabe, somente, que nessa consciência atenta não há mais lugar para a esperança”.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Amanhã há de ser outro dia...


Amanhã há de ser outro dia...


Na “República” de Platão, Sócrates irá demonstrar o nascimento da tirania depois de um longo processo de degradação da constituição. Partindo do modelo bom e justo, que pode ser tanto a aristocracia (mais de um governante) ou a realeza (um único governante), teremos, com sua consequente corrupção, a timocracia, a oligarquia, a democracia, para, por fim, originar-se a tirania. Apesar de a tirania ser colocada como a pior forma de governo por Sócrates, ela é vista pela maioria das pessoas como sendo a melhor e a mais feliz. Isto se deve a uma noção das pessoas da natureza humana como sendo voltada para a pleonexía, isto é, a vontade de ter sempre mais, visando, dessa forma, o seu próprio interesse em detrimento dos demais. Isso leva a uma concepção da justiça como sendo penosa e não agradável, o que faz com que se tome a vida do injusto como sendo mais feliz do que a do justo. Tal tipo de pensamento é apresentado no Livro II pelo desafio de Gláucon a Sócrates, cabendo a ele responder se a justiça é por si mesma um bem e se é de qualquer maneira melhor do que a injustiça, sendo agradável para aquele que for justo. Os livros VIII e IX são a resposta de Sócrates a este desafio, analisando a vida daquele que é pelas massas considerado o mais completamente injusto e feliz dos homens: o tirano.

domingo, 4 de novembro de 2018

As Aves




As Aves

A dança-teatro “À Travers Ça” do Núcleo Contemporâneo das Artes (NuCA) e dirigida por Edson Fernandes tem como concepção a dança como processo de fundação. A cena é dividida por seis atores dançarinos que se utilizam, principalmente, do corpo para expressar ao público o sentimento da peça. E que sentimento seria esse? Eles são pássaros e, como pássaros, estão a construir um ninho para eles. Há destaque para uma das atrizes que representa a Natureza, aquela que vai marcando o terreno com suas folhas e galhos para que os pássaros possam atravessar. Os demais agem como pássaros que estão fundando um ninho-peça-teatro. Para isso se utilizam da dança como o fundamento do movimento, do agir, da vida. Há toda uma simbologia em nascer pássaro, em demarcar o terreno, em marcar com o giz o “buraco” em que irão construir seu ninho-cidade.

domingo, 14 de outubro de 2018

O Barqueiro




O BARQUEIRO

Luiz Maurício Bentim da Rocha Menezes

A peça teatral “O Barqueiro” de Mário Cortês tem como mote um personagem anônimo que resolve ir atrás do pai que há muito tempo viajou em busca da “ilha desconhecida”. A peça se passa o tempo todo a partir da técnica solo desenvolvida pelo ator sem qualquer cenário ou objetos com a exceção de uma garrafa vazia. O ponto alto desta técnica é que o público se vê obrigado a interagir com o ator e, de certa forma, participar do imaginário da peça. A imaginação, portanto, se torna um ponto fundamental para o desenrolar da peça, pois sem imaginação a peça acabaria por se perder. Isso faz com que o ator tenha que ser muito hábil para trazer o público para dentro sem deixar que o foco se perca, o que pode ser um ponto desfavorável se o ator não conseguir conduzir a ação do espetáculo.

domingo, 30 de setembro de 2018

Prometeu Inexplicável



Prometeu Inexplicável
Luiz Maurício B. R. Menezes

Continuando a nossa jornada através dos textos de Prometeu, trataremos aqui sobre o “Prometeu” de Franz Kafka. Antes propriamente de esmiuçarmos seu trabalho, colocaremos o fragmento por inteiro abaixo:

terça-feira, 28 de agosto de 2018

O Homem que improvisava




O Homem que improvisava

Muitas vezes tomamos o improvisador como um artista ou um instrumentista, talvez ainda um político. Todos esses têm a característica de se utilizarem da improvisação dentro de seus campos de atuação, o que parece algo inerente a essas funções. Mas há o homem-improvisador que não corresponde a nenhuma dessas categorias. A arte de improvisar na vida vem das adversidades que esta nos apresenta. Improvisar é viver sem ter que planejar o dia de amanhã, é ter que sentir cada instante como único, como um andarilho vagando pelo mundo.

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