quarta-feira, 30 de junho de 2010

Um diálogo filosófico sobre o pensamento

Feltran: Olhe, Deltran, aqui no microscópio, as amebas fugindo das agulhas de micromanipulador... Elas são tão espertas! E aquela ali? O que será que ela deve estar pensando?
Deltran: Pensando?! Amebas não pensam, Feltran! Elas agem por instinto.
Feltran: Não pensam? O que você quer dizer com instinto? Que as amebas são automáticas?
Deltran: Não. Não quero dizer que elas são automáticas no sentido em que um microondas é automático. Só quero dizer que elas agem sem que tenham nenhum pensamento, ou seja, o fundamento de suas ações não é nada cognitivo, mas é algo como um sentimento. 


Feltran: Aceito mais ou menos... Eu admito que um dos fundamentos da ação de uma ameba são seus sentimentos; assim como ocorre conosco. Mas dizer que os sentimentos, em detrimento dos pensamentos, são o fundamento da ação de uma ameba exige que você afirme que ou os sentimentos da ameba não lhe geram pensamentos, ou os pensamentos não podem ocorrer onde ocorrem sentimentos. Como nós, humanos, normalmente temos sentimentos e pensamentos, sabemos que pensamentos podem ocorrer onde ocorrem sentimentos. Além disso, como sabemos também que pensamos coisas a partir de nossos sentimentos, dizer que isso não ocorre com uma ameba exige um argumento extra. E você pode me prover tal coisa?
Deltran: Oras, uma ameba não tem cérebro!
Feltran: E daí? Não vejo como isso vem a ter relevância.
Deltran: Como não?! Um cérebro permite uma complexidade de relações neuronais e é por isso que temos pensamentos. Afinal, um ser humano sem cérebro não pensa. Logo, se uma ameba não possui um aparato que permita uma complexidade de relações neuronais tal qual o do ser humano – sobre quem sabemos que pensa –, então ela não pensa.
Feltran: Que precipitação, Deltran! De onde você tirou a idéia de que é preciso de um cérebro para pensar?
Deltran: Simples. Retirei essa idéia de uma boa indução baseada em nossa experiência empírica: reparamos que todos os seres com comportamentos complexos têm cérebros e reparamos que o pensamento é a fonte desse comportamento em nós. Daí, concluí que o pensamento advém do cérebro.
Feltran: Eu não tenho problemas em admitir que o pensamento advenha do cérebro, o meu problema é aceitar que o pensamento possa advir do cérebro. E parece-me que é exatamente isso que você está defendendo. É claro que vemos que nos seres humanos, assim como em outros animais, o pensamento está intimamente ligado ao cérebro. Mas isso não é razão para que pensemos que isso ocorre para todos os seres. Normalmente, acreditamos que duas causas diferentes (ou conjunto de causas) podem gerar o mesmo ou semelhante efeito; por exemplo: quando colocamos a mão no fogo, assim como quando colocamos a mão no gelo, nos queimamos. Assim, se afirmo que o cérebro causa o pensamento, não entendo porque deveria também afirmar que nenhuma outra coisa o causa. Portanto, não entendo por que você afirma isso.
Deltran: Certo, não vou usar o cérebro como critério para o pensamento. Mas algo que pensa deve ter um comportamento complexo que indique sua origem num pensamento.
Feltran: Também não entendo o porquê. Você diria de um autista que apenas dorme, olha para a parede e faz cálculos espantosos, que ele pensa?
Deltran: É claro que ele pensa! Pois ele demonstra seu pensamento através dos cálculos que produz. Se ele não produzisse esses cálculos, diríamos que ele não pensa.
Feltran: Agora parece-me que você está a confundir metafísica e epistemologia. Se supusermos que esse mesmo autista nunca tenha produzido provas de que ele faça esses cálculos, isso não faria com que ele deixasse de fazê-los. Por isso, não faria com que o autista não pensasse; apenas faria com que não soubéssemos que ele pensa. E ainda, se aceitarmos que tal autista, mesmo sem demonstrar, possa pensar, então estaremos aceitando que um ser com um comportamento menos complexo que o de uma ameba possa pensar. Daí, não entendo por que uma ameba não poderia pensar. Parecer-me-ia uma decisão arbitrária. Seguindo o seu próprio critério – o que acredito ser um bom critério para indicar que algo tem pensamento, mas não para indicar que algo não tem pensamento –, a ameba apresenta alguns comportamentos que indicam que ela tem pensamento. Um exemplo de tais comportamentos é ela criar pseudópodos no sentido contrário à irritação que lha causamos quando a espetamos com uma agulha de micromanipulador. Isso indica pensamento, pois é necessário que a ameba saiba alguma coisa para que ela possa se direcionar no sentido contrário à irritação.
Deltran: Tudo bem. Eu admito, a título de hipótese, que a ameba possa pensar. Porém, eu gostaria de saber aonde você vai parar... Se a ameba pensa, por que uma pedra não pensa?
Feltran: Uma pedra?...
Deltran: E ainda: o vento pensa? E as moléculas de água? E as minhas células? E o universo? O que é que não pensa?
Feltran: Não, não, não... Acredito que você tenha me compreendido inadequadamente. Eu não quero defender a tese de que tudo pensa. O que quero dizer é que você não tem justificações para a sua asserção de que alguns seres pensam enquanto outros não pensam. Já que não é impossível que um ser que não demonstre pensamento tenha pensamento, como por exemplo um autista ou uma pessoa em coma, e que é possível que duas causas diferentes causem o mesmo ou semelhante efeito, nós não sabemos se é possível que as pedras, as moléculas, ou mesmo o universo, pensem. Entretanto, como eu disse antes, parece-me que você indicou um bom critério para que uma certa coisa pense: seu comportamento.
Deltran: Eu aceito que o critério que tentei usar não é bom para indicar que algo não tem pensamento, mas agora estou com dificuldade de aceitar o meu próprio critério para que algo tenha pensamento. Pois, se nos deparássemos com uma inteligência artificial bastante complexa e programada para agir como um ser humano, mas não soubéssemos que ela é uma inteligência artificial, então diríamos que ela pensa. Além disso, acredito que nem você pode aceitar esse critério, pois ele é por demais epistêmico: ele é apenas a indicação de que um ser se comporta como outro que acreditamos que tem pensamento; mas isso não diz nada sobre se aquele ser está realmente pensando. No máximo, você pode saber que você pensa. Meu comportamento não é uma indicação de que penso; eu posso ser uma inteligência artificial orgânica.
Feltran: Sim. Você pode ser uma inteligência artificial orgânica muito complexa, mas por que isso indicaria que você não pensa? Se uma inteligência artificial tem memória, busca e relaciona dados de acordo com ordens internas ou externas, consegue realizar atividades que se exigem que se tenha um objetivo, então não entendo por que seria o caso dessa inteligência artificial não pensar. Ela realizaria as coisas exatamente parecidas ao modo como realizamos. O critério comportamental me parece realmente bom para aceitarmos que algo pensa, pois não há diferença substancial entre o ser humano e tal inteligência artificial. E, além disso, o critério não precisa ser epistêmico, pois estou falando metafisicamente sobre a necessidade do pensamento que alguns comportamentos têm.
Deltran: Agora parece-me que cabe novamente uma objeção que antes deixei passar. Qual a necessidade que o comportamento da ameba tem do pensamento? E ainda: qual o critério para que um comportamento necessite de um pensamento?
Feltran: Penso que se dissermos que a ameba não necessita de pensamento para produzir seu comportamento de fugir da irritação, não conseguiremos dizer que outros seres necessitam de pensamento para seus comportamentos. Isso é assim, pois podemos descrever os processos fisiológicos humanos, por exemplo, sem nenhuma referência aos processos mentais, assim como o fazemos com a ameba; o que nos faria acreditar que o ser humano não pensa. E, contrariamente, se dissermos que o ser humano necessita de pensamento para certos comportamentos, então não poderemos dizer que o comportamento da ameba não necessita. E, dessa forma, se acreditamos que nós pensamos, então não vejo motivos para não dizermos que é possível – num sentido epistêmico – que esta ameba também pense. Assim, sobre o critério, assumimos rotineiramente que seja um comportamento que indique que se tenha que saber alguma coisa para executá-lo. Se a ameba precisa saber de qualquer coisa, como o fato de que existe um caminho para ela seguir no sentido oposto à irritação, então ela, assim como nós e como a inteligência artificial orgânica complexa, pode ser assumida como um ser pensante. Sobre as pedras, o vento e coisas sem comportamento de ser pensante, não podemos dizer que pensam; entretanto, também não podemos dizer que não pensam. Como o pensamento é uma coisa interna que pode ser manifestado por meio de comportamentos, e já que dois conjuntos de causas diferentes podem causar o mesmo ou semelhante efeito, parece-me que ficará para sempre sem resposta a questão de se as pedras, as plantas, o vento, as moléculas e outros seres sem comportamento pensante pensam.  
Deltran: Concordo com você, Feltran... Voltando, então, ao assunto, definitivamente não imagino o que aquela ameba estava pensando....


 



2 comentários:

L Janz disse...

Excelente diálogo!

Taí uma belíssima e suficientemente inovadora forma de se fazer filosofia. Na verdade, eu até insinuaria se tratar de um invejável resgate da Maiêutica Socrática... Desse modo, e, sem dúvida nenhuma, todas as questões se tornam muito mais atraentes e excitantes! :D

Parabéns mesmo pelo trabalho.
Aquele abraço, Léojanz.

Rodrigo Cid disse...

Obrigado, Leo! Tenho mais um diálogo, com um amigo meu, sobre a objetividade da beleza que vou lhe perguntar se posso postar.

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