sexta-feira, 8 de novembro de 2019

A (Impossível) Genealogia do Coringa (I)


A (Impossível) Genealogia do Coringa (I)

Gostaríamos de iniciar aqui a nossa análise sobre o novo filme do Coringa. Para quem não conhece, o Coringa é o principal vilão do Batman publicado pela editora estadunidense DC Comics. Foi criado por Jerry Robinson, Bill Finger e Bob Kane e apareceu pela primeira vez em Batman #1 (Abril de 1940). O novo filme intitulado “Coringa” trata da controversa origem do vilão que nunca foi bem explicada nos quadrinhos. Iremos dividir nosso trabalho em partes com o intuito de esclarecer aos poucos a nossa interpretação. Nesta primeira parte, vamos apresentar uma breve leitura sobre o filme e sobre a modo como ele foi construído.

O filme se diferencia por focar na caracterização psicológica do personagem, deixando a ação de lado, ao contrário da maioria dos filmes de heróis. Há no filme uma tentativa de humanizar o personagem com explicações psicológicas e sociais para a sua derradeira "transformação". Primeiramente dando-lhe um nome “normal”: Arthur Fleck. A tentativa de nomear (ou renomear, melhor dizendo) o personagem é uma das maneiras de tentar caracterizá-lo como um alguém humano que passou por certo sofrimento até virar definitivamente o seu duplo ou o seu verdadeiro ‘eu’ como alguns podem interpretar. Dessa forma, o personagem passa a ideia de ser um sujeito qualquer que foi levado ao ápice da loucura para se tornar o Coringa. O conflito do personagem é reforçado por um forte distúrbio psicológico, uma mãe doente e mentalmente perturbar, a ausência paterna e um possível complexo de Édipo. Em resumo, um prato cheio para qualquer psicanalista freudiano.
Em segundo lugar, podemos falar da necessidade de uma explicação causal para o personagem. De maneira que o personagem tenha que ser uma construção histórico-social do mundo em que ele vive. Quanto a isso, a opção do diretor foi por uma leitura caótica do mundo, onde muitas pessoas têm muito pouco e vivem na falta de bens básicos para a sua sobrevivência, assim como sofrem de uma profunda carência afetiva, enquanto um pequeno número de pessoas super ricas detêm a maior parte da riqueza local. Gotham City é o típico cenário para retratar o mundo contemporâneo neoliberal em que grande parcela da população está a margem sistema e, portanto, não participa do consumo mundial, enquanto uma pequeníssima parcela concentra a maior parte da riqueza total.
É nesse contexto de concentração de renda, violência e distúrbio que o personagem do Coringa ganha destaque quando mata três funcionário da empresa Wayne. É como se, nesse momento, o personagem começasse a se libertar de seus grilhões e, como um Prometeu Liberto, ele ganhasse consciência sobre a realidade a sua volta e a necessidade de agir diretamente sobre o mundo para transformá-lo. O mundo não é fruto de um delírio da sua psiquê em conflito, mas é o resultado de uma razão neoliberal que adoece e faz sofrer todos aqueles que estão à margem da sociedade. É preciso fazer sofrer agora o outro lado da moeda: é preciso fazer com que os ricos colham os resultados do sofrimento que causaram. Isso fica claro com o estouro do movimento popular dos palhaços.
Os assassinatos cometidos por Fleck no metrô serão o mote que impulsionará a população da cidade a usar a máscara do palhaço como uma forma de protesto dos pobres contra os ricos. O Coringa acaba por se tornar símbolo revolucionário e representante máximo da luta de classes. Nesse sentido, há uma clara opção do diretor em polarizar Gotham City com disputas entre ricos e pobres da cidade, mais propriamente entre os adeptos da família Wayne e os adeptos do movimento dos palhaços.
Olhando por esse lado, consideramos que o filme cumpre o seu papel e demonstra coerência com a caracterização do personagem do Coringa como fruto desse mundo desigual, injusto e caótico. No entanto, essa visão acaba por reduzi-lo a uma visão simplista demais para dar conta de um personagem tão complexo. É preciso adentrar de maneira mais árdua a nossa crítica sobre o filme e aprimorar a nossa investigação sobre o Coringa. Isso é o que pretendemos na próxima coluna.

Direção: Todd Phillips
Elenco: Joaquin Phoenix, Robert De Niro.
Gênero: Drama
Título original: Joker
Distribuidor: WARNER BROS.
Ano de produção 2019

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