domingo, 14 de outubro de 2018

O Barqueiro




O BARQUEIRO

Luiz Maurício Bentim da Rocha Menezes

A peça teatral “O Barqueiro” de Mário Cortês tem como mote um personagem anônimo que resolve ir atrás do pai que há muito tempo viajou em busca da “ilha desconhecida”. A peça se passa o tempo todo a partir da técnica solo desenvolvida pelo ator sem qualquer cenário ou objetos com a exceção de uma garrafa vazia. O ponto alto desta técnica é que o público se vê obrigado a interagir com o ator e, de certa forma, participar do imaginário da peça. A imaginação, portanto, se torna um ponto fundamental para o desenrolar da peça, pois sem imaginação a peça acabaria por se perder. Isso faz com que o ator tenha que ser muito hábil para trazer o público para dentro sem deixar que o foco se perca, o que pode ser um ponto desfavorável se o ator não conseguir conduzir a ação do espetáculo.

A história retrata, primeiramente, o personagem esperando seu pai voltar. Sempre a olhar para o mar, ele encontra uma garrafa com um bilhete dentro. Desconhecemos o teor do bilhete, mas é o suficiente para deixar o personagem bem animado. É nesse momento que a ação começa de fato. Entre tantos marinheiros que retornam, o personagem não consegue notícias de seu pai a não ser que ele teria ido “rumo a uma ilha desconhecida”. A partir desse momento o personagem passará grande parte da peça em busca de um barco para poder fazer a mesma travessia que seu pai fez. Será nesse momento de busca pelo barco que o imaginário será mais forte. Entre diversas aventuras a peça chega a jogar com o surrealismo e com o realismo mágico, apresentando situações inusitadas e cômicas. Acreditamos que, pelo desempenho do ator, a ação não se perde e deixa o público atento a cada novo episódio.
O personagem d’ “O Barqueiro” se assemelha a Sísifo e sua pedra, repetindo dia após dia a sua rotina diária em busca de seu pai. No entanto, há um pequeno ponto que o afasta essencialmente de Sísifo que é a esperança. O personagem espera dia após dia pelo reencontro com seu pai e não percebe o absurdo que há em esperar, pois não há sentido na vida que espera. Viver é esse espetáculo que assistimos em primeira pessoa, em que usufruímos o fardo da existência pessoalmente. E esse fardo não podemos não carregar, pois ele é nosso e sobre ele temos que refletir e viver. O absurdo só faz sentido na medida em que o homem o mantém, de modo a nunca se conformar e contra ele se revoltar constantemente. Quem alguma vez conheceu o absurdo, a ele ficará para sempre desesperadamente ligado. Talvez o personagem se dê conta disso em seu momento final, mas isso não nos fica explícito na narrativa da peça.
O ponto crucial da peça se encontra na conexão que se faz entre o começo e o fim do espetáculo. Eles se interligam pela semelhança das cenas cujo elo é a garrafa que contém uma mensagem. Na primeira cena, temos o personagem retirando a mensagem da garrafa, já na cena final, temos o personagem colocando a mensagem na garrafa. Isso transmite uma aura da continuidade infinita da peça, sendo a garrafa aquela que consegue fechar o ciclo das cenas entre si. Isso nos lembra uma passagem de Nietzsche na “Gaia Ciência” em que ele nos diz:

E se, um dia ou uma noite, um demônio se viesse introduzir na tua suprema solidão e te dissesse: “Esta existência, tal como a levas e a levaste até aqui, vai-te ser necessário recomeçá-la sem cessar; sem nada de novo; muito pelo contrário! A menor dor, o menor prazer, o menor pensamento, o menor suspiro, tudo o que pertence à vida voltará ainda a repetir-se, tudo o que nela há de indizivelmente grande e de indizivelmente pequeno, tudo voltará a acontecer, e voltará a verificar-se na mesma ordem, seguindo a mesma imperiosa sucessão... esta aranha também voltará a aparecer, este lugar entre as árvores, e este instante, e eu também! A eterna ampulheta da vida será invertida sem descanso, e tu com ela, ínfima poeira das poeiras!...” Não te lançarias por terra, rangendo os dentes e amaldiçoando esse demônio? A menos que já tenhas vivido um instante prodigioso em que lhe responderias: “Tu és um deus; nunca ouvi palavras tão divinas!”
Se este pensamento te dominasse, talvez te transformasse e talvez te aniquilasse; havias de te perguntar a propósito de tudo: “Queres isto? E queres outra vez? Uma vez? Sempre? Até ao infinito?” E esta questão pesaria sobre ti com um peso decisivo e terrível! Ou então, ah!, como será necessário que te ames a ti próprio e que ames a vida para nunca mais desejar outra coisa além dessa suprema confirmação! (Aforisma 341)

O eterno retorno de se viver o mesmo e o mesmo por infinitas vezes. Apesar do uso peculiar da garrafa para traçar esse caminho, isso ainda não está muito claro na narrativa da peça, embora possamos ver um leve engatinhar nesse sentido. Talvez valesse a pena investir com maior afinco nessa construção cíclica da peça. É uma proposta dramatúrgica, que fala em “mundos invisíveis”. Quando o personagem se permite cruzar essas fronteiras entre o real e imaginário, entre a técnica e o mágico, e carrega o público consigo, temos como resposta um espetáculo curioso, divertido, fabuloso e agradável.


Ficha técnica
Autor: Mario Cortês
Atuação e Dramaturgia: Mário Cortês
Direção: Cláudio Márcio
Figurino: Mário Cortês
Iluminação e produção: Luciano Pachionni


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