segunda-feira, 2 de abril de 2018

Prometeu Liberto




Prometeu Liberto
Luiz Maurício B. R. Menezes





Novamente retornemos ao mito de Prometeu. Aqui nos propomos a relacionar Filosofa e Literatura no seu mais amplo sentido. Pois a aporía que está posta em toda questão filosófica, em toda obra aberta que há em todas as obras filosóficas, também pode ser vista nas obras literárias como em Kafka, Joyce ou Baudelaire, Poe, Dostoievski ou Camus. E se tomarmos ainda o Prometeu Desacorrentado de Percy Shelley, veremos um Prometeu liberto ou, se me permitirem a livre interpretação de ‘unbound’, ilimitado. Vejamos, nos versos de Shelley, o que nos diz um ainda acorrentado Prometeu, mas firme em seu desígnio:

Três mil anos de insone desabrigo,
momentos, sempre por ferrões divisos,
iguais a anos, tortura e solitude,
desdém e desespero – eis meu reino –
mais glorioso que aquele que em teu trono
despiciendo prospectas, Grande Deus!
Ah, onipotente, se eu me rebaixasse
à tua vergonhosa tirania
e não pendesse fixo a este gélido
morro confunde-águias, negro e morto;
sem fim, sem mato, inseto, besta ou vida.
Ai de mim! Dor, dor, sempre, sempiterna!
Sem mudar, sem cessar, sem crer! Resisto.
(SHELLEY, P. B. Prometeu Desacorrentado, Ato I, v. 12-24.)

A resistência de Prometeu perante a tirania de Zeus é o que o mantém livre, pois mesmo na dor e na solidão, ele se mantém sempre adiante no seu livre pensar, naquilo que ninguém antes dele pode conhecer. E aqui já podemos falar na formação de um Prometeu Moderno, uma reconstrução do antigo Prometeu pela poesia de Shelley sem mais ser (ou poder ser) o mesmo dos tempos clássicos. Essa seria a “gênese do Prometeu Moderno”, pois se pensarmos que Prometeu trata de um legado deixado aos homens, um legado de fogo e artes, teremos o início de uma resposta para a nossa aporia deixada em nossa primeira coluna sobre Prometeu, pois será essa mesma atitude prometeica do homem pelo avanço da ciência e das artes, que levará à gênese do Prometeu Moderno e também a sua condenação.
Shelley retrata com maestria em seus versos o fim de Zeus tirano. A firmeza e resiliência de Prometeu em não se subjugar acaba por levar a derrota de Zeus. Um novo mundo então surge. Um mundo que trará novamente o homem para o seio da Mãe Terra, na construção de um homem mais próximo da natureza. Esse novo mundo será chamado de Promethean em homenagem ao Titã vidente e, nesse momento, sem mais os grilhões que antes o acorrentavam ao Cáucaso.
A proximidade da modernidade com Prometeu também tem relação com o legado humano perante os avanços da ciência natural. Uma nova maneira de verificar a natureza começa a se desenvolver no campo humano, o que trará consequências irreversíveis para a subjetividade humana. Sobre isso iremos falar em nossa próxima coluna que tratará do Prometeu Moderno.

* Esse ensaio foi publicado primeiramente na "Gazeta" do Amapá no dia 01/04/18.

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