segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Considerações sobre a Operação Anel de Giges



A Polícia Federal em Roraima, em conjunto com a Receita Federal, deflagrou a Operação Anel de Giges, na manhã do dia 28 de setembro de 2017, com o objetivo de investigar a organização criminosa acusada de peculato, lavagem de dinheiro e desvios de verbas públicas. Dois filhos e dois enteados do senador Romero Jucá (PMDB-RR) são alvos da operação. O que nos chama atenção aqui, e que será alvo da nossa coluna de hoje, é o nome dado a operação da PF: Anel de Giges. Por que utilizaram esse nome? Quem seria Giges e que poder teria o tal anel?
Giges (ou Gyges) é um nome conhecido da antiga Lídia, região da Ásia Menor, onde hoje se situa a Turquia. Além dele ser o principal personagem da linhagem dos Mermnadae.  Sardis foi a principal cidade da Lídia e teve seu apogeu político, cultural e econômico na era da dinastia Mermnadae entre os séculos VII e VI a.C. Os Mermnadae iniciaram seu governo com a subida de Giges ao poder e terminaram com a queda de Creso pela invasão persa. Diversas histórias a seu respeito foram contadas, sendo a mais famosa aquela que conta a maneira como ele chegou ao poder, tornando-se o primeiro a ser chamado de tirano. A mais famosa destas histórias é a narrativa posta por Platão no Livro II (359d-360b) de sua obra “A República”, que tem como principal discussão a justiça.
Giges era um pastor que servia na casa do que era então soberano da Lídia. Devido a uma grande tempestade e tremor de terra, rasgou-se o solo e abriu-se uma fenda no local onde ele apascentava o rebanho. Admirado ao ver tal coisa, desceu por lá e contemplou, entre outras maravilhas que contam no mito, um cavalo de bronze, oco, com umas aberturas, espreitando através das quais viu lá dentro um cadáver, visivelmente maior do que um homem, e que não tinha mais nada senão um anel de ouro na mão. Arrancou-lho e subiu. Como os pastores se tivessem reunido, da maneira habitual, a fim de comunicarem ao rei, todos os meses, o que dizia respeito aos rebanhos, foi lá também, com o seu anel. Estando ele, pois, sentado no meio dos outros, deu por acaso uma volta ao engaste do anel para dentro da palma da mão e tornou-se invisível para os que estavam ao lado, os quais dialogavam sobre ele como se tivesse ido embora. Admirado, passou de novo a mão pelo anel e virou para fora o engaste e, ao virá-lo, se tornou visível. Tendo observado estes fatos, experimentou, a ver se o anel tinha aquela capacidade, e verificou que, se tivesse seu engaste virado para dentro, se tornava invisível; se o voltasse para fora, ficava visível. Consciente disto, logo fez com que fosse um dos mensageiros do rei. Uma vez lá chegado, seduziu a mulher dele e, com o auxílio dela, atacou e matou o soberano, e assim tomou o poder na Lídia.
O anel de Giges é, portanto, um anel de poder capaz de testar a capacidade dos homens de se manterem justos se tivessem esse poder ou, melhor dizendo, se não estiverem sendo vistos por outras pessoas. O desafio que se faz, com a narrativa do anel da invisibilidade, é que homem se manteria justo mesmo invisível? A justiça é natural ao homem ou é apenas uma obrigação legal que os homens deixam de cumprir quando não estão sendo observados pelos outros homens?

Contextualizando a história com a operação da PF, podemos verificar o grave problema que se atinge sobre os governantes de nosso país que, tentados pelo poder, acabam por fazerem atos ilícitos e injustos contra os cidadãos, prejudicando, com isso, toda a população.
* Esse ensaio foi publicado primeiramente na "Gazeta" do Amapá no dia 15/10/17.

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