sexta-feira, 16 de maio de 2014

Pode a Política ser neutra?



Em entrevista ao jornal “O Globo” de 15/05/2014, o ex-chanceler mexicano Jorge Castañeda fez uma dura crítica à neutralidade do Brasil com relação aos diversos conflitos externos:

O Brasil tem adotado uma política demasiadamente neutra, passiva, sobre muitos temas internacionais, um deles é a Venezuela. Mas há muitos outros. Por exemplo, ele se absteve na Assembleia Geral da ONU há três semanas sobre a Ucrânia. Se absteve sobre a Líbia, há alguns anos. Não se manifesta, não opina Se o Brasil quer ser realmente uma potência regional, com voz internacional, deve opinar, expressar-se sobre esses temas, o que não está fazendo.

As palavras de Castañeda nos levam à reflexão sobre a possibilidade de uma política neutra. Em um mundo globalizado, em que as relações são cada vez mais diretas e onde os acontecimentos são rapidamente conhecidos, podemos falar em neutralidade política? Esse assunto nos lembra das palavras do velho Maquiavel:

Um príncipe é ainda estimado quando é verdadeiro amigo e verdadeiro inimigo: isto é, quando sem hesitação alguma ele se revela em favor de alguém contra um outro. Posição essa que é sempre mais útil do que ficar neutro: porque se dois poderosos vizinhos seus começam a combater, ou eles são de tal qualidade que, vencendo um deles, tu tenhas de temer o vencedor, ou não.[1]

A recomendação de Maquiavel para o príncipe pode ser tomada por qualquer Estado. De que vale uma posição neutra? Ela é boa para quem? Um Estado não pode ficar limitado a suas posições internas, já que as atitudes externas devem ser sempre levadas em consideração para o seu próprio projeto de nação, sejam essas atitudes econômicas, políticas, ou midiáticas. Manter-se neutro traz um clima de desconfiança com relação ao Estado neutro, pois parte do princípio que ‘seja qual for o vencedor em nada isso me afetará’, o que é totalmente equivocado e também perigoso. Por isso, continua Maquiavel:

[...] será sempre mais útil decidir-te por um dos lados e declarar guerra aberta: porque no primeiro caso, se não te decidires, será sempre presa daquele que vence, com prazer e satisfação daquele que foi vencido; e não terás razão nem coisa alguma que te defenda nem te acolha, porque quem vence não deseja as amizades suspeitas e que não o ajudaram na adversidade; quem perde não te acolhe por não teres tu, com as armas em mãos, desejado compartilhar a sua fortuna.[2]

O Brasil tem se mantido em uma posição de conforto com relação aos conflitos existentes ao redor do mundo. Quando apoia uma posição não reforça esse apoio como deveria. É esse o tipo de política externa que deveríamos ter? Não seria melhor uma maior atitude do governo com relação ao que acontece ao redor dele? Talvez essa não seja uma falha apenas da política externa, já que nossa política interna não é muito diferente disso. Qual será a voz do Brasil?


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[1] MAQUIAVEL, N. O Príncipe. Tradução de José Antônio Martins. São Paulo: Hedra, 2010, cap. 21, p. 223.

[2] MAQUIAVEL, Ibid., p. 223.

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