quinta-feira, 15 de março de 2012

Sobre a interpretação das modalidades

Tradutor: Rodrigo Cid



Podemos dizer de algo que, embora não seja real, ele é, não obstante, possível? Ou que apesar de ser real, não é necessário? Em outras palavras: os juízos modais são significativos?

Muitos pensadores responderam a esta questão de forma negativa, como Jean Wahl. E não é preciso ser um crente no determinismo causal rígido para rejeitar os juízos modais. Pode-se argumentar, por exemplo, que o comportamento “não-determinístico” de um elétron pode ser descrito apenas em termos de eventos “reais”, sem nenhum recurso a juízos modais. O que queremos de fato dizer quando falamos que um elétron que acabou de passar por uma abertura “poderia” ter passado também pela outra abertura, dadas as mesmas condições? É possível uma interpretação de acordo com a qual esta sentença que parece “modal” não refere uma passagem do elétron pela abertura que é “não real, mas possível”, mas antes refere uma coleção de passagens. Afinal de contas, o que de fato observamos são passagens sucessivas e freqüências relativas que as passagens ocorrem em uma ou outra abertura. As frases sobre as passagens “possíveis”, para serem confirmáveis, devem ser traduzidas em frases sobre freqüências relativas. Só tal frase, onde o elemento “modal” está ausente, já torna a frase modal significativa.

Enquanto estivermos falando de eventos individuais, localizados no tempo e no espaço, é ao menos duvidoso se podemos fazer juízos modais significativos. Porém, se mudarmos o nosso quadro de referência, acredito que os juízos modais se tornarão significativos. Consideremos, por exemplo, sistemas contínuos com vários “graus de liberdade”. É bem natural e significativo falar das potencialidades desses sistemas a parte do seu comportamento atual.

II

Assim, por exemplo, sabemos que temos que lidar com certas substâncias, explosivas ou venenosas, com cuidado. Sabemos que se alguém consumir mais que uma quantidade crítica de veneno, ou aquecer um explosivo além de uma temperatura crítica, as consequências seriam indesejáveis – e, de acordo com isso, tomamos inúmeras medidas para excluir tais possibilidades desfavoráveis. Se formos bem sucedidos, então as “possibilidades” em vista das quais tomamos precauções nunca se tornarão “realidades”. Mas tal sucesso é apenas possível na medida em que os envolvidos estão conscientes das potencialidades da substância em questão. Seria extremamente irrazoável interpretar essas potencialidades simplesmente como freqüências relativas.

O quadro de referência envolvido aqui é antes o “padrão de respostas” de sistemas de diferentes tipos de organização, do que os “eventos atuais do mundo”. Dado que temos reunido uma quantidade suficiente de experiência, podemos determinar o “padrão de respostas” de um sistema por meio de uns poucos testes, sem de fato testar cada um de seus diferentes tipos de respostas. E o modo como atualmente lidamos com a coisa, a seleção dos estímulos que iremos permitir serem alcançados, será em grande parte determinado pelas respostas potenciais inferidas que podem nunca se materializar. A “potencialidade” como um aspecto de um padrão de respostas é, então, algo inteiramente diferente da “possibilidade” de um evento que pode ser interpretada como uma freqüência relativa. Dizer de uma quantidade de veneno que “ele é suficiente para matar 10.000 pessoas” não é o mesmo que dizer que “é possível que 10.000 pessoas serão mortas por esse veneno”, ou que “um certo número de pessoas, mais que 10.000, será de fato morto por este veneno”. A frase “isto é o suficiente para matar 10.000 pessoas” não refere nenhum evento com localização e nem uma freqüência de eventos com localização, mas sim uma potencialidade. Esta potencialidade é uma propriedade real de uma coisa real: temos que enfrentar isso “seriamente” quando lidamos com a coisa. Mas é possível tomar a potencialidade em consideração sem implicar que ela se tornará atual. Juízos modais significativos só podem ser feitos sobre essas “potencia-lidades”.

III

“Possibilidade” no sentido de “potencialidade” é uma característica do compor-tamento significativo adaptado. Temos que nos adaptar para lidar com o explosivo ou com o veneno de uma certa maneira. O organismo adaptado pode estar consciente das “potencialidades” da situação que domina pelo seu comportamento adaptado; ele pode estar consciente das suas próprias “potencialidades”. Esta consciência é conhecimento, mas conhecimento de um tipo que não refere eventos reais ou freqüências relativas de eventos reais. Este tipo de conhecimento é indispensável para a compreensão do comportamento adaptado, mas em si mesmo não é suficiente para permitir nenhuma conclusão sobre o que irá acontecer atualmente. Para fazer uma predição sobre isto – seja uma simples ou uma restrita por uma oração de “probabilidade” – eu preciso de outras premissas além de juízos sobre potencialidades. Nenhuma conclusão factual pode ser retirada de premissas modais sozinhas.

Recapitulando: podemos falar de possibilidade no sentido de “ser possível que” algo irá ocorrer e no sentido de “ser possível para” um sistema se comportar de uma certa maneira. Um juízo sobre “ser possível que...” não é uma expressão de um conhe-cimento modal, nem do conhecimento sobre as freqüências relativas de certos eventos, nem da ignorância. Entretanto, o conhecimento modal genuíno é expresso por frases sobre “ser possível para...”.

IV

Considerações similares se aplicam ao conceito de “necessidade”. Meu conhecimento de que certos eventos sempre ocorrem juntos não é um conhecimento modal; isso apenas concerne à freqüência relativa de certos eventos. Mas é algo completamente diferente se eu sei a estrutura de um sistema e se sei que ele permite apenas uma potencialidade. Por exemplo, se sei que uma sacola contém apenas bolas pretas, eu também sei que retirarei a cada vez “necessariamente” uma bola preta.

Devemos notar, entretanto, que este tipo de conhecimento também não refere eventos atuais; o que sabemos e falamos sobre não é “necessariamente que...”, mas “necessariamente para...”. Em outras palavras, as retiradas irão “necessariamente” ser de bolas pretas enquanto a estrutura do sistema permanecer intacta, mas é claro que não além disso. Para predizer como as retiradas irão ocorrer atualmente, preciso de mais que o conhecimento da estrutura de um sistema num dado momento; também tenho que saber se a estrutura do sistema não muda. Meu conhecimento modal concerne apenas à “necessidade para...”, isto é, necessidade relativa a uma certa estrutura. A partir somente de tais premissas modais, nenhuma conclusão factual pode ser derivada.

Na interpretação e na auto-interpretação do comportamento significativo, a “necessidade para...” tem um papel importante, e.g., dar conta do fenômeno da evidência. Entretanto, nenhum conhecimento sobre a “necessidade”, no sentido de “evidência”, é suficiente para predizer o comportamento atual, já que o comportamento irrazoável é sempre possível.

V

Essas observações estão distantes de esgotarem as variedades de quadros de referência em termos dos quais os juízos modais podem ser feitos. Um tratamento completo teria que discutir conceitos tais como “graus de confirmação” de proposições (cf. o artigo de Carnap neste periódico, vol. (1945), pp. 513-532), a distinção entre inferência lógica e factual, correlações e comprometimentos “essenciais” etc. O que eu quis frisar é apenas que, embora as frases modais de um certo tipo são sem sentido ou “colapsam com a atualidade”, outras frases modais, envolvendo um quadro de referências diferente, pode expressar um conhecimento genuíno.


Citação: Cid, Rodrigo (2012). "Tradução de KECSKEMÈTI, Paul (1946). “On the Interpretation of Modalities”. Philosophy and Phenomenological Research: vol. 7, n. 1, pp. 161-163". Blog Investigação Filosófica. Artigo eletrônico acessado em xx/xx/xxxx e encontrado em http://investigacao-filosofica.blogspot.com/2012/03/sobre-interpretacao-das-modalidades.html.

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