quinta-feira, 29 de março de 2012

Entrevista com o professor Guido Imaguire


Guido Imaguire é professor adjunto da UFRJ e pesquisador nível 2 do CNPq, e esteve no Cariri no começo de Maio de 2011 para partipar da II Semana de Filosofia da UFC (Cariri). Na ocasião ele gentilmente concedeu a seguinte entrevista ao aluno Dário Bandeira, bolsista do NEFA.

Clique aqui e veja a fonte desta entrevista no site do NEFA.

DÁRIO: Professor Guido, como foi o seu desenvolvimento filosófico e por que se tornou um filósofo analítico?

GUIDO: Eu comecei estudando teologia, e no curso de teologia fiz algumas disciplinas de filosofia. Despertado o interesse, logo depois do primeiro semestre, eu decidi me dedicar também à filosofia. Assim comecei a estudar filosofia em Porto Alegre, onde cursei três semestres. Então ganhei uma bolsa para a Alemanha. Assim com 19 anos eu fui morar em Munique, onde eu continuei paralelamente os estudos de teologia e filosofia. Mas eu comecei cada vez mais a me interessar por questões mais fundamentais, ou seja, de filosofia, o que me levou a deixar a teologia e me dedicar exclusivamente à filosofia. Bom, quanto a tornar-me um filósofo analítico, eu não sei se eu já me tornei um filósofo analítico. Eu acho que a gente vai se tornando a cada dia um filósofo analítico. Ninguém nasce prontamente um filósofo analítico. Eu espero algum dia ser plenamente um filósofo analítico. Mas eu me engajei no projeto, nesse modo analítico de fazer filosofia, mais ou menos no terceiro ano da graduação, quando eu, comparando diferentes paradigmas filosóficos, tive clareza que era ali que eu encontraria uma coisa que poderia me satisfazer mais. A filosofia analítica permitia um equilíbrio saudável entre leitura de textos clássicos e ao mesmo tempo reflexão crítica sistemática sobre esses temas. Eu achei que ali eu teria um equilíbrio de exegese filosófica e pensar filosófico livre. E também porque nesse paradigma eu encontrava alguns critérios relativamente objetivos – é muito difícil uma coisa completamente objetiva na filosofia – mas alguns critérios relativamente objetivos de comparação de argumentos. Aí você poder dizer: não, tal argumento é melhor do que outro argumento, e assim então, ter algum resultado positivo e não a sensação de ficar eternamente patinando e retornando aos mesmos problemas sem nenhum grau de evolução, nenhum grau de esclarecimento.

DÁRIO: Na sua opinião, qual o papel da filosofia no mundo de hoje?

GUIDO: A filosofia tem várias áreas. Eu diria, basicamente, as duas grandes áreas da filosofia são a filosofia teórica e a filosofia prática. É claro, que a filosofia prática tem uma utilidade para o mundo muito mais evidente e imediata do que a filosofia teórica. A filosofia teórica não nasceu com uma intenção de servir para alguma coisa. Eu acho que é uma expectativa geral que você tem na sociedade de hoje de que tudo o que se faz tem a função de servir para alguma coisa. Eu acho isso um pensamento demasiadamente consumista e capitalista. A filosofia nasceu na Grécia quando as pessoas já não precisavam mais correr atrás das necessidades básicas, de alimentação, de guerra e de proteção e podiam se dedicar a questões que eram de uma curiosidade humana profunda, que era característica da racionalidade humana. A partir daí, a filosofia foi se preservando durante esses dois mil anos com essa característica de uma atividade racional que nasce da curiosidade, do interesse por questões fundamentais, mas que não tem compromisso primário de servir para alguma coisa ou de ter alguma utilidade prática imediata. Isso pode vir a acontecer. É o caso, por exemplo, do desenvolvimento da lógica que acabou sendo fundamental para o desenvolvimento da computação, da informática. Então, os resultados são indiretos, eu diria. Mas, de qualquer forma, de modo genérico, o desenvolvimento do pensamento crítico é sempre útil para a construção de uma sociedade.

DÁRIO: Como você avalia a qualidade da filosofia produzida do Brasil hoje?

GUIDO: A filosofia brasileira é hoje sem dúvida melhor do que ela era há dez anos atrás, e muito melhor do que ela era há vinte anos atrás. Ou seja, a filosofia brasileira evolui. A nossa filosofia há algum tempo atrás vivia de alguns grandes nomes, de pessoas que foram importantes para a formação dos profissionais de hoje. Essas pessoas eram filósofos competentes, sem dúvida alguma, mas criaram uma espécie de comunidade tribalista, vários grupos relativamente fechados, onde praticamente não havia troca de informações ou troca de ideias e argumentos entre essas tradições. Os discípulos dessa geração já me parecem muito mais abertos, até por uma tendência mundial de tolerância e de cruzamento de informações. E assim, aos poucos essas tribos vão se dissolvendo numa comunidade pluriforme de pensadores. E graças ao apoio do CNPQ e da CAPES e de algumas instituições brasileiras que permitem que os pesquisadores estudem no exterior, a qualidade da pesquisa de fora acaba entrando também no Brasil. Mas o desenvolvimento filosófico é uma coisa lenta, você não pode esperar que o Brasil hoje faça uma filosofia com o mesmo padrão de alguns países europeus e dos Estados Unidos. É um processo lento e a gente precisa ter uma certa paciência, mas eu sou otimista. A tendência é a gente se aproximar cada vez mais desses grandes centros.

DÁRIO: Em relação a melhorar, no que a filosofia brasileira pode melhorar? Pensando em termos de qualidade.

GUIDO: Novamente, eu acho que uma coisa que a gente tem que ter é paciência. Não há uma receita rápida para uma melhora imediata. O que a gente pode tentar é ter algumas orientações básicas. Eu diria que um problema atual da filosofia brasileira é um excesso de ativismo. Eu acho que a parte mais importante da filosofia, que é a disciplina de sentar, estudar e pesquisar, isso é o que mais falta ao brasileiro. Eu acho que é uma tendência mundial geral que as pessoas esperam resultados muito rápidos. E essas instituições que fomentam a pesquisa têm sistemas de classificação, de ranking de programas, de departamentos. Isso acaba gerando uma necessidade muito imediata de produção numérica. E com isso os departamentos e programas têm corrido atrás de publicações em quantidade, e eventos em quantidade, ao invés de olhar para a qualidade. Eu acho que existe um ativismo grande e as pessoas estão dispersando energia em vez de focar na coisa mais fundamental que é a pesquisa séria, individual, detalhada e minuciosa, que é o trabalho filosófico. Isso é uma coisa, outra coisa é que eu acho que o Brasil ainda tem um vício de tipo de produção. O brasileiro ainda é voltado demais para a produção de livros. O brasileiro só lê livros, o brasileiro só escreve livros, enquanto que a comunidade internacional é muito mais voltada para artigos em revistas. É ali que ocorre o debate filosófico. Eu acho que o brasileiro precisaria dar mais atenção a revistas filosóficas, ler mais artigos. Isso incentivaria inclusive a discussão interna de filósofos brasileiros entre si. Essa é a segunda dica que eu daria.

DÁRIO: Essa seria uma dica para os professores trabalharem com menos livros e mais artigos?

GUIDO: Claro que não quero excluir o estudo de livros, mas acrescentar mais o estudo de artigos. Para professores e alunos, é claro.

DÁRIO: Você acha que a obrigatoriedade da disciplina de filosofia no ensino médio pode ajudar na melhoria dessa qualidade?

GUIDO: É controverso. Há argumentos positivos e negativos. Dentre outras coisas, o argumento negativo é que filosofia é atividade de reflexão sobre algum conteúdo. Eu acho às vezes que o ensino em filosofia é um pouco precoce quando ele é introduzido no segundo grau. Por outro lado, é claro que se você desperta o interesse filosófico já durante o ensino médio, você tem maior chance de atrair pessoas qualificadas para o estudo de filosofia. De fato ainda ocorre, ainda é comum no Brasil que pessoas ingressem no curso de filosofia por falta de opção, ou talvez porque não passem em outros cursos, ou talvez porque não sabiam o que fazer. Isso reduziria bastante se as pessoas entrassem já na universidade sabendo o que de fato é filosofia. Nesse sentido, é claro, seria melhor se as pessoas tivessem um contato mais cedo com a filosofia.

DÁRIO: E quanto ao conteúdo a ser ministrado no ensino médio, você tem alguma sugestão?

GUIDO: Bom, eu nem me sinto competente para responder esta questão porque isso é uma área estudada por pessoas que se dedicam ao ensino da filosofia, essa não é a área em que eu trabalho. Mas eu tive, de fato, filosofia no segundo grau, e na verdade não me foi útil porque foi histórico demais. Eu diria assim: se faz sentido ensinar filosofia a adolescentes, faria mais sentido lançar questões, dar filosofia do ponto de vista sistemático. Talvez algumas lições introdutórias ao pensamento lógico e algumas questões sistemáticas que de fato ocupam filósofos, e não começar com uma disciplina exaustiva sobre pensadores como Aristóteles e Platão que acabam no fundo afugentando o interesse de alunos, que parece muito mais uma coisa museológica, antiga, do que uma coisa atual e interessante. Eu acho que os jovens seriam muito mais receptivos à filosofia se a coisa fosse apresentada de modo sistemático, não histórico.

DÁRIO: O que você tem pesquisado recentemente?

GUIDO: Bom, eu fui passando por várias áreas da filosofia, mas nunca deixei a área geral que é a filosofia teórica. O meu interesse começou em filosofia da matemática e filosofia da linguagem. Foram essas duas disciplinas as quais eu me dediquei nos primeiros anos de pesquisa, mas as questões de filosofia da matemática me levaram a pensar mais focadamente questões de filosofia da lógica. E, depois de um ou dois anos estudando filosofia da lógica, questões sobre a relação de extensão e intensão na filosofia da lógica, eu descobri que isso no fundo era um problema de metafísica, de ontologia metafísica. E por isso, nos últimos três anos eu diria que as principais questões às quais eu tenho me dedicado são questões de metafísica, em particular numa perspectiva aristotélica, numa perspectiva ontológica, realista e menos epistemológica. Questões sobre categorias ontológicas, sobre as estruturas do real, sobre a constituição última da realidade.

DÁRIO: O que você diria para os estudantes que estão iniciando na filosofia? Quais as linhas de pesquisas filosóficas que você considera mais promissoras?

GUIDO: Olhando o panorama geral da filosofia o que a gente percebe é uma certa lacuna de interesses. O que chama a atenção hoje é uma certa falta de interesse pela filosofia medieval, o que eu lamento muito. Eu acho que a filosofia medieval é uma filosofia muito rica e que precisaria ser retomada seriamente, pois antecipa em muito o estilo analítico. Mas seja qual for a linha de pesquisa, eu acho que a dica básica é que as pessoas pensem numa perspectiva sistemática, que elas encontrem alguma questão que interessa a elas. E que elas encontrem, então, dentro da história da filosofia, pessoas que pensaram essa questão para elas terem parceiros de diálogo. Mas que elas entrem na filosofia procurando questões e não autores. Isso quanto às linhas de pesquisas. Quanto à postura básica de um aluno, eu diria assim: fuja de todos os professores que têm uma linguagem muito obscura. Se a linguagem for muito obscura, se você tem a sensação de que você não entende o que ele diz, não invente significados ao que ele diz, duvide que aquilo de fato tem algum significado! Evite filosofia que foge demais ao senso comum, que tenta reformar o senso comum! Não que o senso comum seja sacrossanto e intocável, mas é muito ruim você começar invertendo tudo. Faça um caminho gradual. Comece ouvindo pessoas que você entende o que dizem, e passo a passo vão construindo um pensamento crítico e talvez, então, revogando suas intuições do senso comum.

DÁRIO: Você gostou da sua estada no Cariri? O que achou do nosso ambiente filosófico?

GUIDO: Eu gostei muito, é claro. É a terceira vez que eu volto ao Ceará este ano. Eu morei por oito anos no Ceará, então é sempre bom voltar. Por motivos pessoais e por motivos científicos. Pessoais porque a gente reencontra aqui no Cariri ex-alunos, ex-orientandos, é uma espécie de pequena família. Há parentes mais próximos e parentes mais distantes, mas são todos, num certo sentido, membros de uma família. Então eu reencontro alunos, vejo que essas pessoas trabalham, se engajam, multiplicam o conhecimento. Nós somos todos amigos, e é um prazer reencontrar os amigos. E do ponto de vista científico, porque eu senti e percebi que o departamento do Cariri, depois de passar por uma fase aparentemente bastante conturbada, encontrou um certo equilíbrio. Ele parece que tem professores jovens e engajados,. Poucos doutores ainda, mas todos doutorandos ou interessados em fazer rapidamente um doutorado, ou seja, pessoas interessadas em se qualificar. Demonstram assim uma ambição saudável. E um ambiente agradável. Eu acho que pode se esperar muito. E é muito gratificante a gente ver isso.

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