quinta-feira, 29 de março de 2012

Entrevista com o professor André Leclerc


André Leclerc é professor associado da UFC (Fortaleza) e bolsista de produtividade em pesquisa nível 2 do CNPq. No final de Maio de 2011, o professor Leclerc esteve em Juazeiro do Norte para ministrar duas palestras, uma no campus da UFC (Cariri) e outra no Centro Cultural do Banco do Nordeste de Juazeiro do Norte. Entre uma palestra e outra, a aluna Andreia Ferreira, bolsista do NEFA, teve a oportunidade de entrevistá-lo. O conteúdo da entrevista pode ser conferido aqui:

Clique aqui e veja a fonte desta entrevista no site do NEFA.


ANDREIA: Como foi seu desenvolvimento filosófico e por que se tornou um filósofo analítico?

ANDRÉ LECLERC: Nas primeiras aulas de filosofia analítica, se eu lembro bem, tive uma aula de lógica e depois descobri afinidades com autores como Russell, os empiristas... Eu tinha lido muitas coisas diversas antes de chegar à universidade. Eu me lembro que o professor de história da filosofia, o Claude Panaccio, que é um medievalista de reputação mundial hoje, o melhor especialista em Ockham, passou um teste no início do semestre (eu estava começando o primeiro semestre na universidade), passou um teste para saber qual era o estado do nosso conhecimento em História da Filosofia, e eu tirei a nota mais alta porque eu já tinha leituras bem diversificadas. Eu já tinha lido Wittgenstein, o Tractatus, sem provavelmente compreender muita coisa, tinha lido umas coisas de Russell, eu tinha leituras bem diferentes. Bergson por exemplo, eu tinha lido Bergson muito. Tinha lido coisas do Freud, Platão, coisas de literatura também. Bom, eu comecei mais ou menos por volta de 14 ou 15 anos. Eu não tive muitos problemas que muitos jovens têm de não saber o que vão fazer quando crescer. A partir de 14 ou 15 anos eu já sabia, eu recebi a picada da filosofia na veia. Depois eu estudei várias outras coisas. Lá no Quebec temos os colégios de ensino geral e profissional, os CEGEP’s, é um grau intermediário entre o ensino médio e a universidade. São dois anos que você aproveita para se preparar para a universidade estudando várias coisas. Eu fiz matemática, química, física, antropologia, sociologia, economia, eu estudei várias coisas em dois anos. Mas nunca desviei do objetivo. Eu queria ir para a filosofia, então eu nunca tive muitas hesitações. Eu já sabia mesmo o que eu queria. Agora, como eu me tornei um filósofo analítico? Eu tinha uma certa afinidade para certos filósofos. Além daqueles que eu mencionei, eu tinha lido Descartes antes de entrar na universidade. Eu gostava de uma filosofia de caráter mais rigoroso, mais argumentada. Era esse estilo, essa maneira filosófica que mais me agradava. Eu lia outras coisas, eu fiz cursos de filosofia da religião, eu li o Bhagavad-Gita, coisas bem exóticas. Mas logo no segundo ano da universidade, eu já fazia praticamente só as cadeiras de filosofia analítica ou coisas que tinham a ver com filosofia analítica. Foi uma escolha bem rápida, é difícil explicar por quê, ou ainda descrever como aconteceu. Mas eu acho que essas coisas, a procura de um certo rigor próximo às ciências me agradava muito mais do que uma filosofia de um estilo mais literário, como a gente pode encontrar nas obras de Derrida, Deleuze, hoje em dia. É mais ou menos isso.

ANDREIA: Em sua opinião, qual o papel da filosofia no mundo de hoje?

ANDRÉ LECLERC: Ah, ela tem vários papéis, isso não mudou muito. Quando a gente considera a obra dos grandes filósofos, a gente descobre que eles tratavam de ciência, eles tratavam de política, eles tratavam de direito, eles tratavam de ética, de vários assuntos. Eu acho que os grandes filósofos estão tentando nos ensinar o que é ser um cidadão do mundo mais completo possível. Sempre com aquele pensamento crítico, sempre com o objetivo de revelar o que pode significar uma restrição indevida às liberdades individuais, por exemplo, sempre com um olhar crítico sobre as tendências políticas, as escolhas que podem ser feitas. Muitos filósofos contemporâneos, Sartre, Foucault, Russell, foram filósofos muitos engajados. Russell ainda jovem ficou preso por suas declarações contra a entrada da Inglaterra na Primeira Guerra Mundial. E aproveitou para escrever um livro, Introdução à Filosofia Matemática, durante sua estadia na prisão. E poucos anos antes de morrer, com 98 anos, ele andava na frente de uma manifestação contra a guerra do Vietnã. Ele passou a vida sempre escrevendo sobre os assuntos mais variados: sobre o casamento, sobre o socialismo, sobre os assuntos mais diversificados, sobre pedagogia até. Então os grandes filósofos realmente estão apontando sempre em direções interessantes para discutir e ocupar os espaços públicos de debate, e argumentar, sempre procurando o argumento mais forte. Quando Osama Bin Laden foi assassinado, porque se trata de um assassinato planejado a sangue frio, Chomsky imediatamente reagiu, escreveu um texto com suas opiniões sobre o assunto. Bom, era um terrorista, mas ele podia ser preso e julgado. E oitenta homens armados preferiram ou receberam a instrução de matá-lo simplesmente. Eu não estou defendendo o Bin Laden nem o que ele fez e todos os fatos que lhe são atribuídos. Mas eu entendo a posição de Chomsky quando reagiu e se manifestou contra esse tipo de atitude. Em termos de justiça global, é uma versão western cowboy que certamente não contribui a aumentar a autoridade moral dos Estados Unidos no mundo hoje em dia. Bom, quanto às questões de ética, tem sempre problemas novos surgindo, problemas relativos ao controle das informações circulando, ao controle sobre as novas tecnologias, particularmente na biologia (clonagem, coisas do tipo), o uso de células tronco e outras tecnologias, debates tradicionais sobre a eutanásia. São temas já tradicionais, mas filósofos sempre abriram esses debates, foram os primeiros a discuti-los, a indicar o caráter problemático e a necessidade de discutir e praticamente como sempre o mais importante é colocar essa discussão num espaço público, recolher as opiniões, discuti-las, e aproveitar justamente essa colheita de informações depois de passar pelo crivo da crítica. Mas que esses assuntos sejam discutidos filosoficamente e publicamente é sempre muito importante. Quanto ao papel dos filósofos na crítica às ciências, na crítica ao conhecimento – a epistemologia da física, a epistemologia da antropologia, da sociologia etc. continua sendo uma contribuição constante muito importante. Não só nos assuntos de caráter ético e político, mas propriamente teóricos. Os grandes filósofos em muitas ocasiões foram cientistas também, e grandes cientistas em muitas ocasiões foram filósofos. É o caso de Albert Einstein, Russell foi matemático, Frege também; Leibniz e Descartes foram matemáticos e físicos. Então as contribuições da filosofia, é até difícil enumerá-las. É fácil encontrar (e encontraremos) novas discussões que vão nos surpreender. Porque a sociedade continua a evoluir e as ciências também, então a gente não tem uma ideia de onde isso vai parar. Mas sempre haverá filósofos para discutir os assuntos que se apresentam.

ANDREIA: Como você avalia a qualidade da filosofia produzida no Brasil, e o que poderíamos fazer para melhorar?

ANDRÉ LECLERC: Uma boa pergunta. Já faz alguns anos que eu sou consultor da CAPES. Eu participo das avaliações de acompanhamento anual dos programas de pós-graduação e das avaliações trienais. A cada três anos tem uma avaliação que determina o conceito de um programa de pós-graduação. Desde minha chegada ao Brasil, em abril de1995, depois de aprender o português (mais ou menos), eu comecei a participar de eventos. Eu constato uma melhoria no nível de discussão em filosofia que é notável nos vários eventos de que eu participei. Há também uma expansão da pós-graduação no Brasil que é uma coisa impressionante. Quando Marcelo Perine, que termina agora seu segundo mandato, entrou nas suas funções de Representante de área na CAPES, para a área de Filosofia/Teologia, tinha por volta de 25... 27 programas de pós-graduação e hoje são mais de 40. Então tem novos programas se criando, e o que permite isso é que os professores que estavam atuando nos departamentos terminaram seu doutorado. Quando a gente olha a composição dos departamentos há alguns anos atrás, tinha ainda muitos mestres que não tinham ainda terminado o doutorado, ou que estavam prestes a sair para fazer doutorado. Agora a proporção de mestres nos departamentos de filosofia caiu muito. Os departamentos, as instituições que têm um corpo docente composto quase exclusivamente de doutores em filosofia têm sempre a ambição de abrir um programa de pós-graduação, é o que está acontecendo. É claro que essas pessoas que voltam do doutorado, que têm uma pesquisa pronta, estão com esse ânimo todo para contribuir não só na graduação, mas na pós-graduação também. O que contribuiu bastante para isso são iniciativas do governo como as bolsas de iniciação científica que também preparam melhor os alunos para a pós-graduação. O número de bolsas no total aumentou constantemente nos últimos anos. Não só o corpo docente dos programas melhora constantemente, mas o corpo discente também. Tem várias pessoas que passaram pelo PIBIC e que chegam para estudar, para fazer mestrado, eventualmente doutorado, e são mais bem preparadas. Tem uma coisa também que  mudou bastante no campo da pesquisa em filosofia. É a plataforma dos periódicos da CAPES, que é uma das maiores do mundo. Quando eu cheguei, eu conseguia pesquisar um pouco, acompanhar certos debates, comprando livros caros dos Estados Unidos com meus modestos meios. Agora eu vou para a universidade, entro na plataforma da CAPES, dos periódicos, eu tenho acesso àquele tesouro impressionante. As melhores revistas de filosofia do mundo estão lá, disponíveis ao alcance de um clique. Isso é uma coisa relativamente recente. Os pesquisadores vão beber na fonte diretamente. Essa plataforma precisa ser usada ao máximo. Vocês sabem como acessar, como usar? Então é bom usar, porque custa muito caro. A gente não pode deixar um instrumento que custa tão caro sem usar. Então as condições melhoraram bastante, particularmente nos últimos oito anos, eu diria. Os filósofos que vêm de fora discutir conosco, que recebem convites para participar de eventos aqui no Brasil, voltam para sua terra, para a Inglaterra, a França, os Estados Unidos, com vontade de voltar. E falam bem das discussões que tiveram aqui com filósofos brasileiros. Houve uma melhoria geral. Isso é muito positivo. Eu não vejo como isso vai parar. Uma coisa nova também que aconteceu: as trocas. Filósofos brasileiros agora recebem convites para dar cursos em instituições europeias, norte-americanas, há essa reciprocidade. Vai num sentido e no outro também. Inicialmente era mais uma coisa que parecia “colonialista”.  Os filósofos das grandes universidades vinham aqui revelar a “boa notícia”. Mas agora não, vai nas duas direções, a reciprocidade é algo que é importante, e aliás a CAPES insiste sobre a importância, nos acordos de cooperação entre instituições, entre programas, insiste sobre a importância da reciprocidade. Quanto às notas, à avaliação dos programas, tinha muitos programas de nota 3, programas de pós-graduação. Hoje essa proporção diminuiu. Tem mais programas de nota 4, mais programas de nota 5, e o número dos programas de nota 6 aumentou. Ainda não tem nenhum programa de nota 7, que é o máximo. Mas eventualmente vamos chegar lá.

ANDREIA: O que você tem pesquisado recentemente?

ANDRÉ LECLERC: Entre 2001 e 2003, eu pesquisei um assunto do qual eu vou falar hoje à noite, que é o externismo. Em filosofia da mente, filosofia da linguagem, um pouco em epistemologia também. Mas o externismo me ocupou bastante. A partir de 2006, eu comecei a estudar – é uma continuidade aliás bastante natural – o contextualismo em filosofia da linguagem. Eu fui um dos primeiros a introduzir o contextualismo aqui nos debates e pegou forte, porque depois houve encontros organizados, e eu sempre convidado para discutir isso. E se formaram grupos antagonistas. Têm pessoas como eu que defendem o contextualismo em filosofia da linguagem, como filosofia da língua comum, e outros mais apegados à tradição da semântica formal, que pensam que os instrumentos que foram desenvolvidos na filosofia das linguagens ideais, na tradição de Frege, Russell, Carnap, Montague e companhia, que essa tradição dá conta de explicar os fatos de língua, ou o comportamento dos locutores, ou a competência semântica, lógica, sintática dos falantes/ouvintes. Então foi uma coisa muito interessante nos últimos anos, e muito naturalmente eu passei de um estudo do contextualismo para o estudo da compreensão linguística espontânea, da qual eu falei ontem, que é minha pesquisa atual. O contextualismo diz que há uma certa plasticidade do sentido, o sentido não é um coisa fixa de uma vez por todas. Podemos distinguir o nosso conhecimento do significado estável, que é a nossa competência, mas, na sua aplicação, constantemente, os significados (seria melhor dizer, os sentidos) associados às palavras vão ser modulados, e essa modulação faz com que as expressões linguísticas tenham um valor semântico que vai se ajustando às situações. Então que tipo de teoria da compreensão linguística podemos desenvolver em cima disso? Esse foi o próximo passo nessa discussão em que eu estou agora: tentar explicar a compreensão linguística espontânea.

ANDREIA: O que você diria aos estudantes que estão iniciando agora na filosofia? Quais linhas de pesquisa filosófica você considera mais promissoras?

ANDRÉ LECLERC: Meu primeiro conselho é procurar uma linha na qual você se sente à vontade, que dá um certo entusiasmo. Se você sente entusiasmo por um assunto ou um certo campo de pesquisa, é melhor ficar lá, trabalhar e avançar do que tentar se formar em outros assuntos que deixam você pouco satisfeito. Esse é um primeiro critério, tem que ser uma coisa relativamente natural. Tem assuntos que combinam melhor com a compleição psicológica das pessoas, então eu acho que é importante respeitar isso. Agora, eu, como defensor da linha mais analítica, eu posso dizer o seguinte: para se fazer boa filosofia é bom sempre ter, dominar certas técnicas argumentativas. Isso abre as portas para vários assuntos. Se pode fazer estética de primeira qualidade, da melhor qualidade, se você domina certas técnicas que os filósofos analíticos desenvolveram. Foi o caso, por exemplo, de Nelson Goodman. Nelson Goodman é um grande filósofo da linguagem, um grande epistemólogo, mas a obra que ele desenvolveu em estética é fabulosa. Paul Ziff começou a escrever um livro que acabou com o título Semantics (Semântica), mas era inicialmente um livro de estética. Ele escreveu o livro começando pelo fim. Ele começou a se perguntar: Mas qual o significado da palavra “belo”? Como ela é aplicada? Quais são as suas condições de aplicação? Etc. Aí ele começou recuando, procurando as pressuposições, ele foi avançando (“avançando-recuando”, por assim dizer) e acabou escrevendo um livro inteiro de semântica, para dar conta do significado de uma palavra como “belo”. O mesmo se aplica para a ética. Às vezes (frequentemente), encontramos alunos que não têm gosto para lógica, epistemologia, coisas que são tradicionalmente associadas mais à filosofia analítica do que à filosofia continental. Eles não têm gosto para isto e tentam fugir desses assuntos. O problema é que eles não adquirem certas técnicas argumentativas. Eles acabam fazendo trabalhos que são meramente expositivos, pouco argumentativos, e a contribuição é menor, menos interessante. Então eu aconselho, em primeiro lugar, seguir suas inclinações, o que você mais gosta, e tentar buscar depois os instrumentos que vão permitir uma contribuição de qualidade, e isso pode exigir sacrifícios às vezes.

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