sexta-feira, 16 de março de 2012

ATRIBUICIONISMO (Peter Geach)

Tradutor: Rodrigo Cid

A sentença de que um ato x foi voluntário da parte do agente A, ou de que foi intencional, ou feito com a intenção, ou semelhante, frequentemente vem sendo analisada como uma sentença causal de que x foi iniciado por algum ato da decisão do próprio A de fazer x, ou algum ato de intentar fazer x, ou semelhante. Provavelmente há uma reação contra esse tipo de análise; vem sendo sustentado (bem corretamente, em minha opinião) que a tentativa de identificar e caracterizar esses supostos atos da própria vontade sempre se envolve em insuperáveis dificuldades. Para evitar tais dificuldades, alguns filósofos de Oxford, a quem chamarei de Atribuicionistas, decidiram negar que chamar um ato de voluntário, intencional, e assim por diante, seja algum tipo de sentença causal, ou que seja de fato uma sentença. Nesta comunicação tentarei expor e refutar o Atribuicionismo.

Atribuicionistas mantêm que dizer que uma ação x foi voluntária de um agente A não é descrever o ato x como causado de alguma maneira, mas é atribuí-lo a A, é tornar A responsável por ele. Assim, tornar um homem responsável é uma atitude moral ou quasi-moral; e, então, argumentam os Atribuicionistas, não há um ponto de verdade e falsidade, assim como no caso dos juízos morais. Se B concorda ou discorda com a atribuição feita por C de um ato a A, o próprio B está tomando uma atitude quasi-moral com relação a A. Os fatos podem auxiliar ou ir contra tal atitude quasi-moral, mas nunca podem forçar-nos a adotá-las. Além disso, os Atribuicionistas diriam, não há risco de uma antinomia, pois a atribuição de um ato a um agente nunca pode conflitar com nossa abordagem científica de como um ato vem à tona; porque a abordagem científica é descritivista, e a linguagem descritiva está num reino lógico bem diferente da linguagem atribuicionista [ascriptivist]. Embora a distinção entre linguagem descritiva [descriptivist] e prescritiva [prescriptivist] não tenha conseguido popularidade global, a teoria Atribuicionista é bastante aceita, como é natural no presente clima de opinião.

Então, ao observarmos centenas de nossos atos voluntários ou intencionais, seria de fato absurdamente grave, para não dizer melodramático, falar de imputação, exoneração e perdão, ou de elogios e recompensas. Atribuir uma ação a um agente não significa em geral tomar uma atitude quasi-legal ou quasi-moral, e apenas uma escolha ruim dos exemplos poderia nos fazer pensar de outro modo. (Como disse Wittgenstein, quando utilizamos uma dieta não balanceada de exemplos, a filosofia sofre de deficiências.)

Novamente, inclusive quando a imputação e a culpa estão em questão, elas podem ser distintas do juízo de que tal e tal coisa foi um ato voluntário. Há comunidades rudes em que inclusive o homicídio involuntário carrega a pena de morte. Em tal comunidade, segue a estória, um homem cai de um coqueiro e quebra o pescoço de um passante; o irmão do homem morto demanda sangue por sangue. Com a sabedoria Salomônica, o chefe ordenou ao culpado que ficasse ao lado do coqueiro e disse para o vingador do sangue: “Agora você sobe no coqueiro, cai e quebra o pescoço dele!” Esta sugestão mostrou-se indesejável e o culpado saiu livre. Embora o irmão vingativo ainda pense que o culpado deveria ter sido punido, sua reação ao método de execução sugerido mostrou que ele sabe tão bem quanto nós da diferença entre cair-de-uma-árvore-e-quebrar-o-pescoço-de-alguém voluntariamente, ou intencionalmente, e de isso simplesmente ter ocorrido com alguém. Para termos certeza: em seu código moral a diferença não importa – a morte de seu irmão ainda seria imputável ao homem que caiu em cima dele –, mas isso não mostra que ele não tinha noção de voluntariedade ou de alguma outra coisa.

Eu disse que o Atribuicionismo tem naturalmente sucesso no presente clima das opiniões; ele é, de fato, construído como um modelo comum a um grande número de teorias filosóficas modernas. Assim, há uma teoria em que dizer “o que o policial disse é verdade” não é descrever ou caracterizar o que o policial disse, mas é corroborá-lo; e uma teoria em que dizer “é ruim ficar bêbado” não é descrever ou caracterizar a embriaguez, mas condená-la. É, de fato, bem fácil delinear as teorias nesse modelo; aqui vai uma outra que me ocorreu. “Chamar um homem de feliz não é caracterizar ou descrever sua condição; macarizar [macarizing] um homem” (isto é, chamá-lo de feliz: as palavras “macarizar” [macarize] e “macarismo” [macarism] estão em O.E.D.) “é um uso especial não descritivo de linguagem”. Se consideramos os típicos exemplos de macarismo, como as Beatitudes, ou como algumas expressões proverbiais, tais como ”feliz é a noiva em que o sol brilha; felizes são os mortos nos quais chove a chuva” (ver nota 1), podemos perceber sem dúvida que tais sentenças não são usadas para comunicar proposições. Quão desconsertante e inapropriada foi a resposta “sim, é verdade”, que um amigo meu deu a quem falou “felizes são os mortos nos quais chove a chuva” num funeral num dia chuvoso! O grande erro dos Utilitaristas foi supor que 'a maior felicidade do maior número” era uma caracterização descritiva de um estado de coisas que poderíamos nos direcionar; mas de fato o termo “felicidade” não é um termo descritivo: falar da felicidade das pessoas é macarizá-las, e não descrever seu estado. É claro que “feliz” tem uma força descritiva secundária; numa sociedade onde os ricos são geralmente macarizados, “feliz” seria como conotar riqueza; e daí alguém, cujos próprios padrões de macarismo são diferentes dos padrões comuns na sociedade, poderia usar “feliz”, entre aspas, para dizer que “o que a maior parte das pessoas considera felicidade é a riqueza”... Aí está você; eu dou essa idéia gratuitamente de presente para quem gostar dela.

Há uma falha radical em todo esse modo de filosofar. O que está sendo tentado em cada caso é considerar o uso de um termo “P”, concernindo a uma coisa, como sendo uma performance, de alguma outra natureza que não a descrição da coisa. Porém, o que é constantemente ignorado é a distinção entre chamar uma coisa de “P” e predicar “P” dessa coisa. Um termo “P” pode ser predicado de uma coisa por meio de uma sentença de se-então, chamada “P”. Dizer “se a declaração do policial é verdadeira o motorista chegou a 90km/h” não é chamar a declaração do policial de verdadeira; dizer “se apostar é errado, então convidar pessoas a apostar é errado” é chamar tanto a aposta quanto os convites para apostas de “errados”. Então, as teorias de performance não-descritiva regularmente apenas levam em consideração o uso de um termo “P” para chamar algo de “P”; a teoria da verdade como corroboração, por exemplo, considera o uso de “verdadeiro” apenas para chamar uma sentença de verdadeira, e a teoria da condenação do termo “mau” considera apenas o modo o qual ele é usado para chamar algo de mau; predicações de “verdadeiro” e “mau” em sentenças se-então, ou em sentenças disjuntivas, são simplesmente ignoradas. Não podemos descartar tais usos dos termos, utilizando uma explicação diferente para o uso de chamar as coisas más ou verdadeiras; e isso significaria que argumentos da forma “se x é verdadeiro (se w é mau), então p; mas x é verdadeiro (w é mau); ergo p” contém a falácia do equívoco, embora elas sejam de fato claramente válidas.

Todo esse assunto é obscurecido por muitos séculos de confusão entre a predicação embutida em frases como “um predicado é asserido de um sujeito”. Frege demonstrou a necessidade de fazer uma distinção absoluta entre predicação e asserção; aqui, como em toda parte, as pessoas não aprenderam no seu trabalho tanto quanto poderiam. Com o objetivo de que o uso de uma sentença na qual “P” é predicado de uma coisa possa contar como o ato de chamar uma coisa de “P”, a sentença deve ser usada assertivamente; e isso é algo bem distinto da predicação, pois, assim como advertimos, “P” ainda pode ser predicado da coisa, inclusive numa sentença usada não-assertivamente, como quando ocorre uma oração dentro de outra sentença. Assim, chamar alguma coisa de “P” tem que ser explicado em termos de predicar “P” daquela coisa, e não de outro modo. Por exemplo, condenar alguma coisa ao chamá-la de “má” deve ser explicado por meio da noção mais geral de predicar “mau” de uma coisa, e tal predicação pode ser feita sem nenhuma condenação; por exemplo, inclusive se eu asserir com convicção total a sentença “se apostar é errado, então convidar pessoas a apostar é errado”, ainda assim não estou condenando nem as apostas e nem os convites para apostas, embora eu realmente predique “mau” de tais tipos de atos. Portanto, é sem esperança tentar explicar o uso do termo “mau” em termos de atos não-descritivos de condenação; e, eu sustento, por paridade da razão, que é sem esperança tentar explicar o uso de termos como “feito com propósito”, “intencional”, ou semelhante, em termos de atos não-descritivos de atribuição ou imputação.

Com isso, eu devo rejeitar o Atribuicionismo; adoto, ao invés, a visão natural de que atribuir um ato a um agente é uma descrição causal do ato. Tais sentenças são de fato casos paradigmáticos de sentenças causais: cf. a conexão em grego entre “causa” e “responsabilidade”. Lembremos a definição de vontade dada por Hume: “a impressão interna que sentimos e da qual estamos conscientes quando, com conhecimento, originamos qualquer novo movimento de nosso corpo ou qualquer percepção de nossa mente”. Tendo oferecido tal definição de vontade, Hume se concentra na suposta “impressão interna” e lida com a relação causal entre ela e o “novo movimento” ou a “nova percepção” da mesma forma que lida com outras relações causais entre eventos sucessivos. Como um conjurador, Hume desvia nossa atenção; ele nos faz esquecer as palavras “com conhecimento, originamos”, que é indispensável, caso sua definição tenha o mínimo de plausibilidade. Se Hume tivesse começado por dizer “há uma impressão interna peculiar e característica, da qual às vezes temos consciência, e que surge em nós [arise in us] antes de uma nova percepção ou de um novo movimento corporal; chamamos tal coisa de volição ou vontade”, então sua abordagem teria uma aparência suspeita desde o início. Dizer que nós, com conhecimento, originamos um movimento da mente e do corpo já é introduzir toda a noção de voluntariedade; não precisamos trazer uma “impressão interna” para a conversa, e de qualquer forma isso é, acredito eu, um mito. Mas sem a “impressão interna” a abordagem da causalidade de Hume não pode se adequar à causalidade da voluntariedade; e sem isso, nós não temos mais dois tipos de eventos ocorrendo em sucessão, mas apenas, em cada caso, um evento que nós “com conhecimento, originamos” - palavras que expressam um tipo de causalidade não-humiana.

Entretanto, para uma abordagem adequada da causalidade da voluntariedade, devemos precisar de uma abordagem adequada da causalidade em geral; e estou longe de pensar que posso fornecer uma. Para desenvolver adequadamente uma tal abordagem, seria requerida uma visão sinótica dos métodos e resultados das disciplinas estritamente científicas – um trabalho de Hércules e que de longe excede meus poderes; e seria preciso um homem melhor que eu para conseguir ver através da névoa [dust] que Hume trouxe à tona. Tudo que tentei fazer aqui foi fazer parecer que vale a pena investigar as idéias não-humianas de causalidade ao analisarmos a voluntariedade, ao invés de negar disparatadamente, como fazem os Atribuicionistas, que a voluntariedade seja um conceito causal.


1 N.T.: Em inglês, no original, “happy is the bride that the sun shines on; happy are the dead that the rain rains on”.

Arquivo eletrônico em língua inglesa encontrado em:
http://www.hist-analytic.org/Geach2.htm (10/10/2008)


Citação: Cid, Rodrigo (2012). "Tradução dee GEACH, Peter (1960). 'Ascriptivism'. The Philosophical Review: vol. LXIX, pp. 221-225.". Blog Investigação Filosófica. Artigo eletrônico acessado em xx/xx/xxxx e encontrado em http://investigacao-filosofica.blogspot.com/2012/03/atribuicionismo-peter-geach.html.

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