domingo, 24 de abril de 2011

Tradução de Maudlin, Tim (2007). "Introdução". In: The Metaphysics Within Physics. Oxofrd: Oxford University Press.

Os ensaios que compõem este livro foram escritos em um intervalo de mais de uma década e não foram originalmente concebidos como partes de um projeto filosófico mais amplo. Mas que eles colaboram transpira: todos foram formados a partir da mesma argila e todos foram moldados pelas mesmas preocupações. A ideia básica é simples: a metafísica, na medida em que se preocupa com o mundo natural, não pode fazer mais do que refletir sobre a física. As teorias físicas são o melhor que nós temos para investigar questões sobre o que há, e a tarefa apropriada do filósofo é a interpretação e a elucidação dessas teorias. Em particular, ao escolhermos os postulados fundamentais da nossa ontologia, devemos olhar antes à prática científica do que ao preconceito filosófico.



Desse ponto de vista, parece que é gasta uma quantidade aflitiva de energia filosófica em projetos questionáveis. Por exemplo, têm sido um problema filosófico de longa data prover uma 'análise', uma 'abordagem' ou uma 'redução' das leis da natureza em termos de alguma outra coisa, tal como relações entre universais ou como padrões baseados em quantidades locais. Mas nada na prática científica sugere que deva haver uma tal análise (diferentemente de, digamos, genes, que são explicáveis em termos de sua estrutura físico-química subjacente). O primeiro ensaio defende simplesmente isto: as leis da natureza não têm nenhum necessidade de 'análise filosófica'; elas devem ser postuladas como alicerces ontológicos.

A objeção mais frequente a esta visão 'primitivista' das leis é que ela se opõe a uma visão metafísica influente, elaborada e advogada por David Lewis em muitas de suas obras. Essa visão metafísica leva o nome de Superveniência Humiana:

A superveniência humiana é assim nomeada em honra ao grande opositor das conexões necessárias. Essa é a doutrina de que tudo que há no mundo é um vasto mosaico de questões de fato locais, uma pequena coisa e depois outra. (Porém, não faz parte da tese que essas questões de fato locais sejam mentais.) Nós temos a geometria: um sistema de relações externas das distâncias espaço-temporais entre pontos. Talvez pontos do próprio espaço-tempo, talvez pedaços de matéria ou de campos de éter do tamanho de pontos, talvez ambos. E nesses pontos temos qualidades locais: propriedades perfeitamente naturais e intrínsecas que não precisam de nada maior que um ponto onde possam ser instanciadas. Por brevidade: nós temos um conglomerado [arrangement] de qualidades. E isso é tudo. Todo o resto sobrevêm a isso. (Lewis, 1968a, p. x)

Aceitar a superveniência humiana restringe severamente nossos recursos ontológicos e, correspondentemente, nos põe um conjunto assustador de desafios metafísicos. Dado apenas um conjunto modelado de qualidades locais arrumadas pelo espaço-tempo, deve-se derivar leis, causas, condições de verdade para contrafactuais, uma direção do tempo, disposições, chances objetivas, e assim por diante. Lewis trabalhou nesses projetos, e muitos outros têm seguido por esse caminho. Há trabalho suficiente aqui para sustentar uma grande cátedra de filósofos por muitas gerações.

O projeto humiano é muito sedutor: é fixar um conjunto limitado de recursos, e realizar a tarefa de expressar as condições de verdade para alguma classe de proposições nesses termos. Vencer o jogo é fazer as condições de verdade serem largamente intuitivamente corretas. As soluções propostas podem ser contra-exemplificadas, contraexemplos podem ser reinterpretados e intuições podem ser trocadas umas por outras. Se a análise proposta falha, há sempre a esperança de que mais um dispositivo, de que uma oração subordinada extra, possa ajeitar as coisas novamente. Um sem fim de inteligência pode ser aplicado tanto na ofensiva quanto na defensiva.

Por tudo isso, penso que o projeto humiano, tal como concebido por Lewis, é injustificável. Por que pensar que tudo que há no mundo é um 'vasto mosaico de questões de fato locais'? Por que aceitarmos essas restrições fortes na nossa ontologia em primeiro lugar? Eu abordo essas questões no segundo capítulo: 'Por que ser um Humiano?'.

E não é apenas o caso que a figura humiana é empobrecida demais, de que postula menos do que há. Os átomos metafísicos que ela utiliza são instâncias de propriedades locais repetíveis (ou idênticas qualitativamente). Que são também elementos básicos de ontologias de não-humianos como David Armstrong. Mas as teorias modernas de calibre nos pintam uma figura diferente: elas provêm uma abordagem da natureza física do mundo que não emprega tais propriedades. Essa nova abordagem ao problema dos universais é o tópico do capítulo 3 'Sugestões da Física para a Metafísica Profunda'.

Tal como o projeto de reduzir as leis naturais provê emprego para os metafísicos, o jogo de analisar a natureza da 'flecha do tempo' ocupa os filósofos da ciência. Os problemas são muito similares: por um lado, clama-se que as leis não são nada mais que padrões no estado físico do mundo; e pelo outro lado, a direção do tempo é suposta como não sendo nada mais que o modo como os conteúdos físicos estão dispostos na variedade espaço-temporal. E correspondente ao primitivismo com relação a leis, há uma abordagem primitivista da flecha do tempo: é um fato fundamental e irredutível que o tempo é direcionado. O capítulo 4, 'Sobre a Passagem do Tempo', defende esta visão.

Então, entre os quatro primeiros ensaios, temos as seguintes conclusões: o projeto humiano é injustificado, na medida em que ambas, leis da natureza e direção do tempo, não requerem análise, e é também mal concebido, pois os átomos que emprega não correspondem à presente ontologia física. Porém eu não quero me tornar primitivista sobre tudo. Em particular uma teoria física não emprega a noção de causalidade num nível fundamental; e, assim, as locuções causais são candidatos apropriados para a redução. Alguns esforços nessa direção, consonantes com a minha ontologia preferida, são feitos no capítulo 5, 'Causação, Contrafactuais e o Terceiro Fator'.

Está disperso, então, ao longo desses cinco capítulos um esboço de uma ontologia baseada em física. Entretanto, foi apenas quando todos os artigos estavam escritos que seu significado em conjunto se tornou claro para mim. Especificamente, ao tomarmos ambas, as leis da natureza (as leis da evolução temporal) e a direção do tempo, como primitivas nos permite produzir um tipo de explicação causal da entidade humiana fundamental: o Mosaico Humiano, ou o estado físico total do universo. Esses duas teses distintas são reunidas no capítulo 6, 'A Bola de Cera Completa'. Uma rápida reflexão sobre o método em metafísica pode ser encontrada no Epílogo.

Se há um tópico maior com relação a esses artigos que mereça um tratamento mais extensivo, ele é a Navalha de Ockham. A Navalha, como a Superveniência Humiana, gera muito trabalho para os filósofos: é dito que quanto mais parcimoniosa é uma teoria, melhor. Por que acreditar em leis da natureza irredutíveis se um substituto tolerável pode ser encontrado simplesmente nos padrões do masaico? Por que acreditar numa direção intrínseca para o tempo se o gradiente da entropia aponta sempre para o mesmo lado? Entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem, e a disponibilidade de uma redução elimina qualquer necessidade. Certamente nós deveríamos estar procurando a menor base para erigirmos a nossa ontologia.
Mas não é claro que a Navalha possa suportar um maior escrutínio crítico. Se por necessitas, queremos falar da necessidade lógica, então a Navalha nos levará ao solipsismo. Porém, se queremos falar sobre algo mais leve – entidades devem não ser multiplicadas sem boas razões – então o princípio se torna um brometo inofensivo: nem a nossa ontologia deveria ser reduzida sem boas razões. A Navalha não pode ser derivada de uma observação lógica simples – de que a probabilidade subjetiva que atribuímos à existência de um conjunto de itens deve sempre decrescer quando alargamos o conjunto – dado que a Navalha recomenda a descrença positiva na ontologia adicional. Tal descrença engendra erros se os itens controversos existirem: se o universo não fosse econômico, então a Navalha nos seria enganador.

Por que, então, a Navalha tem sido tão amplamente aceita? Sem dúvida, em muitos casos, ela nos leva à conclusão correta: explicações que requerem coincidências e conspirações elaboradas são menos frequentemente verdadeiras do que suas alternativas mais simples. Porém, este resultado pode ser derivado diretamente da teoria da confirmação: as teorias mais simples são mais comumente melhor confirmadas pelos dados do que suas competidoras com equantes e epiciclos.1 Embora isso não signifique que a teoria com a menor ontologia está sempre melhor confirmada. E questões sobre quando confirmamos – ou desconfirmamos – asserções sobre o estatuto ontológico das leis naturais ou da direção do tempo estão fadadas a ser extremamente controversas.

Assim, eu produzi antes alguns estudos de caso do que uma teoria geral da justificação para o comprometimento ontológico. Esses estudos sugerem que a Navalha, e a mania por redução ontológica que a acompanha, é superestimada. Os conceitos de leis da natureza e de passagem do tempo ocupam um papel central na nossa figura de mundo, e o argumento de que elas podem ou têm de ser reduzidos a algo mais parece-me frágil. Se a ontologia que surge naturalmente ao refletirmos sobre a física é rica demais para Ockham, Hume ou Lewis, então pior para eles. Deixemos que outros subsistam nesse mingau ralo da metafísica minimalista: eu faço a minha ontologia mit Schlag [com impacto].

Uma nota final sobre a estrutura desses artigos. Cada um foi escrito antes para se sustentar sozinho do que como parte de um trabalho maior. Então, cada um pode ser lido independentemente dos outros, mas há uma necessidade correspondente de alguma repetição e redundância entre eles. Seguindo a teoria de que é mais fácil relevar o familiar do que apreender o que não é familiar, eu deixei os artigos em sua forma original. Para qualquer alma intrépida que atravesse por todos eles: muito obrigado e minhas desculpas.

Notas

1A teoria da confirmação bootstrapping de Clark Glymour, por exemplo, tem uma consequência de que alguns tipos de teorias 'deoccamized' serão pior confirmadas do que as teorias das quais elas são geradas (Glymour, 1980, pp. 143ff).

Um comentário:

Elba Carolina Oliveira Silva disse...
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