segunda-feira, 18 de abril de 2011

O Problema do Mal

O problema do mal é o problema que se coloca ao teísta de explicar como é possível haver o Deus teísta frente à quantidade e/ou qualidade dos males existentes no mundo. Os argumentos ateístas a partir do problema do mal tomam duas formas: (I) a forma lógica: a existência de Deus é incompatível com a existência de mal; e (II) a forma indiciarista: a quantidade de mal que há no mundo dá sustentação racional para a crença de que o Deus teísta não existe. Mais especificamente, a forma lógica nos diz sobre as proposições “Deus existe e é onipotente, onisciente e sumamente bom” e “o mal existe”, que elas são inconsistentes entre si. Assim, se uma é verdadeira, a outra terá de ser falsa. Qualquer uma dessas proposições que for falsa causará problemas para o teísta: se for a primeira, ou Deus não existe, ou não tem alguma de suas qualidades fundamentais; se for a segunda, o teísta terá que explicar como pode pregar que haja ações más, se não existe o mal. Como as proposições “Deus existe e é onipotente, onisciente e sumamente bom” e “o mal existe” não são explicitamente inconsistentes entre si, o ateísta terá de adicionar alguma premissa necessariamente verdadeira ao grupo de premissas, e daí derivar um par de afirmações explicitamente contraditórias.

A premissa adicionada pelo ateísta seria “um ser onipotente, onisciente e sumamente bom impedirá a ocorrência de qualquer mal”. Então dessa premissa junto com “Deus existe e é onipotente, onisciente e sumamente bom”, ele retira a conclusão “o mal não existe”. Daí, ele junta a conclusão “o mal não existe” com a segunda premissa “o mal existe” e encontra uma contradição. Agora só faltaria provar que a premissa adicionada, a saber, “um ser onipotente, onisciente e sumamente bom impedirá a ocorrência de qualquer mal”, é necessariamente verdadeira. E isso é feito dizendo-se que, se Deus tem o poder de impedir qualquer mal – já que é onipotente – e se ele é sumamente bom, então deveria impedir a ocorrência de qualquer mal.

A resposta mais comum à forma lógica do problema do mal é que pode haver bens intimamente relacionados com males, que superam esses males, de tal forma que não é possível alcançar um sem receber também o outro. Ou seja, pode ser logicamente necessário para obtenção de certos bens que superam certos males, que esses certos sejam possíveis e, por vezes, ocorram. O que quer dizer que pode ser logicamente impossível realizar tais bens sem também realizar males. Por exemplo, não se pode ser livre para realizar uma ação e ser causalmente determinado a realizá-la. Deus poderia determinar causalmente suas criaturas para que não causassem nenhum mal, mas tais criaturas não seriam livres. Se Deus criou criaturas com a liberdade de agir bem e de agir mal, então elas por vezes agirão mal. Logo, Deus não poder criar um mundo no qual há criaturas humanas livres e nenhum mal. Deus cria o melhor que é possível e das duas possibilidades – um mundo com criaturas humanas livres e algum mal e um mundo sem criaturas livres e nenhum mal – a melhor é a que tem criaturas humanas livres e algum mal, diria o teísta. Assim, não é certo que um ser onipotente, onisciente e onibenevolente impediria qualquer mal.

Podemos, assim, diria o teísta, trocar a proposição “um ser onipotente, onisciente e sumamente bom impedirá a ocorrência de qualquer mal” por “um ser onipotente, onisciente e sumamente bom impedirá a ocorrência de qualquer mal que não seja logicamente necessário à ocorrência de um bem que o supere”. E esta afirmação sim é necessariamente verdadeira, e dela não derivamos conclusões contraditórias, mas apenas que os males que existem no nosso mundo são logicamente necessários à ocorrência dos bens que os superam. Dessa forma, afirmaria o teísta, não está estabelecido que as premissas do problema do mal são inconsistentes entre si.

O ateísta neste ponto costuma passar à forma indiciária do problema. Esta é o seguinte argumento:

(1) Provavelmente, há males sem sentido.
(2) Se Deus existe, não há males sem sentido.
(3) Logo, provavelmente, Deus não existe.

Um mal sem sentido é “um mal que Deus (se existe) poderia ter impedido sem com isso perder um bem superior ou sem ter de permitir um mal igualmente mal ou pior” (Rowe, 2007, p. 124). Há duas formas de tentarmos responder à forma indiciária do problema do mal: aceitando o teísmo cético ou fazendo uma teodicéia.

O teísmo cético diz que não podemos saber se há males sem sentido, pois não estamos em condições de ajuizar razoavelmente que Deus poderia ter evitado um mal que acreditamos ser sem sentido, dado que Deus conhece bens acessíveis somente à mente dele. Assim, no caso de um ser como Deus realmente existir, é de se esperar que seja impensável que qualquer bem que conhecemos justifique razoavelmente um mal que nos parece sem sentido. O que motiva esse argumentp é bem expresso pela analogia dos bons pais, que permitem o sofrimento do filho para que ele tenha um bem maior que ainda não conhece. Deus seria o bom pai que nos permite sofrer em troca de um bem que ainda não conhecemos.

A objeção ao teísmo cético é que a analogia dos bons pais não é boa, pois diferentemente dos pais, Deus se oculta (não nos dá certeza de sua existência) e não vem nos consolar nos momentos de sofrimento. Um Deus bondoso deveria nos consolar. A ausência/ocultação de Deus, segundo o ateísta, é mais um indício adicional à tese de que ele não existe. A resposta teísta a isso é que o fato de Deus poder conhecer bens que não conhecemos justificaria o teísmo a asserir que até a ocultação de Deus é um mal necessário para a obtenção de um bem desconhecido.

Outra forma de responder à forma indiciarista do problema do mal é fazendo uma teodicéia. Uma teodicéia é “uma tentativa de descobrir quais objetivos Deus poderia ter para permitir a abundância de mal no nosso mundo” (Rowe, 2007, p. 128). Uma teodicéia tenta prover razões para pensarmos que a premissa 1 – a de que provavelmente há males sem sentido – é provavelmente falsa. Ela procura se ater a um bem e argumentar que se o objetivo de Deus é a obtenção desse bem, isso justifica um ser onipotente nos permitir sofrer males.

Uma teodicéia bastante conhecida é a de John Hick (Rowe, 2007, p. 129), cujo bem a ser alcançado é a edificação da alma. Ela diz que o sofrimento é necessário para o desenvolvimento moral e espiritual através de escolhas livres. A objeção a isso é justamente perguntar por que, então, temos um mundo com tanto males que parecem sem sentido e tão hostil ao desenvolvimento moral e espiritual? A resposta mais cotidiana a isso é que o mal tem que parecer injusto, porque se parecesse justo, as pessoas não agiriam mal por medo, e não por senso de dever. É justamente o fato de o mal parecer imerecido que gera nas pessoas os valores mais elevados da vida pessoal.

O problema é que essa resposta não explica, por exemplo, o mal sofrido por uma criança brutalmente assassinada. O desenvolvimento moral do assassino (ou de qualquer outra pessoa que não a vítima) não justifica o mal sofrido pela criança, e a criança não teve um desenvolvimento moral depois der ser assassinada. O que normalmente é dito pelo teísta é que ele não consegue mostrar como cada sofrimento humano cumpriria aos propósitos de Deus, embora possa mostrar que o desenvolvimento moral não ocorreria num paraíso hedonista permanente. Objeta-se que isso não serve como resposta, pois alguns sofrimentos ainda nos parecem sem sentido e evitáveis. A única coisa que o argumento de Hick prova (ou, pelo menos, nos leva a crer) é que, num mundo destituído de mal, não seria possível o desenvolvimento moral, e em sua teoria o desenvolvimento moral é visto como um bem; embora isso não nos dê boas razões para pensarmos que a premissa 1 é falsa.

Outra forma de tentar responder o problema do mal é o desvio de Moore. Este é o seguinte: dado um argumento com esta forma lógica “P; Q. Logo, R”, o desvio de Moore é afirmar “Não-R; Q. Logo,Não-P’.

O argumento original ateísta é:

(1) Provavelmente, há males sem sentido.
(2) Se Deus existe, não há males sem sentido.
(3) Logo, provavelmente, Deus não existe.

E a aplicação teísta do desvio de Moore é assim:

(1) Provavelmente, Deus existe.
(2) Se Deus existe, não há males sem sentido.
(3) Logo, provavelmente, não há males sem sentido.

Frente a isso, tanto o teísta, quanto o ateísta, terão justificações racionais para pensarem que estão certos (embora só um deles tenha uma crença verdadeira). Entretanto, o teísta só poderá estar racionalmente justificado, se tiver indícios para acreditar que Deus existe, dado que sua primeira premissa é de que provavelmente existe Deus. Quanto à possibilidade de ser ter indícios sobre a existência de Deus, o ateísta pode tomar três posições:

(a) Ninguém tem justificação para pensar que Deus existe (ateu hostil).
(b) Alguém pode ter justificação para pensar que Deus existe (ateu amigável);
(c) Ninguém tem justificação para pensar que Deus existe e nem que não existe (agnóstico hostil).

A justificação da racionalidade da crença em Deus é um problema difícil e será abordado separadamente em futuras postagens.

Referências

Rowe, William (2007). Introdução à Filosofia da Religião. Trad. Vítor Guerreiro. Revisão científica de Desidério Murcho. Lisboa: Verbo, 2011.

Um comentário:

Marcos disse...

Aqui, fazendo um breve comentário: falta ler Santo Agostinho, que perguntava "unde malum", de onde vem o mal?

Nas suas Confissões, ele mostra a perturbação que tinha por não entender o mal, sua origem etc.

Uma série de respostas encontram-se em Santo Agostinho, São Tomás...

Na minha opinião, é falta de ler sobre os doutores da Igreja.

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