quarta-feira, 20 de abril de 2011

O indiciarismo probabilístico de Swinburne

Swinburne (1998) é um teísta e, contrariamente a Plantinga, que também é um teísta, ele é um indiciarista: ele acredita que é irracional aceitar o teísmo sem indícios suficientes. Contudo, ele acredita que temos indícios suficientes para aceitar o teísmo. Ele pensa que uma boa teoria teísta não poderia rivalizar com as teses científicas, mas deve ser compatível com elas.A ciência pode explicar muito da realidade, mas não tudo – diz ele. Ela não consegue explicar por que há algo e não nada, ou por que há estas coisas/leis e não outras completamente diferentes. As ciências apenas explicam as coisas ou as leis por meio de outras coisas ou outras leis mais gerais, mas ela não pode nos dizer por que, por exemplo, as constantes fundamentais são as que são. A hipótese teísta, diz Swinburne, pode.

Ele afirma que o teísmo se sustenta como hipótese explicativa, pois os diferentes indícios que a confirmam contribuem para a probabilidade geral da hipótese teísta. A hipótese teísta, dado o conhecimento tautológico (verdades logicamente necessárias, como “A=A” ou “2+2=4”) e a existência de um universo físico complexo, é mais provável que seja o caso. Formalmente, isso é dizer que

p(h/e&k)>p(h/k)

Com e sendo o indício “existe um universo físico complexo”, com h sendo a hipótese teísta, e com k sendo nosso conhecimento das verdades logicamente necessárias (conhecimento tautológico).

Se isso for verdade, será um bom argumento indutivo a favor da existência de Deus. E, se levarmos em conta todos os indícios e vermos que

p(h/e1&e2&en...k) >1/2

Então teremos um argumento indutivo probabilístico a favor de que a hipótese teísta é provavelmente verdadeira. Mas “p(h/1&k)>p(h/k)” só é verdade se a condição de relevância for cumprida, a saber, se a probabilidade de o indício ocorrer, dada a hipótese (no caso, a teísta) e o conhecimento tautológico, é maior que a probabilidade de o indício ocorrer dado apenas o conhecimento tautológico. Ou seja:

p(h/e&k)>p(h/k)” é verdade se, e só se, “p(e/h&k)>p(e/k)“ for verdade.

E para satisfazer “p(e/h&k)>p(e/k)“, é necessário que seja mais provável que os indícios existam, dada a verdade da hipótese, do que dada a sua falsidade, ou seja, é preciso que

p(e/h&k)>p(e/~h&k).

Assim, para mostrar que um indício confirma a existência de Deus, Swinburne terá que mostrar que tal indício é mais provável, dada a existência de Deus, do que dada a sua inexistência. E o argumento de Swinburne para isso é que dado e ser “existe um universo físico complexo”, é mais provável que exista tal universo dado a existência de Deus do que dado sua inexistência. Se Deus não existir, poderia ser o caso de a existência do universo ser um fato bruto ou de ter sido criado por algo que não o Deus teísta. Mas tais hipóteses são menos prováveis de ser o caso, dada a existência de um universo físico complexo. Swinburne fala que isso é assim porque o teísmo é uma hipótese excepcionalmente simples, mais simples que suas rivais. Ele diz isso porque pensa o teísmo como mais simples que a existência de vários deuses e mais simples do que a hipótese de um universo físico complexo existindo como um fato bruto incausado. Seria mais simples que vários deuses porque supor um Deus onipotente seria mais simples que supor deuses limitados em seu poder. E seria mais simples do que um universo complexo como fato bruto incausado, pois daria uma explicação para a demanda pela explicação da complexidade, da particularidade e da finitude que o universo nos traz. A conclusão de Swinburne é que

é muito mais provável que exista um universo físico complexo dada a existência de Deus do que é provável que exista um universo físico complexo dada a inexistência de Deus. Logo, a existência de um universo físico complexo indica a existência de Deus. Combinando isto com argumentos semelhantes relativos a outros indícios (...), Swinburne defende que os indícios cumulativos tornam a existência de Deus provável (Parsons - in Murcho, 2009).

Uma objeção ao pensamento de Swinburne é que ele tem de postular que o teísmo é mais simples que qualquer cosmogonia científica para explicar o estado inicial incausado do universo. Ele tenta fazer isso, dizendo que qualidades infinitas são mais simples que as finitas, e as finitas exigem uma explicação da razão, enquanto isso não ocorre com as qualidades infinitas. Mas este não parece ser o caso: se nos deparássemos com um ser de poder finito ou com um de poder infinito, nos questionaríamos igualmente pela razão daquele ser ter tal poder.

Outra objeção seria que o teísmo poderia até ser ontologicamente mais simples do que qualquer teoria naturalista possível, mas traria consigo uma obscuridade explicativa muito grande, já que pelo menos os propósitos de Deus e o próprio conceito de Deus são misteriosos. E uma teoria científica deve visar, além da simplicidade ontológica, também simplicidade conceitual e clareza explicativa. Além disso, ao sustentar que as teorias mais simples devem ser mais provavelmente verdadeiras, sustenta-se que o mundo deve ser mais provavelmente simples do que complexo. Entretanto, não sabemos se a natureza nos obrigará a tornarmos nossas teorias mais complexas; não temos como afirmar que o fato bruto incausado (seja ou não Deus) é mais provavelmente simples do que complexo.

De todo modo, o maior problema de Swinburne é que ele não satisfaz a condição de relevância de que a probabilidade do indício, dada a hipótese teísta, seja maior do que a probabilidade do indício, dada a negação da hipótese teísta, ou seja, ele não estabeleceu que “p(e/h&k)>p(e/~h&k)” é verdade. E não o fez, porque não conseguiu estabelecer a simplicidade do teísmo frente às outras teorias; e mesmo que o tivesse feito, isso não faria com que o teísmo fosse intrinsecamente mais provável, pois ele ainda não respeitaria as condições de clareza explicativa e de simplicidade conceitual. Portanto, ele não mostra – e nem não mostra – que a existência de um universo físico complexo é um indício a favor da existência de Deus.

Referências

Swinburne, Richard. Será Que Deus Existe? Trad. Desidério Murcho et al. Lisboa: Gradiva, 1998.

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