domingo, 14 de novembro de 2010

Sobre meras possibilidades

RESUMO: Pretendo neste artigo explorar a tese do determinismo modal. Este e um tipo forte de determinismo e, como tal, assere que todo evento e completamente determinado por condicoes anteriores e leis da natureza. E chama-se “modal” porque, com relacao as possibilidades, assere que que nao ha possibilidades nao-atuais, ou seja, assere que tudo que e possivel e tambem necessario. Aceitando-o, e preciso contar uma estoria sobre o que as pessoas estao falando quando falam sobre possibilidades. Isso nos levou a uma distincao entre tres sentidos de “possibilidade”: potencial, probabilistica e real. A distincao entre potencial e real e baseada em outras duas distincoes anteriores: entre a possibilidade de uma coisa e a possibilidade de um evento, e entre a possibilidade no tempo e a possibilidade fora do tempo. Tendo mostrado o que devemos aceitar caso aceitemos o determinismo modal, concluo apontando os problemas que devemos resolver para de fato estabelece-lo. 

Palavras-Chave: Determinismo. Possibilidades. Possibilidades Nao-Atuais.




1 INTRODUÇÃO

E um debate contemporaneo bastante em voga nas ciencias a questao de sabermos se o mundo e determinado. Durante muito tempo nossas teorias cientificas vem pressupondo que ele o e. Entretanto, de acordo com interpretacoes de experimentos fisicos recentes, particulas podem se comportar de uma certa maneira sem que haja causas para tal. Entre outras coisas, por causa disso, ha margens para uma disputa entre determinismo e indeterminismo, tanto com relacao a tais experimentos, quanto com relacao ao mundo em geral.

A aceitacao do determinismo ou do indeterminismo em nossas teorias parece levar-nos a diferentes teses com relacao as possibilidades e, consequentemente, com relacao ao discurso contrafactual e ao livre-arbitrio. Intuitivamente, se aceitamos o determinismo, pensamos que o discurso contrafactual e falso e dizemos que nao ha livre-arbitrio. Entretanto, essa nao e uma posicao necessaria. Muitos filosofos tentam formular teorias que combinem, sem contradicao, um mundo determinado e o discurso contrafactual. Outros, ainda, simplesmente rejeitam o determinismo e tentam provar que o mundo e indeterminado.

O motivo dessa influencia do determinismo ou do indeterminismo e o fato do debate entre eles estar ligado as nossas nocoes modais de necessidade e de possibilidade. Geralmente, a discussao sobre o determinismo leva-nos a discussao sobre se ha ou nao possibilidades que nunca irao se realizar (possibilidades nao-atuais), e a discussao sobre tais possibilidades nos leva a discussao sobre o determinismo. As teses sobre o livre-arbitrio e sobre o discurso contrafactual parecem somente uma consequencia da posicao mantida nesses dois debates iniciais.

Para esclarecer um pouco mais esses debates iniciais, pretendo desfazer algumas confusoes de quando pensamos sobre o determinismo e de quando pensamos sobre possibilidades, e explorar as implicacoes de um tipo de determinismo metafisico radical – que chamarei de “determinismo modal” – cuja tese principal e que nao ha possibilidades nao-atuais. Embora tal tese contrarie seriamente nossas intuicoes contrafactuais mais basicas, e interessante intelectualmente entendermos suas justificacoes e implicacoes, pois so então podemos saber ao que estamos nos direcionando quando aceitamos ou rejeitamos a tese determinista.

2. DETERMINISMO METAFÍSICO MODAL

Quando dizemos que o mundo e determinado, podemos estar querendo dizer alguma coisa sobre previsibilidade ou propriamente sobre causalidade. E essa corresponde a uma diferenca entre, respectivamente, um determinismo epistemico e um determinismo metafisico. Se dissermos que o mundo e tal que, se tivessemos dele uma descricao suficiente e o conhecimento das leis da natureza que o regem, seriamos capazes de prever os eventos que nele se seguirao, estaremos colocando muita enfase em nossa capacidade de previsao; e por isso chamariamos tal posicao de determinismo epistemico. De outro modo, se pensarmos que tudo que ocorre de uma forma, e nao de outra, ocorre porque existiram causas para a sua ocorrencia, estaremos asserindo o determinismo metafisico, pois nao faz referencia a nenhuma capacidade cognitiva humana. Mesmo que nao fossemos capazes de prever os acontecimentos tendo uma descricao suficiente e as leis da natureza (indeterminismo epistemico), seria um tanto estranho afirmar que os eventos nao tem causas para ocorrerem (indeterminismo metafisico). Assim, podemos perceber a diferenca entre ambos os tipos de determinismo e de indeterminismo.

O determinismo modal – aquele que propus explorar – e um tipo de determinismo metafisico que enfoca nas possibilidades1. Ele, por asserir que tudo que ocorre e completamente determinado pelas causas de sua ocorrencia, assere tambem que as reais possibilidades dos eventos ocorrerem sao determinadas pelas causas de ocorrencia desses eventos; e, por isso, nao aceita que haja possibilidades nao-atuais. Dessa maneira, afirmar tal tese exige que nos preocupemos em fazer uma abordagem sobre o que estamos falando quando dizemos frases com operadores de possibilidade, como por exemplo “e possivel que esta arvore seja cortada”, “esta arvore poderia ter sido cortada”, “e possivel que a festa ocorra amanha” etc. E e isso que farei agora.

3. DOIS SENTIDOS DE “POSSIBILIDADE”

Usamos o termo “possibilidade” para falar de modo que consigamos indicar se algo e necessario ou contingente. “Contingente” e aquilo que e de um modo e poderia ter sido de outro; “necessario” e aquilo que e de um certo modo e nao poderia deixar de ser desse modo, e “possivel” e o que pode ser. Portanto, se algo e necessario ou contingente, e tambem possivel: o fato de algo que existe ser possivel e uma trivialidade - O fato de algo ser necessario implicar que esse algo seja possivel (□P → ◊) é trivial em qualquer sistema de logica modal superior a K. A questao interessante é saber se e coerente falar de possibilidades nao-atuais.

Aceitando o determinismo modal, indicariamos que quando falamos que algo e possivel, podemos estar querendo dizer duas coisas: ou que as coisas tem potencialidades que permitem as compatibilidades entre elas, ou que um dado evento pode ocorrer dada a natureza do mundo (suas leis e condicoes). Tentarei mostrar que esses dois sentidos sao independentes um do outro, indicando a utilizacao de cada um deles e o modo de defendermos um rejeitando o outro no que diz respeito a asseveracao da possibilidade real.

Assim, quando afirmamos uma sentenca tal qual “e possivel que esta arvore seja cortada”, ha duas coisas que poderemos estar querendo dizer: ou algo sobre a arvore, ou algo sobre um evento envolvendo a arvore. Se estivermos falando algo sobre a arvore, estaremos falando que ela e de tal modo que possibilita que a cortem. E se estivermos falando algo sobre um evento do qual a arvore faz parte, estaremos dizendo simplesmente que e possivel o evento de a arvore ser cortada. Um pensador descuidado pode nao notar nenhuma diferenca entre esses dois sentidos de “possibilidade”. Esse nao e o caso: a diferenca e muito grande. Para mostra-la, vou a principio pressupor o determinismo e mostrar como ele nos faz ver essa diferenca de modo claro.

O determinismo, como ja dito, e a posicao que assere que dados certos eventos e as leis da natureza, que compoem as causas para a ocorrencia de um certo evento, este evento, e nao outro, ocorre necessariamente. Isso nos leva a pensar que, se tais causas sao elas proprias um evento, entao elas sao tambem efeito de outras causas. E, se isso e o caso, poderemos regredir ate chegarmos as condicoes iniciais do mundo e as leis da natureza que as regiam. Assim, em ultima instancia, o determinista afirma que dadas certas condicoes iniciais do mundo e certas leis da natureza, tudo que ira acontecer e necessario.

Dessa forma, se o determinismo e verdadeiro, devemos aceitar que as coisas que estao no mundo tem propriedades e que essas propriedades tem potencialidades que, quando em contato com as causas para a sua efetivacao, se efetivam. Alem disso, o determinista nao esta obrigado a aceitar que as coisas tem propriedades imutaveis, deve apenas dizer que se algo foi modificado, isso teve um motivo (causa). Assim, se o nosso mundo se modifica, e se modifica de uma certa forma, e nao de outra, e porque ha causas para a sua modificacao; e, consequentemente, para que o mundo seja corretamente pensado, devemos pensa-lo como uma cadeia causal. E, se isso for assim, nao e coerente afirmar que algum evento que nao pertence a essa cadeia seja possivel.

Passando, entao, para o exemplo da arvore, penso que so sera possivel que uma certa arvore seja cortada, se de fato as causas para que ela seja cortada –como um ser humano decidir e ter meios para cortar-lhe –forem ocorrer. O que significa dizer que se tais condicoes nao ocorrerem, e impossivel que essa arvore seja cortada; ou seja, nao existempossibilidadesnao-atuais de que esta arvore seja cortada.

Quem aceita o determinismo, mas nao aceita que nao ha possibilidades nao-atuais, poderia entao querer dizer que mesmo que o determinismo esteja certo, as coisas tem compatibilidades que permitem a interacao entre elas. Assim, continua o compatibilista, dizer “e possivel esta arvore ser cortada” seria simplesmente afirmar que dada as propriedades dessa arvore, ela torna real a possibilidade de ser cortada e a possibilidade de nao ser cortada.

O determinista modal aceitaria a tese do compatibilista, mas faria a ressalva de que o compatibilista esta usando um vocabulario enganoso. Pois quando dizemos que esta entre as possibilidades geradas pelas propriedades da arvore ela ser cortada, tudo que queremos dizer, se aceitarmos o determinismo, e que ela e cortavel. E dizer que uma determinada arvore e cortavel e simplesmente dizer que, se as causas para que a arvore seja cortada estiverem presentes, entao a arvore sera cortada; ou seja, esta arvore tem a potencialidade de ser cortada, e sera caso se apresente o evento apropriado. Entretanto, falar da arvore que ela e possivel de ser cortada, caso ocorra um evento apropriado, nao e o mesmo de falar da possibilidade de ocorrencia do proprio evento apropriado. Portanto, o determinista falaria que acredita que as coisas tenham potencialidades, ou compatibilidades; e que, na verdade, e justamente porque acredita que as coisas tem essas potencialidades –que se efetivam quando as causas estao presentes –que pensa que nao existem possibilidades nao-atuais.

Um compatibilista poderia tentar responder a isso dizendo que as possibilidades dos eventos-causa advem do fato de as coisas terem potencialidades. Ele diria que as potencialidades das coisas formam um estado de coisas com muitas potencialidades. Ou seja, as coisas que estao no mundo (maior estado de coisas) tem potencialidades, e essas potencialidades produzem compatibilidades entre as coisas. Como cada coisa e compativel com muitas coisas, o estado de coisas que as engloba tem a potencialidade de se organizar de outra forma, donde surgiria a possibilidade de outro evento ter ocorrido. Eu diria que ha algo de errado com esse pensamento. Sim; o estado de coisas que englobaascoisas tem a potencialidade de se organizar de outra forma. Porem, isso so ocorrera se as causas estiverem presentes. Dessa forma, se sempre chamarmos a “possibilidade” do compatibilista pelo nome nao-enganoso de “potencialidade”, poderemos perceber melhor que usamo-la de uma maneira um tanto confusa. Assim, suponhamos que uma certa arvore durante toda sua vida nao sera cortada. Dela, diriamos que tem a potencialidade de ser cortada caso um evento apropriado ocorra, mas que nao ira ocorrer tal evento, e que, portanto, e impossivel que ela seja cortada.

O mesmo ocorre se pensarmos num estado de coisas. Suponhamos um estado de coisas que, entre muitas outras coisas, tenha uma certa arvore, que chamaremos “X”. Suponhamos tambem, por hipotese, que X nunca sera cortada. O compatibilista tentaria falar que as coisas poderiam ter se organizado de uma outra maneira, que fizesse com que perto de X existisse alguem para quem ela seria um empecilho e que decidiria corta-la. Esse exemplo e resolvido de modo semelhante ao anterior. Eu admito que tal evento e compativel com as potencialidades das coisas; porem, so sera possivel que essas potencialidades se efetivem se ocorrerem as causas para tal efetivacao. Assim, e possivel, num certo sentido, que a arvore seja cortada; mas nao e realmente possivel que a arvore seja cortada.

Mostrei, assim, que e possivel que defendamos um dos sentidos de possibilidade, enquanto rejeitamos o outro, indicando a existencia de pelo menos dois sentidos diferentes de “possibilidade”, e que o compatibilista so consegue falar sobre um deles, enquanto o determinista modal consegue falar sobre ambos.

4. COISAS, EVENTOS E TEMPO
Essa distincao no uso de “possibilidade” baseia-se em duas outras distincoes, a saber, a distincao entre pensar uma possibilidade no tempo e fora do tempo, e a distincao entre pensar a possibilidade de uma coisa e a possibilidade de um evento. Essas duas distincoes se inter-relacionam: quando pensamos sobre a possibilidade de um evento, pensamo-la no tempo, e quando pensamos sobre a possibilidade de uma coisa sem encaixa-la no tempo, pensamos sobre suas potencialidades. Alem disso, a potencialidade de alguma coisa se efetivar so pode ser pensada como uma possibilidade nao-atual se a pensarmos como a possibilidade de uma coisa sem referencia a possibilidade do evento envolvendo a coisa. Pois, se atentassemos para o evento que envolve a coisa, perceberiamos que nao sao possiveis eventos fora da cadeia causal que forma o mundo, embora as coisas tenham potencialidades. Como a possibilidade real de um evento ocorrer deve ser vista a partir da cadeia causal do mundo no tempo, ela nao e a possibilidade da coisa, mas –como o proprio nome ja diz –a possibilidade do evento.

Assim, sobre uma dada arvore que nao sera cortada, so podemos dizer que e possivel que ela seja cortada caso a pensemos fora do tempo e se tomarmos essa possibilidade como pertencendo estritamente aquela arvore, e nao ao evento que a envolve. Mas isso seria um estudo das compatibilidades das coisas da natureza, e nao um estudo real das possibilidades. Contudo, se, de outro, modo, decidirmos pensar sobre possibilidades no tempo, teremos que pensar na possibilidade de eventos, pois as coisas nao estao separadas do estado de coisas do qual fazem parte. Embora possamos tambem tomar um evento como se fosse uma coisa e pensar em suas potencialidades, ou tomar uma coisa como se fosse um evento e pensar em suas possibilidades reais, estariamos pensando, respectivamente, em uma coisa e um evento, e nao o contrario.

Portanto, de nossa ja conhecida arvore, podemos dizer: “embora ela tenha a potencialidade de ser cortada, ela nao sera cortada agora”. Durante toda a sua vida, nossa arvore, por hipotese, tera a potencialidade de ser cortada. Entretanto, isso nao da a menor indicacao de que ocorra o evento de ela ser cortada nem agora e nem em nenhum dos momentos de sua vida. Nao ha nenhuma implicacao do fato de que algo tem uma potencialidade para o fato de que o evento que efetiva aquela potencialidade e possivel.

Um evento ocorre dentro de uma cadeia causal de eventos e ocorre, obviamente, no tempo. E, se consideramos o mundo como a cadeia causal de eventos que comecou com certas condicoes iniciais e leis da natureza, e que segue para o futuro, entao um evento so e possivel se estiver nessa cadeia causal de eventos e apenas relativamente a momento(s) do tempo. Esse pensamento aceita a trivialidade de que todos os eventos ocorridos ate hoje foram possivel quando ocorreram, mas nao aceita que as potencialidades das coisas que nao se efetivaram ate este momento eram possiveis de serem efetivadas e nem que eventos que eram possiveis (ou seja, os eventos passados) ainda sao possiveis sem as causas que o possibilitem. Isso, pois um evento meramente possivel nao e um evento que pertenca a cadeia causal que forma o nosso mundo; portanto, ele nao e realmente possivel, embora possa ser potencialmente possivel.

Assim, se algo que nao ocorreu agora nao era realmente possivel de ocorrer agora, entao algo que nao ocorreu ate agora nao era realmente possivel de ocorrer ate agora, e algo que nao ocorrera num dado momento no futuro nao sera realmente possivel de ocorrer nesse momento no futuro. Tudo que ocorre, ocorre por certas causas – as propriedades das coisas e as leis que regem o funcionamento dessas propriedades –; e um evento so e possivel de ocorrer se suas causas forem possiveis de ocorrer antes dele. E estas so sao possiveis de ocorrer, se forem possiveis de ocorrer as causas dessas causas, e assim por diante.

5. O DETERMINISTA MODAL CONTRA O INDETERMINISTA METAFÍSICO

Dessa maneira, um determinista nao deve acreditar em possibilidades nao-atuais, a nao ser que as pense apenas como potencialidades das coisas. Contudo, ha ainda uma objecao para forcar-nos a aceitar que ha possibilidades nao-atuais e que elas sao possibilidades reais de eventos, a saber, o determinismo ser falso. Dizer que seria realmente possivel um evento que nao esta presente na cadeia causal atual e dizer que as causas que fizeram o evento atual ocorrer poderiam ter sido outras, fazendo com que outro evento ocorresse. Isso, em ultima instancia, e dizer que as condicoes iniciais ou as leis da natureza da cadeia causal formadora de nosso mundo poderiam ter sido outras.

Para o determinista modal, a afirmacao de que as condicoes iniciais ou as leis da natureza poderiam ter sido outras baseia-se num equivoco com relacao ao conceito de condicoes iniciais. Isso e assim, pois ao afirmar que as condicoes iniciais poderiam ter sido outras, o possibilista – aquele que assere que ha possibilidades nao-atuais – estaria se obrigando a contar uma estoria sobre como essas condicoes teriam sido diferentes; e se ele contar qualquer estoria, tera que afirmar que as causas das condicoes iniciais poderiam ter sido outras e, consequentemente, que as condicoes pensadas como iniciais nao eram de fato iniciais. Logo, as condicoes iniciais nao poderiam ter sido outras.

Para responder a pergunta com relacao a se as leis da natureza poderiam ter sido outras, devemos falar um pouco mais sobre condicoes iniciais. Quando falamos de condicoes iniciais e leis da natureza, pode parecer que estamos falando de coisas primordiais e leis de inter-relacao entre essas coisas primordiais. Esse nao e o caso. Para coisas primordiais existirem de alguma forma, e nao de outra, e necessario que exista uma lei de existencia para tais coisas. Dependendo da concepcao que aceitarmos, poderemos querer dizer que as leis da natureza sao simultaneas ou anteriores as coisas; e isso as tornara parte das condicoes iniciais. Se quisermos dizer que elas sao posteriores as coisas, so falaremos isso se pensarmos que as leis sao fruto das relacoes entre as coisas. E, se esse for o caso, entao ha uma regra (ou lei) anterior que determina que a relacao entre as coisas produzira uma regra. Assim, se ha leis como condicoes iniciais e as condicoes inciais sao necessarias, entao essas leis sao necessarias.

Se, dessa forma, o mundo e uma certa cadeia causal que comecou com certas condicoes iniciais e leis da natureza, e que prossegue no tempo, nao podemos falar de um mundo com outras condicoes iniciais ou outras leis da natureza. A condicao de identidade de nosso mundo e dependente de tais condicoes e leis. Se, para asserirmos uma possibilidade, temos que afirmar condicoes iniciais diferentes ou leis da natureza diferentes, entao nao estamos mais falando sobre possibilidades com relacao ao nosso mundo, estamos somente criando ficcoes. Estas podem ate ser uteis para algo, mas isso nao indica que sao reais possibilidades.

6. OUTRO SENTIDO DE “POSSIBILIDADE”

Muitas vezes utilizamos o discurso sobre possibilidades para falarmos de probabilidades. Por exemplo: se percebemos que uma determinada arvore X esta atrapalhando uma construcao e uma outra arvore Y faz parte de um parque, poderemos querer falar – num determinado sentido – que e possivel que X seja derrubada, enquanto nao e possivel que Y seja derrubada. Tais frases nao querem exprimir nada sobre as propriedades das coisas (embora pressuponham que as arvores sao derrubaveis) e nem que o evento de X ser cortada se seguira necessariamente da cadeia causal que vivemos. Elas querem exprimir algo mais fraco que isso. Elas querem dizer que dados os eventos que percebemos ocorrendo, eles sao o conjunto de causas que e P% proximo do conjunto de causas que pensamos ser determinantes desse evento. Um evento so e dito como possivel, nesse sentido, quando P e maior que um numero de corte que determina que esse evento e provavel. Uma pessoa que falasse que a derrubada de X e possivel, nesse sentido, se daria o direito de falar de coisas que sao mais possiveis ou menos possiveis. O que ela nao sabe, mas compreende intuitivamente – pois nao coloca a mao no fogo pela assercao de sua possibilidade –, e que esta utilizando o conceito para significar outra coisa: essa pessoa falaria de possibilidades agindo como quem fala de probabilidades, ou seja, sem o comprometimento que teriam o determinista e o compatibilista.

Dessa forma, ha um terceiro sentido de “possibilidade”, que nao coloca em xeque nenhum dos outros dois, mas que deve ser distinto deles, para que nao pensemos que, em algum momento quando tratamos de probabilidades –ou de probabilidades disfarcadas de “possibilidades” – estamos falando de possibilidades reais ou de compatibilidades/ potencialidades entre as coisas. Assim, o determinista falaria que tal tipo de probabilidade e epistemica; enquanto falaria que, se a probabilidade fosse vista de outra forma, a saber, como uma lei probabilistica, ele falaria que ela e metafisica e causa do comportamento probabilistico.

7. CONVERSA CONTRAFACTUAL
Ao percebermos a diferenca entre falar de possibilidades reais, falar de potencialidades e falar de probabilidades, uma pergunta que seria relavante responder e: se aceitarmos o determinismo modal, o que estamos falando quando falamos frases contrafactuais nao disposicionais e nao condicionais? Teriamos que aceitar que elas sao ficcoes (embora sejam uteis de alguma forma). Se pensarmos em “eu poderia ter comprado uma televisao melhor”: se falo que eu poderia ter comprado uma televisao melhor no passado, somente quero dizer que eu tinha a potencialidade de comprar um televisao melhor (talvez por ter dinheiro) no passado. E, se falo tal coisa, devo aceitar que, dadas as causas que me levaram a não comprar uma televisao melhor no momento em que eu tinha a potencialidade, era impossivel que eu tivesse comprado uma televisao melhor; embora minhas potencialidades fisiologicas e financeiras estivessem presentes durante tal momento no passado.
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Porem, usar frases contrafactuais para falar sobre potencialidades nao e de nenhuma ajuda, pois ao asserirmos que eu poderia nao ter ido jantar ontem, nao estaria falando nada sobre um evento presente no tempo, mas estaria falando de uma compatibilidade que tenho todos os dias, como ser humano que sou. Falar “ontem” e dizer que poderia ter se efetivado ontem; e, se esse nao foi o caso, isso significa que as causas para eu nao ter ido jantar nao eram realmente possiveis ontem. E, tentar usar o indeterminismo ou as diferencas nas condicoes iniciais ou nas leis da natureza da cadeia causal que forma o mundo para se posicionar a favor do realismo dessas sentencas contrafactuais, e cair no mesmo abismo anteriormente indicado. Assim, o determinista modal nao poderia ver tais contrafactuais como outras coisas que nao ficcoes; a nao ser quando falamos de contrafactuais condicionais que indicam disposicoes de coisas. As contrafactuais disposicionais nao serao trabalhadas aqui.

Contudo, como eu disse, essas ficcoes sao uteis em nossos discursos, como por exemplo, para falar coisas sobre o funcionamento da moralizacao: se aceitamos que a moral e superveniente ao que e natural, temos que estar aptos a dizer sentencas como “se voce pensa que Z cometeu um ato errado, entao se seu irmao tivesse cometido os mesmos atos que Z, ele teria cometido um ato errado”. Somos aptos a falar e entender perfeitamente tal sentenca, ainda que o irmao nao tenha cometido os mesmos atos que Z. Deveriamos pensar de modo semelhante quando falamos que poderíamos ter feito uma coisa diferente da que fizemos ou que algo poderia ter ocorrido diferente do que ocorreu: deveriamos pensar que contamos-nos uma ficcao sobre uma situacao, semelhante ao nosso passado, de onde podemos tirar aprendizados para o futuro, para uma teoria das ficcoes, para a etica ou para alguma outra coisa; mas nao como uma possibilidade nao-atual.

8. CONCLUSÃO
Em resumo, o que tentei fazer foi explorar as implicacoes de aceitarmos o determinismo modal. Para isso, tive que primeiramente distinguir dois sentidos de “possibilidades”, cujo uso acredito se dar de forma confusa. Com essa finalidade, tracei a distincao entre a possibilidade um evento no tempo e a possibilidade de uma coisa fora do tempo. Tentei tambem mostrar que, se aceitarmos o determinismo, a possibilidade de um evento no tempo e o que deveria ser chamado de “possibilidade real”, enquanto a possibilidade de uma coisa deveria ser chamada de “potencialidade”. A tese compatibilista das potencialidades nao consegue dar conta de falar das possibilidades reais, pois pensa as possibilidades das coisas como se fossem as possibilidades de eventos. E, sobre as possibilidades de eventos, nao e possivel nenhum evento que nao esteja na cadeia causal espaco-temporal que forma o nosso mundo. Donde, se nao e realmente possivel que ocorra um evento fora dessa cadeia causal, entao nao e realmente possivel que uma potencialidade se efetive caso suas causas de efetivacao nao estiverem presentes nessa cadeia causal.

Como podemos perceber, o determinismo modal se baseia no pressuposto do determinismo ser verdadeiro. E isso significa que se alguem quiser dizer que ha possibilidades nao-atuais, tera tambem que negar o determinismo, ou seja, tera de aceitar o indeterminismo. Se o indeterminismo for aceito, teremos o problema de falar que pode nao haver causa para um certo evento –ou seja, um evento surgido do nada –ou que os seres humanos agem sem motivo. E, por causa dessa primeira consequencia, parece-me que o indeterminista tambem tem que rejeitar nossa habitual nocao de propriedade e toda a fisica experimental. As consequencias indeterministas sao extremamente anti-intuitivas; isso faz o fardo da prova cair sobre ele. Dessa forma, tentei deixar claro que o determinismo e pressuposto em nossas teorias fisicas e que versam sobre propriedades e que a tese indeterminista, se for falsa, nao assere possibilidades, mas cria ficcoes.

Dos diversos sentidos de “possibilidades”, tentei distinguir ainda um outro: as probabilidades. Esse sentido nao me parece comprometedor para nenhum dos lados em disputa na luta sobre se ha ou nao possibilidades nao-atuais, mas e esclarecedor de uma forma que torna o nosso discurso sobre possibilidades mais exato. Entao, assim como indiquei no caso das ficcoes probabilisticas, pretendi mostrar o que ocorre com nossas sentencas contrafactuais, se minha tese for verdadeira, e que, mesmo que as frases que afirmam reais possibilidades nao-atuais no passado sejam falsas, elas podem ter ainda algum uso.

Dessa forma, pretendi mostrar que, se o determinismo for aceito, devemos aceitar que nao ha possibilidades nao-atuais e que as coisas tem potencialidades e compatibilidades. O que faz-nos aceitar que as frases que afirmam possibilidades nao-atuais sejam falsas ou algum tipo de conversa sobre potencialidades e compatibilidades. Assim, para a tese determinista modal conseguir de fato se estabelecer, e preciso um estudo mais aprofundado da relacao entre esses diversos tipos de possibilidades –a potencialidade, a probabilidade e a possibilidade real – e do debate sobre a necessidade das condicoes iniciais e das leis da natureza.

9. BIBLIOGRAFIA.
CID, Rodrigo & FIGUEIREDO, Rodrigo. “Dialogo sobre a possibilidade”. Artigo para a disciplina Metafisica Geral (graduacao em filosofia). Ouro Preto: UFOP, 2008.
EDGINGTON, Dorothy. “Two kinds of possibility”. Supplement to the Proceedings of The Aristotelian Society: vol. 78, n. 1, pp. 1-22, 2004.
FILHO, Jenner B. B. “Causalidade, (in)determinismo e (im)previsibilidade. Por que o conceito de causa e tao importante?”. Revista Brasileira de Ensino de Física: vol. 30, n. 3, 2008, pp. 3304-1 – 3304-11.
MURCHO, Desiderio. Essencialismo Naturalizado: aspectos da metafisica da modalidade. Coimbra: Angelus Novus, 2002.
MURCHO, Desiderio. “Possibilidade relativa: tres concepcoes”. In: GRACA, Adriana S. (org.). Linguagem, Mente e Acção. Lisboa: Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2004.


Um comentário:

L. Janz disse...

Excelente, Rodrigo!

Como eu havia dito, não poderia deixar de comentar esse teu artigo. O trabalho ficou realmente extraordinário, sendo a distinção entre a "possibilidade", a "probabilidade" e a "possibilidade-real" uma apreensão deveras sutil e importante no que tange a tantos e tantos debates por esse 'mundão' afora.

Uma coisa, particularmente, que achei fantástica foi a tua colocação sobre a necessidade do "tempo" no que se refere "possibilidades-reais". Normalmente, o que as pessoas mais fazem, de fato, é confundir entre probabilidades e 'possibilidades não-atuais', então tomando-as, ingenuamente, como "coisa certa".

O detalhe, segundo bem observado, é que nem 'todas' as potencialidades imaginadas (ou verdadeiramente presentes de certas coisas) são necessárias de ocorrer sem que surjam também, como que simultaneamente, as causas-eventos que permitam a manifestação do 'premeditado'.

Enfim. Adorei esse teu artigo e não tenho dúvida de que o mesmo seja altamente esclarecedor e valoroso para muitas frentes não só de pesquisas científicas como também para muitas linhas 'autonomas de investigação dos "possíveis".

Minha conclusão do teu artigo é que, não obstante exista uma extensa série de possibilidades na mente humana, a grande maioria deles, efetivamente, pelo muito aqui exposto é bem delineado, não passam mesmo de ficção, e portanto, "possibilidades não-reais", na medida em que não levam em conta os muitos eventos necessários de causalidade do 'nosso mundo.'

Forte Abraço, Muito Obrigado e Parabéns mesmo por essa jóia!
Leonardo Janz.

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