quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Resenha de Salmon, Nathan (1986). “The Structure of Frege’s Puzzle” (cap. 4) & “A Budget of Nonsolutions to Frege’s Puzzle” (cap. 5). In: Frege’s Puzzle. 2a ed. Atascadero: Ridgeview Publishing Company, 1991.


Segundo Nathan Salmon, o enigma de Frege diz respeito à natureza e à estrutura dos pedaços de informação. Um pedaço de informação é uma entidade abstrata composta dos valores informacionais dos componentes da sentença que codifica tal pedaço de informação. Essa ideia e o o enigma pressupõem um princípio de composicionalidade para pedaços de informação, a saber, o de que se dois pedaços de informação complexos têm a mesma estrutura e modo de composição, mantendo-se numericamente distintos, então deve haver um componente de um deles que não é componente do outro. Este princípio deve ser entendido como uma instância da indiscernibilidade dos idênticos1, segundo Salmon. E ele desafia a ideia de que o valor informacional de um termo singular – e, consequentemente, um certo componente do pedaço de informação codificado numa sentença singular – é o referente de tal termo.



Uma objeção a tal princípio é a de que há entidades complexas que têm os mesmos componentes e modo de composição, embora não sejam idênticas. Um exemplo, segundo o autor, seria o do prancheta e da matéria que a constitui. Ambas seriam entidades complexas compostas das mesmas moléculas nas mesmas relações, embora a matéria da prancheta já existisse desde muito antes da prancheta começar a existir. A resposta a essa objeção é que ela não toca o coração do enigma fregeano, pois não fala sobre pedaços de informação, que é o ponto principal do enigma. Um pedaço de informação, diferentemente de uma prancheta ou de sua matéria constituinte, se tem a mesma estrutura e modo de composição que outro pedaço de informação, não pode diferir em constituição deste. Se difere, mesmo tendo a mesma estrutura e modo de composição, então deve haver um componente de um dos pedaços de informação que não é componente do outro. Salmon pensa que mesmo que falhe o princípio de composicionalidade, há outras variantes do enigma de Frege igualmente problemáticas.

Para gerarmos o enigma de Frege em sua forma original, Salmon pensa que o seguinte princípio com relação ao conteúdo informacional é invocado (p. 57): “Se uma sentença declarativa S tem o mesmo conteúdo informacional cognitivo que uma sentença declarativa S', então S é informativa sse S' é informativa”. Tal princípio é chamado pelo autor de “lei de Frege” e é por ele considerado uma lei viável para conectar os conceitos de conteúdo informacional e informatividade.

Uma objeção é dizer que há mais do que apenas o conteúdo informacional de uma sentença para determinar a sua informatividade, pois duas sentenças com o mesmo conteúdo informacional podem diferir em sua informatividade. A resposta de Salmon é dizer que essa objeção não ataca o sentido de “informatividade” utilizado na lei de Frege, na qual uma sentença seria informativa sse o seu conteúdo informacional tiver uma certa propriedade P (de ser a posteriori, de ser não trivial, de ser não analítico etc. – entre outras definições possíveis).

Muitas sentenças podem ser triviais e informativas, continuaria o objetor; como, por exemplo, “Cícéron est identique à Cicéron”, quando observada por alguém que está aprendendo francês. Para responder esse tipo de objeção, Salmon nos pede (p. 58) para distinguirmos o conteúdo informacional de uma sentença num contexto de uso – que é uma noção puramente semântica – da informação comunicada por uma elocução num contexto de uso – que é uma noção pragmática. Embora assoar o nariz e espirrar possam comunicar pragmaticamente a informação de que o autor de tais atos está resfriado, o autor pensa que seria ridículo pensar que assoar no nariz e espirrar têm um conteúdo semântico informacional (embora possa o ter em outro mundo possível muito diferente do nosso). Ele pensa que realizamos ações com as sentenças e que as sentenças têm a função básica de codificar informações. Proferimos certas sentenças para realizar ações que, em certas situações, podem comunicar informações de um modo não semântico. Um exemplo seria a ação de afirmar P e piscar o olho, que comunicaria a informação – que não está presente no conteúdo semântico informacional de P – de que a afirmação de P não é sincera.

Essa mesma distinção, segundo o autor, é traçada também por Frege, quando este distingue o pensamento que é expresso por uma sentença dos pensamentos que uma pessoa leva outras a ter por meio de ações que envolvem a elocução de uma sentença que expressa um pensamento (p. 59). O enigma de Frege, segundo Salmon, diz respeito apenas ao conteúdo semântico informacional das sentenças, ou seja, à “natureza e estrutura da informação contida em ou codificada por uma sentença num contexto de uso particular – e não à informação pragmaticamente comunicada por um proferimento particular” (p. 58-59) – de modo que a objeção anteriormente traçada erra o alvo ao enfocar em questões pragmáticas. Quando Frege fala sobre uma diferença entre as informatividades de “a=a” e de “a=b”, ele está falando sobre uma diferença de conteúdo semântico informacional (uma diferença no pensamento) – o que é chamado por Salmon de “sentido essencialmente semântico de 'informativo'” – e não sobre informações pragmaticamente comunicáveis por elas. Um aspecto curioso expresso pelo filósofo aqui resenhado é que sentenças como “5=V” são pensadas por ele como tendo um conteúdo semântico informacional trivial, embora não precise ser uma informação trivial pragmaticamente comunicada. E não precisaria, pois apenas certos casos permitiriam que uma pessoa obtivesse uma informação não trivial de uma elocução de tal sentença (como o caso de uma pessoa que está aprendendo a relação entre os números romanos e os nossos). Como, no enigma de Frege, as pessoas em causa devem ser assumidas como exímias conhecedoras da língua, tal tipo de exemplo não serve como uma instância sua.

Salmon sugere, então, que o princípio de composicionalidade de informação é uma verdade da lógica e que de nada nos adianta tentar negá-lo. Ele nos leva a pensar que, se houver sentenças da forma “Φa” e “Φb” que possuam “Φ” sendo atribuído a “a” e “b” (termos tomados como singulares e co-referenciais) e que difiram em informatividade (essencialmente semântica), então tais sentenças não poderiam ser proposições singulares (p. 61). Assim, no caso de “Vésper é Fósforo” e “Vésper é Vésper”, deve haver um conteúdo informacional diferente que os nomes “Vésper” e “Fósforo” contribuem para o conteúdo informacional das sentenças em questão, já que eles são co-referenciais e que as duas sentenças exemplificadas diferem em informatividade. Se este for o caso, então o conteúdo informacional que os termos “Vésper” e “Fósforo” contribuem para a proposição não podem torná-la uma proposição singular. Como a informação codificada por “Vésper é Vésper” difere da informação de que Vênus é idêntico a si mesmo, o termo “Vésper” deve contribuir também com algo a mais que o próprio referente.

O que o autor quer saber afinal é qual é a natureza do valor informacional de um termo singular (nome ou demonstrativo em uso). Ele investiga no próximo capítulo justamente algumas abordagens para tal questão, como as teorias conceituais (a de que ele é um conceito e a de que ele é um complexo formado por um conceito e um objeto), as teorias contextuais (a de que ele é uma rede histórico-causal e a de que ele é formado por critérios de especialistas) e as teorias verbais (a de que ele é apenas um nome e a de que ele é um complexo formado por um nome e um objeto). E conclui que nenhuma dessas abordagens se saem melhor do que a teoria ingênua do valor informacional de um nome (a teoria que diz que o valor informacional de um nome não é nada mais que seu referente).


Teorias Conceituais do Valor Informacional

Uma das teorias conceituais com relação ao valor informacional – conhecida como “Teoria Ortodoxa” – nos diz que o valor informacional de um termo [supostamente] singular é uma representação intensional do referente de tal termo, que é composta de semelhante maneira aos valores informacionais dos predicados, e que é tal que determina e assegura o referente como o indivíduo em cada mundo possível que se adéqua às condições indicadas. O conteúdo conceitual de um nome tal como “b”, nesta teoria defendida por Frege e Russell, determina as condições de verdade de uma sentença “Φb” (avaliada num certo tempo e num certo mundo), de modo que apenas com uso de semântica deve ser possível encontrar o referente de “b” em cada mundo e tempo em que ele existe. O valor semântico de um nome nessa teoria é uma descrição definida (individuadora), que estabelece a relação semântica de denotação entre “b” e b em todos os mundos e tempos em que b existe. Termos como “b” seriam descritivos. E os termos não descritivos seriam termos como a nossa variável para indivíduos (p. ex., como o “x” em “∀x Fx”, que só refere a partir da indicação de algum valor para a variável – e não a partir da apreensão de um modo de apresentação da variável), que são termos cuja referência não é determinada semanticamente por algum conceito associado ao termo (p. 64).

Frege e Russell defendiam, respectivamente, que os termos singulares são completamente descritivos, e que os termos singulares são descritivos relativamente às sense data (p. ex., sensações e imagens visuais). O sentido fregeano só existe para um termo se ele for completamente descritivo. Isto é assim por causa de três características essenciais ao sentido fregeano (p. 65): (1) ele é um modo de apresentação puramente conceitual; (2) nos termos singulares, ele é o mecanismo pelo qual o seu referente é determinado e assegurado; e (3) ele é o valor informacional da expressão da qual ele é sentido. Isso captura bem as descrições definidas, que são puramente conceituais, asseguram a designação e provêm um valor informacional.

A teoria opositora à teoria ortodoxa de Frege e Russell foi a teoria da referência direta de Kripke, Putnam, Kaplan, Donellan, entre outros. Esta assere que os termos singulares são não descritivos, embora não assira que eles são vazios de conteúdo descritivo.

O desacordo entre teóricos da referência direta e teóricos ortodoxos não é com relação à existência de conteúdo descritivo ou conceitual, mas antes com relação ao alegado papel semântico do conteúdo descritivo ou conceitual em assegurar um referente e com relação à contribuição para o valor de verdade (com respeito a parâmetros semânticos). (p. 66)

Salmon pensa que a teoria fregeana é inatingível como uma teoria da referência, e que o que podemos nos perguntar é se devemos aceitar na nossa teoria do valor informacional que o valor informacional de um nome ou termo singular é, pelo menos parcialmente, um conteúdo conceitual ou descritivo. O autor pensa que não, pelo fato de haver argumentos para mostrar que um conteúdo conceitual não assegura o referente do nome e para mostrar que o conteúdo conceitual não pode ser o valor informacional.

Um desses argumentos para mostrar que o conteúdo conceitual não pode ser o valor informacional é extraído do experimento mental da Terra Gêmea, de Hilary Putnam. Neste, devemos assumir (I) que a apreensão dos conceitos é sobreveniente aos estados psicológicos e (II) que o pedaço de informação que corresponde a um termo singular, numa sentença que codifica uma informação completa com relação a um certo indivíduo, determina o indivíduo do qual a informação é sobre. E também imaginar uma situação na qual há duas mulheres com vidas (e mentes) qualitativamente idênticas, que têm cada uma o seu marido – que se chama “Hubert” nos dois casos – e que a única diferença entre as vidas dessas mulheres é que o marido da primeira tem 165 libras, enquanto o da segunda tem 165,000000001. Se ambas proferissem “Hubert tem 165 libras”, ambas estariam no mesmo estado psicológico, apreenderiam os mesmos conteúdos conceituais, mas suas sentenças codificariam informações diferentes já que cada uma é sobre uma pessoa diferente (o que podemos perceber pela diferença de valor de verdade entre os dois proferimentos). Assim, por II, ainda que o conteúdo conceitual de “Hubert” seja o mesmo nos dois casos, o valor informacional tem de diferir; o que implica logicamente que o valor informacional não pode ser puramente conceitual, tal como pretendia Frege.
Uma tentativa de reparar o problema apresentado pelo experimento da Terra gêmea, é formar uma teoria híbrida, que aceite que o valor informacional de um termo singular seja parcialmente um conteúdo conceitual e parcialmente o seu referente (p. 67). Um exemplo é a teoria de que tal valor informacional é um par ordenado formado pelo conteúdo conceitual e pelo referente.

Salmon nos diz que tal teoria não se sai melhor do que a teoria ortodoxa. Um problema inicial que ele aponta é a subjetividade do conteúdo conceitual: ele varia de acordo com o modo como aprendemos a utilizar o nome e de acordo com a nossa familiaridade com o portador do nome. No entanto, a codificação de uma informação por uma sentença é um atributo objetivo e semântico (não é pragmático); portanto, não é subjetivo. Nós apreendemos o mesmo valor informacional a partir de uma sentença que contém um termo singular (que designa um indivíduo). Por isso, não pode ser o caso de o valor informacional do nome ser o conteúdo conceitual ligado ao nome, dado que tal conteúdo varia (ou pode variar) de acordo com a pessoa que utiliza o nome.

Segundo Salmon, a relação de codificação deve ser relativizada a tipos de usos de sentenças, e tais tipos de usos seriam distintos de acordo com a diferença no valor que assinalamos para ser referente do nome. O autor chama essa relativização também de “relativização a nomes”. Um exemplo é a sentença “Sócrates é calvo”, que codificaria a informação de que Sócrates (o filósofo grego) é calvo apenas relativamente ao uso dessa sentença que faz parte do tipo que toma o termo “Sócrates” para designar tal filósofo. Se utilizássemos a mesma sentença para falar de outro Sócrates (tal como o jogador de futebol), então a informação codificada seria outra, pois realizamos um outro tipo de utilização da mesma sentença. Isso não seria um problema porque, diferentemente da relativização ao conteúdo conceitual, a relativização a tipos de usos de sentenças serve apenas para desambiguar sentenças – o que seria uma pré-condição necessária para a atribuição semântica (p. 68). Na medida em que não há ambiguidades na sentença – e na medida em que o referente do termo singular é especificado –, diz-nos Salmon, a sentença deve codificar apenas uma informação com um valor de verdade definido; o que não seria realizado pela teoria conceitual mista, já que o conteúdo informacional de termos singulares, por conter, mesmo que parcialmente, um conteúdo conceitual, seria subjetivo, mesmo que parcialmente. O autor nos diz que as descrições ou imagens que nos ocorrem quando utilizamos os nomes nas sentenças, por serem subjetivas, podem ser pensadas como apreensões pragmáticas de informações – embora não como parte do valor semântico informacional do nome – e que o enigma de Frege diz respeito apenas às informações semanticamente codificadas, e não às informações obtidas de maneira pragmática.

Outro tipo de objeção ao descritivismo fregeano são os argumentos modais de Kripke. Um deles, o da necessidade indesejada, é que se se um certo conceito P – tal como “o autor da Metafísica” – é o valor informacional de um certo nome “b” – tal como “Aristóteles” –, então a sentença “b, se existe, é P” deveria ser necessariamente verdadeira e conhecível a priori. No entanto, tal sentença não é necessariamente verdadeira, dado que b poderia não ser P (pois Aristóteles poderia não ser o autor da Metafísica), e nem conhecível a priori, já que não podemos conhecer que b é P em virtude apenas dos conceitos envolvidos na sentença “b, se existe, é P” (“b, se existe, é P” codifica uma informação conhecível apenas a posteriori).
Ainda outra objeção é que, por mais que tenhamos descrições definidas associadas a um nome que nos façam referir outro objeto que não o portador do nome, a sentença que contém o nome continua codificando um pedaço de informação sobre o portador do nome, e não sobre o indivíduo que corresponde à descrição definida. Mesmo que haja erros no conteúdo conceitual associado a uma certa sentença, a informação codificada semanticamente por ela é livre de erros (p. 70).

Teorias Contextuais do Valor Informacional

Outras teorias dizem que o conteúdo informacional de um termo singular, como um nome ou como um indexical, é essencialmente contextual – tais como a teoria causal da referência e a teoria dos critérios de especialistas. Na primeira, o valor informacional de um nome é identificado com a rede causal linguística que fez, desde o batismo até os dias de hoje, o nome referir ao indivíduo. A segunda teoria tenta identificar o valor informacional do nome com os critérios, forjados por especialistas da linguagem, para a correta aplicação do nome. Com relação aos indexicais, Salmon nos diz que, geralmente, seu valor informacional é identificado com o seu caráter (ou programa).

O problema dessa segunda teoria, segundo o autor, é que ela também cai no problema do erro. Pois os especialistas podem discordar com relação aos critérios e porque pode não haver especialistas com relação a nomes de figuras históricas há muito mortas. Não haver especialistas é um problema, pois conseguimos utilizar os nomes corretamente mesmo na inexistência de tais profissionais.

Os problemas da identificação do valor informacional do indexical com o seu caráter são que isso supostamente não seria generalizável para o caso dos nomes próprios – já que o referencialista direto não aceita que nomes tenham um valor informacional descritivo – e estaria sujeito ao argumento baseado no experimento mental da Terra gêmea – já que os caráteres de duas elocuções da mesma sentença podem ser os mesmos e as elocuções dizem respeito a indivíduos diferentes.

E, finalmente, o problema da teoria causal, é que ela é sujeita ao argumento subjetivista, dado que diferentes pessoas podem aprender a usar um certo nome a partir de cadeias diferentes de comunicação. Além disso, ela tem o problema de tomar o mecanismo contextual que assegura a referência – as cadeias causais de comunicação – como um componente da informação (componente do conteúdo informacional cognitivo); o que, segundo Salmon, é um erro categorial.

Teorias Verbais do Valor Informacional

As teorias verbais – apenas com relação a nomes próprios, e não a indexicais – defendem que o valor informacional de um nome é, ao menos parcialmente, o próprio nome. Assim, a diferença de valor informacional entre “a=a” e “a=b” ocorreria em virtude, pelo menos parcialmente, da diferença nos termos utilizados.

A versão mais simples dessas teorias assere que o valor informacional do nome é o próprio nome (o próprio nome visto como forma e/ou som) apenas. O problema aqui, segundo o filósofo, é que tal teoria cai no problema da Terra gêmea, já que sentenças idênticas (com os mesmo componentes) podem codificar valores informacionais diferentes.

Uma versão mais forte defenderia que o valor informacional do nome é um par ordenado composto do nome (como som e forma) e do portador do nome no contexto de uso. Os problemas aqui são: (i) que falta explicar como esta abordagem poderia ser estendida a outros termos singulares – como indexicais e nomes de tipos naturais – já que haverá sentenças problemáticas para os referencialistas diretos que instanciariam o enigma de Frege, como “isto é água”; e (ii) que tal teoria não permite que dois nomes diferentes para o mesmo objeto (p. ex., nomes em linguagens diferentes – como “cat” e “gato”) possuam o mesmo valor informacional, já que mudanças na forma ou no som do nome fariam com que o valor informacional dos nomes diferisse.

A Estratégia de Frege Generalizada

O enigma de Frege é e pode ser usado como uma estratégia para refutar a teoria ingênua e qualquer modificação desta. A Estratégia de Frege é, segundo Salmon, primeiramente encontrar dois termos “a” e “b” que sejam co-referenciais e que sejam tais que “a=b” seja informativo e “a=a” não seja; e, depois, utilizar a lei de Frege e o princípio de composicionalidade de informações para mostrar que a teoria ingênua não pode ser o caso.

Salmon nos diz que há um problema para Frege nessa estratégia, a saber, o de que ela é generalizável, colocando empecilhos para a própria estratégia fregeana. A Estratégia Fregeana Generalizada é tomar “F” como a função que o teórico opositor assere para os nomes, encontrar dois termos “a” e “b” que compartilhem o mesmo F e que sejam tais que “a=b” seja informativa, enquanto “a=a” não seja, e então utilizar a lei de Frege e o princípio de composicionalidade de informações para refutar a tese de que o valor informacional de um nome é o seu F (p. 73). Salmon pensa que essa estratégia funciona bem contra a maior parte das teorias e nos exemplifica como ela funciona.

No caso de teorizarmos que o valor informacional de um demonstrativo, num contexto de uso, é o referente com os dados visuais, teremos, por exemplo, a sentença “ele é ele”, que é informativa em certos contextos (como o exemplificado pelo autor) e não informativa em outros. Como a ostensão seria fundamental para traçar essa diferença, não pode ser o caso que a aparência visual, o refente, ou uma combinação de ambos seja o valor informacional dos termos.

No caso de teorizarmos que o valor informacional é puramente conceitual – como Frege fez –, a sua própria estratégia também se aplica. O exemplo de Salmon é o caso em que conhecemos dois termos “a” e “b” cujos conteúdos conceituais não conseguimos diferir; “a=b” seria informativo, enquanto “a=a” não seria – o que, depois da aplicação da lei de Frege e do princípio da composicionalidade, nos mostraria que o valor informacional de “a” e “b” não pode ser conceitual.

Segundo o autor, a lição que devemos tirar dessas aplicações da generalização da estratégia fregeana é que não é refinado o suficiente que pensemos que o valor informacional de termos singulares é o seu referente, nem que é um conteúdo puramente conceitual, nem que é o caráter da expressão e nem que é alguma combinação desses – dado que todos esses elementos podem ser compartilhados por expressões que parecem diferir em valor informacional (p. 74).

O filósofo nos diz também que a estratégia fregeana é aplicável também às teorias verbais do valor informacional. O exemplo é com o termo “Aristóteles”. Se os dois termos “Aristóteles” em “Aristóteles é Aristóteles” referirem o filósofo Aristóteles, tal sentença não seria informativa; enquanto, se cada termo “Aristóteles” em “Aristóteles é Aristóteles” referir um objeto diferente – p. ex. o filósofo Aristóteles e o marido de Jacqueline Kennedy – então a estratégia fregeana generalizada é aplicável e, assim, não poderemos dizer que é o próprio nome (ou o nome com o referente) que é o valor informacional do nome.
O que Salmon conclui com tudo isso é que qualquer teoria substantiva imaginável do valor informacional está susceptível à estratégia fregeana, inclusive a própria teoria conceitual fregeana. Ele parece acreditar que as questões do enigma de Frege – sobre a natureza do valor informacional – são em princípio insolúveis, ou possíveis de serem iluminadas apenas por caracterizações negativas. Ele pretende posteriormente – nos capítulos seguintes – nos mostrar que há algo de falacioso na estratégia fregeana e na sua generalização (p. 76).
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1A indiscernibilidade dos idênticos pode ser expressa da seguinte forma: (∀x∀y∀Φ(x=y→(Φx→Φy))).



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