domingo, 14 de novembro de 2010

Resenha de Bird, Alexander (2001). “Necessarily, salt dissolves in water”. Analysis: vol. 61, n. 4, pp. 267-74.

Resumo: Neste artigo, Alexander Bird pretende provar que a lei da natureza o sal se dissolve na água é metafisicamente necessária. Primeiramente, ele nos dá algumas informações sobre ligações químicas e mostra que a existência de certas substâncias depende da veracidade de certas leis. Depois, ele avança um argumento por redução ao absurdo à idéia de que a lei o sal se dissolve na água é contingente. E, então, resolve algumas objeções que poderiam ser levantadas. Pretendo reconstruir o âmago de seu argumento e expor sua resposta à objeção mais relevante para a generalização do argumento. 

Palavras-Chave: Metafísica. Lei da Natureza. Necessidade.

Este texto pode ser lido na íntegra aqui.


2 comentários:

Gilberto Miranda Jr. disse...

Rodrigo, em primeiro lugar parabéns por seu Blog e por seus artigos. É um prazer poder lê-lo, muito embora parte de sua linha de raciocínio ainda me cause controvérsias quando comparada como a forma como vejo as coisas.

No artigo que você comenta e tenta demonstrar que há uma necessidade metafísica de algo ser como é, parece-me existir uma petição de princípio que determina as coisas a partir de uma necessidade. Isso soa-me como ma inversão. Vou tentar explicar...

- A Lei de Coulomb determina o que é o sal? Ou é o ser do Sal que acontece de uma tal forma que foi possível detectar a Lei de Coulomb?

As implicações semânticas da forma como você discorre sobre leis estabelece uma metafísica que determina as coisas pela necessidade delas serem assim, sendo que minha visão determina a Lei como um padrão detectável sob um ponto de vista que descreve a fenomenologia de algo. Entende a diferença?

Não é a Lei de Coulomb que é essencial para a existência do Sal. É a existência do Sal que é essencial para qualquer Lei que descreva as características do Ser Sal. A Lei é a tradução de uma contingência teleonômica e não o contrário. As Leis não determinam nada. Não há Lei anterior à existência efetiva de alguma coisa. É a existência efetiva de alguma coisa que determina uma Lei que a caracteriza sob certas condições cujo padrão pode ser de conhecimento prévio.

Uma Lei é uma construção histórica dentro do campo de percepção intuitivo de um ser humano, que mede as relações de medida entre grandezas e que é validado coletivamente a partir de revisão de seus pares. Se ela descreve com exatidão algo que pode ser observado e repetido “n” vezes, significa que ela traduz com fidedignidade dentro das condições em que o fenômeno ocorre. Mas não significa que a Lei determina como o fenômeno sempre ocorrerá. Ela não determina, ela o traduz como ele pode ser observado.

A Lei de Coulomb é verdadeira porque descreve a dissolução do sal na água. E enquanto o sal dissolver na água dentro das condições esperadas, ela será verdadeira. Mas não vejo como sustentar que é a Lei que determina a dissolução do sal, pois a dissolução é contingente.

Outro problema, parece-me, é o conceito de contingente. Ora, pelo que você escreve e pela estrutura de argumento usado para reduzir ao absurdo a não contingência da dissolução do sal, parece-me que você conota contingência como algo fortuito que, sob as mesmas condições, poderia acontecer de forma diferente. E isso não é verdade.

O contingente, sob as mesmas condições, acontece sempre da mesma forma. Ele é teleonômico. O contingente é a emergência de determinada situação sob certas condições. As condições se repetindo, a contingência será a mesma. É contingente a dissolução do sal pela água, pois não é sempre que temos esses dois elementos juntos. Juntando-os, a contingência será a mesma. Há uma Lei que se depreende da forma como acontece, mas essa Lei não determina o acontecimento, pois depende das condições de possibilidade dele ocorrer.

A existência de substâncias realmente implica a verdade das leis que as relacionam, mas não há conseqüência lógica para a sua necessidade. Uma coisa não leva a outra. Não existe determinação metafísica, pois só o existente determina e sua relação contingencial com o mundo que produz as Leis. Não é as Leis, portanto, que produzem existência.

O mais engraçado de tudo isso é que a argumentação é boa, nos faz ver dessa maneira. Porém é enganosa e nos faz, logo logo, acreditar em duendes, gnomos e ondinas.

Rodrigo Cid disse...

Primeiramente, gostaria de agradecê-lo pelo comentário.

:D

Em segundo lugar, eu gostaria de traçar alguns comentários sobre o seu comentário:

(A) Eu não tento demonstrar que a Lei de Coulomb é necessária, mas apenas fiz uma resenha do texto do Bird, e ele tenta sim provar que a Lei de Coulomb é necessária. Na verdade, eu discordo dele. Mas não pelos motivos que vc expôs.

(B) Se é a lei de coulomb que determina a natureza do sal, ou se é o sal que nos permite encontrar a lei de coulomb, isso não fará diferença para o argumento. O Bird mesmo pensa que as leis não são nada de independente, mas que elas advém dos objetos (posição contrária a minha). E não faz diferença, pois tudo que ele precisa é que a existência do sal implique a verdade da lei de coulomb, e que a verdade da lei de coulomb implique que o sal e água sejam tais que o sal dissolva na água. O ponto fundamental é que a lei de coulomb regula as relações eletrostáticas entre os objetos atômicos e e entre os moleculares,e um íon de sal só pode existir porque há uma forma como as relações eletrostáticas o formando funcionam, e porque há uma forma em que a relação eletrostática do sal com a água funciona. E tal relação eletrostática é devido à lei de coulomb, seja ela algo além das propriedades dos objetos, ou seja ela advinda das propriedades dos objetos. O ponto é que se a lei de coulomb for verdadeira, entnão ela regula tanto a relação entre os átomos que formam o sal, quanto a relação entre o sal e a água -- de modo que ela pudesse não existir, então existiria uma situação possível onde o sal existe e não dissolve em água. E isso implicaria que a lei de coulomb é tanto verdadeira porque o sal existe, quanto falsa porque o sal não dissolve na água. Como isso é uma contradição, não podemos supor que o sal se dissolver na água é contingente. Se a dissolução do sal na água é necessária (ou seja, se todos os casos onde o sal existe, ele dissolve na água, ceteris paribus, então a lei de coulomb é nencessária.

É justamente que a dissolução não é contingente o que Bird tenta provar. Assim: se a dissolução é contingente, então poderia existir sal e ele não dissolver em água. Mas a natureza eletrostática que faz uma certa junção de átomos ser sal também determina a natureza da relação eletrostática entre o sal e a água. De modo que se existe sal, então ele tem de dissolver em água, pois o que determina sua natureza é o mesmo que determina a natureza de sua relação eletrostática com outros objetos.

Devemos lembrar que há dois conceitos de contingência: de re e de dicto. A contingência de re tem a ver com a não essencialidade de uma certa propriedade a um certo objeto. Por exemplo, "Sócrates é contingentemente filósofo" ou "sócrates é necessariamente/essencialmente humano". Esses são os modos de re de utlizar as modalidades. Desse modo podemos falar sobre a necessidade da lei de coulomb. Mas penso que é nesse ponto que Bird erra. Ele pensa que fala sobre a necessidade metafísica forte (existência em todas as situações possíveis) de dicto, mas fala apenas sobre a necessidade metafísica fraca de re (algo ter uma propriedade em todos os mundos possíveis em que existe, mas sem existir em todos os mundos possíveis). Para remediar isso, ele fala sobre a lei de coulomb ser vacuamente verdadeira em situações onde não existe sal e água. Mas ele não pode fazer isso. Essa não é uma discussão trivial e deve ser estabelecida com argumentos.

Eu concordo com vc sobre a não provada necessidade de existência das leis de coulomb. Bird não consegue seu objetivo. Eu escrevi um artigo sobre isso. Te envio quando for publicado.

Não entendi a relação entre a argumentação e a aceitação de duendes etc.

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