sábado, 30 de outubro de 2010

Resenha de Moore, G. E. (1962). “Proof of an external world”. In: Philosophical Papers. New York: Collier Books.

O problema que Moore trata em Prova de um mundo exterior é o de como provar que existem coisas exteriores a nós, se é que de fato existem. Moore começa citando Kant e o escândalo filosófico do fato de até sua época não termos alcançado provas de que existem coisas exteriores a nós. Diz, então, que Kant, até dar uma prova satisfatória da realidade objetiva da intuição interior, assim como todas as pessoas antes dele – se Kant estiver correto – era incapaz de dar uma prova satisfatória. Segundo Moore, sua incapacidade de fornecer uma prova satisfatória chegaria ao fim se os seus leitores, através apenas de suas indicações, fossem capazes de darem-se a si mesmos uma prova satisfatória. E, também, segundo Moore, ao falar de uma prova da realidade objetiva da intuição interior, Kant o faz de modo a permitir que também seja necessariamente uma prova das coisas exteriores a nós. Assim, se a prova de Kant é satisfatória, então é possível dar pelo menos uma prova satisfatória do ponto em questão. E se esse é o caso, temos de nos perguntar que tipo de prova é essa e se são possíveis outras provas ou outros tipos de provas. Como Moore acredita que a resposta de Kant é satisfatória mas que o escândalo filosófico persiste, torna-se importante discutir se é possível dar qualquer prova satisfatória de que existem coisas exteriores a nós.

Moore parte, então, para esclarecer o que significa com “coisas exteriores a nós”, ainda fazendo algumas relações com a Crítica de Kant: com tal termo, ele quer dizer “coisas exteriores a nossas mentes” no sentido de “coisas que se devem encontrar no espaço”. Essas distinções são importantes, pois quando Moore fala de “coisas exteriores”, não quer falar das coisas em si dos objetos ou das coisas exteriores ao corpo, mas de todas as coisas que se devem encontrar no espaço, como: animais, plantas, pedras, o sol, as construções, e inclusive sombras (embora estes não sejam facilmente chamados de objetos físicos). Assim, diz Moore, se ele conseguir provar que sempre existiram duas sombras diferentes, terá provado que existiram pelo menos duas coisas que se deveriam encontrar no espaço; o que seria uma prova tão boa quanto a dada através de quaisquer tipos de objetos físicos.

Sobre, então, o termo “coisas que se devem encontrar no espaço”, Moore chama-nos atenção para não o confundirmos – como fez Kant – com “coisas que se apresentam no espaço”, pois existem coisas que se apresentam no espaço, mas que não se devem encontrar no espaço, como quando olhamos firmemente para um papel preto num fundo branco e depois vemos uma mancha cinza na parede. Neste caso, tal mancha não é uma coisa que deva ser encontrada no espaço, no sentido de Moore, pois não tem condições para que qualquer pessoa com capacidades físicas normais a apreenda pelos sentidos. E mesmo que outras pessoas possam reproduzir tal experimento ótico, elas veriam apenas imagens exatamente parecidas, pois há algo de absurdo em supor que a imagem vista é a mesma – enquanto não é absurdo supor tal coisa com relação a objetos físicos –; o que faz tais coisas que se apresentam no espaço, mas que não se devem encontrar no espaço, estarem fora de sua alçada quando fala das provas da existência das coisas que se devem encontrar no espaço.

Outros exemplos de coisas que se apresentam no espaço, mas não se devem encontrar no espaço, são as imagens posteriores, as imagens duplicadas e as dores. O argumento para lidar com as imagens posteriores e com as imagens duplicadas é o mesmo do anterior, tendo em vista que as primeiras são imagens vistas de olhos fechados e as duplicadas são pares de imagens. Um ponto interessante das imagens posteriores é que não podemos dizer que elas se apresentam no espaço, mas temos que dizer que elas se apresentam num espaço, pois elas não se apresentam no espaço no qual dizemos que as coisas exteriores existem, elas se apresentam num espaço mental. Sobre as dores, ele fala que, como elas ocorrem em um lugar particular, elas se apresentam no espaço, mas, diferentemente dos seus sinais eletro-químicos correspondentes, não  devem ser encontradas no espaço, pois haveria algo de absurdo em supor que duas pessoas teriam numericamente a mesma dor.

Tais exemplos de coisas que se apresentam no espaço e não são encontradas no espaço, segundo Moore, não indicam realidades físicas e não implicam que algo se deva encontrar no espaço. E, também, do fato de que uma coisa se deva encontrar no espaço não se segue que se apresente no espaço; “dever se encontrar no espaço” implica somente que se poderia perceber essa coisa, e não que ela é de fato percebida. Isso é assim, pois não é nenhum absurdo supor que, num dado momento, uma coisa que deve se encontrar no espaço – como uma sombra – (I) poderia existir exatamente naquele momento sem ser percebida; (II) poderia existir em outro momento sem ser percebida nesse outro momento; e (III) poderia ser o caso de, em todo os momentos de sua existência, ela nunca ter sido percebida. Assim, o termo kantiano e mooreano “coisas que se devem encontrar no espaço” engloba tanto o que é real como o que é possível; donde, do fato de que algo é possível não se segue que foi, é, ou será apresentada no espaço.

Assim, entendendo dessa forma o que Kant quer significar com “coisas que se devem encontrar no espaço”, Moore diz que a podemos entender como o que ele próprio significa com “coisas exteriores a nós (nossas mentes)”, caso levemos em consideração: (a) que muitas coisas que se apresentam no espaço não se devem encontrar no espaço; e (b) que não há contradição em supor que (b1) existiram coisas que se devem encontrar no espaço, embora nunca tenham sido, nem são, nem serão percebidas, e (b2) que muitas das que foram percebidas existiam em muitos momentos antes de serem percebidas.

Assim, Moore não está a usar a expressão “exterior” para falar de coisas que se apresentam e não se devem encontrar no espaço, como dores, imagens duplicadas, alucinações, sonhos. Entretanto, sua distinção não é tão clara para que possamos decidir, em todo caso, se algo é exterior ou não, como por exemplo, o céu e os reflexos vistos no espelho. Nesses casos, seríamos relutantes em dizer que eles devem se encontrar no espaço e não seria absurdo supor que dois indivíduos pudessem ver exatamente a mesma coisa. Contudo, embora o argumento mooreano para que algo não se deva encontrar no espaço é o de haver algo de absurdo em supor que dois indivíduos têm, por exemplo, exatamente a mesma percepção desse algo, ele não acredita que seja importante para o seu propósito ele não ter alcançado uma definição perfeita. É suficiente, diz Moore, que da proposição “existem tipos de coisas que se devem encontrar no espaço” – os tipos de coisas mencionadas como exteriores – se siga “há coisas que se devem encontrar no espaço”. O que seria, exemplificadamente, como dizer que da proposição “há plantas” segue-se que “há coisas que se devem encontrar no espaço”, da proposição “há dois cachorros ali” segue-se que “há coisas que se devem encontrar no espaço”, etc.

Dessa forma, o que Moore pretende é que ao provar que duas plantas existem, prove ipso facto que há coisas que se devem encontrar no espaço; sem tornar necessário que se dê uma prova separada que da proposição sobre a existência das plantas segue-se a da sobre a existência de coisas que se devem encontrar no espaço. Ou seja, se dissermos “pelo menos dois cães existem no momento presente” segue-se que “pelo menos duas coisas se devem apresentar no espaço no momento presente”.

A objeção que se segue é que tal espaço onde as coisas devem ser encontradas poderia não ser exterior. Moore responde que se usamos “exterior” como sinônimo de “se dever encontrar no espaço”, essa objeção não é pertinente; ela só cabe quando não os usamos como sinônimos. Só então pediríamos uma prova separada que da proposição de existência de duas plantas, ou de plantas em geral, se segue a de existência de coisas que se devem encontrar no espaço. E tal posição estaria usando o sentido transcendental de “exterior”, ou seja, aquilo que existe como uma coisa em si distinta de nós. Este é comumente utilizado por filósofos, e faz com que da proposição da existência de duas plantas não se siga que existam coisas exteriores. O problema disso é que os próprios filósofos ao se perguntam sobre a existência de objetos exteriores não utilizam o termo “exterior” de modo a que o que deve ser encontrado no espaço não seja exterior.

Com relação, então, ao outro sentido kantiano de “exterior”, o de ser empiricamente exterior, Moore afirma que numa possível interpretação de Kant, ele é idêntico a “ser encontrado no espaço” e distinto do sentido transcendental. Um ponto interessante, segundo Moore, é o fato de quem usa o termo “exterior às nossas mentes” quer contrapô-lo com algo que acredita se encontrar em alguma (minha, sua etc) mente. Nesse sentido de “em”, algo pode ser exterior a mim, mesmo que eu o tenha em mente, por exemplo, imaginar algo que se encontra à minha frente. E é nesse sentido que dores, imagens posteriores etc estão em minha mente, em oposição a serem exteriores à minha mente. Assim, os filósofos, ao falar do próprio corpo, de árvores e de carros como objetos exteriores, estavam enfatizando uma grande diferença entre tais tipos de objetos e os tipos de objetos que existem apenas na mente.

Moore acredita que uma das principais, mas não a diferença, é que os objetos ditos exteriores se devem encontrar no espaço e isso não ocorre com as coisas em alguma mente. A diferença que leva tais filósofos a falar de tal maneira, segundo pensa Moore, exporei a seguir. Falamos que uma dor, por exemplo, se apresenta em minha mente apenas, se aceitamos que é com a mente que sentimos dores corporais. Mas se aceitamos tal coisa, então usamos o termo “em minha mente” de modo a englobar também tudo que vemos, ouvimos etc como tão mentais quanto as coisas que imaginamos, pensamos, lembramos etc.

E tal uso filosófico foi estabelecido por se reparar uma semelhança entre enunciados como “vi um elefante” e “imaginei um elefante”. Isso faria, se aceito, que todos esses tipos de proposições pertencessem a uma mesma classe R, em oposição a enunciados de uma classe S em que se usa “eu” ou “meu”, como por exemplo, “eu estava na rua”, “minha perna estava quebrada”, e semelhantes. Tal semelhança é o fato dos primeiros serem enunciados que fornecem dados para a psicologia e os outros não. E outra é que, se acrescentarmos um dado temporal (o momento de ocorrência) às sentenças da classe R, seguir-se-ia que, naquele momento, eu tenho uma experiência; enquanto isso não se seguiria para as sentenças da classe S. Isso, exemplificadamente, é: se vi um gato hoje de 12:05 a 12:10, então estava tendo uma experiência hoje de 12:05 a 12:10; mas se eu tinha menos de dois metros de altura em 1999, não se segue que eu estava tendo alguma experiência em 1999.

Moore passa, então, a dar uma maior explicação do termo “ter uma experiência”. Um filósofo o utilizaria, dizendo que num dado tempo eu estou tendo uma experiência, se, e só se, (1) eu estava consciente naquele tempo, ou (2) eu estava sonhando naquele momento, ou (3) alguma outra coisa era verdadeira para mim naquele momento e era semelhante ao que é verdadeiro quando estou acordado ou sonhando, pois em ambos os casos percebemos ou pensamos as coisas de maneiras semelhantes (pelos sentidos, pelos raciocínios etc). Tal uso de “ter uma experiência” aceitaria que falássemos de alguém dormindo e antes de sonhar, que ela não está tendo nenhuma experiência naquele momento, e que para estar tendo experiências num momento é preciso estar consciente, sonhando, alucinando ou algo do tipo.

Assim, dizer “há uma dor física em minha mente” somente quererá dizer que da proposição sobre a existência dessa dor num determinado tempo segue-se que estou tendo uma experiência nesse determinado tempo. E dizer “meu corpo é um objeto exterior” simplesmente significará que meu corpo existe em momentos em que não estou tendo uma experiência. Com isso, da proposição de existência de algo nunca se segue que qualquer um de nós estava tendo uma experiência naquele momento.

Mas se com “nossas mentes” quisermos falar apenas das mentes humanas, então a concepção de “ser exterior às nossas mentes” se tornaria diferente da de “dever ser apresentado no espaço”, pois enquanto seriam exteriores às nossas mentes as dores dos animais, elas não se deveriam encontrar no espaço. E esta diferença faz com que do fato de haverem coisas exteriores às nossas mentes não se siga que há coisas que se encontrem no espaço. A relação entre essas duas concepções é a seguinte: se afirmarmos a existência de uma coisa – do tipo que obedece a relação entre a asserção de que existe pelo menos uma coisa desse tipo implicar a proposição de que pelo menos uma coisa deve ser encontrada no espaço –, segue-se que há pelo menos uma coisa que se deva encontrar no espaço e segue-se também que há pelo menos uma coisa exterior.

Para exemplificar que essas implicações são verdadeiras, Moore pensa numa sentença, que contenha algo que seja um objeto físico e do tipo que deve ser encontrado no espaço, como “isto é uma bolha de sabão”. Argumenta que não há contradição em pensar que a bolha de sabão existiu antes de ser percebida e que continuará a existir mesmo depois de não ser mais percebida, em contraposição a uma alucinação de bolha de sabão. Assim, para uma coisa ser uma bolha de sabão, e não uma alucinação, é preciso que seja de tal tipo que sua existência seja logicamente independente das percepções que se têm dela naquele momento: é preciso que da proposição de existência de uma bolha de sabão nunca se siga que eu a percebi naquele tempo ou que eu estava tendo uma experiência naquele tempo; e ainda, é preciso, segundo Moore, que ela seja de tal tipo que possa existir, dado um certo momento, sem ser percebida por ninguém e que sua existência seja independente de qualquer pessoa estar tendo uma experiência.

Dessa forma, se isso é verdade para objetos do tipo da bolha de sabão, também o é para qualquer outro do tipo. E esse tipo (chamaremos de tipo x) é justamente o tipo que contém as coisas que, se elas existem, então há algumas coisas que devem ser encontradas no espaço. Assim, Moore pensa que se conseguir provar que há uma coisa do tipo x – como uma folha de papel ou uma mão humana – e uma de outro tipo ou que há duas coisas do tipo x, terá provado ipso facto que há pelo menos duas coisas exteriores a nós. Daí, a única coisa que faltaria seria Moore dar uma prova da existência de coisas do tipo x. A prova é a seguinte: Moore balança suas duas mãos, uma por vez, dizendo “aqui está uma mão” e “aqui está a outra”; provando assim a existência de duas mãos e, conseqüentemente, a existência de coisas exteriores.

A objeção seria de que esta não é uma prova da existência dessas mãos. Moore responde que essa é uma prova perfeitamente rigorosa, pois (1) a premissa dada como prova da conclusão é diferente da conclusão para a qual ela é prova, (2) a premissa dada como prova era sabida por ele e não algo meramente crido, e (3) a conclusão se segue da premissa apresentada como prova. (1) A premissa foi algo indicado por seus gestos e pelas sentenças “aqui está uma mão” e “aqui está a outra”, e a conclusão foi a de que existem duas mãos agora; ambas são diferentes, pois uma pode ser verdadeira, enquanto a outra pode ser falsa. (2) A premissa era realmente sabida, pois, quando ele falou sobre as mãos, apontava para o lugar onde elas de fato estavam sendo percebidas; donde seria absurdo sugerir que isso era uma mera crença e que poderia ser o caso de ele não saber onde estavam suas mãos. (3) A implicação é verdadeira, pois é tão certa como dizer “se há uma mão aqui e outra aqui agora, então segue-se que há duas mãos em existência agora”.

Embora a prova de Moore possa ser questionada como não sendo rigorosa, ele nos diz que aceitamos rotineiramente provas de tal tipo. Exemplifica com o caso de alguém que afirma que um certo texto contém três erros de português; essa pessoa só poderá provar tal coisa se apontar os erros no texto. E dizer que ele poderia prová-lo dessa maneira é dizer que ele poderia estar certo de que havia pelo menos três erros. E se consideramos esse método uma boa prova, devemos também considerar sua prova da existência das mãos uma boa prova.

Entretanto a prova de Moore serve, primariamente, para provar que existem objetos exteriores agora. Mas, como quem questiona a existência dos objetos exteriores não está perguntando apenas pelos objetos no momento em que fala, uma prova da existência dos objetos no passado ajudará também a remover o escândalo filosófico, sugerido por Kant, de não conseguirmos dar uma prova satisfatória da existência dos objetos exteriores. A prova é de um tipo semelhante, embora difira em aspectos importantes, à do presente; a prova é: “eu mantive minhas mãos sobre esta escrivaninha há muito pouco tempo; portanto duas mãos existiram há algum tempo; portanto pelo menos dois objetos exteriores existiram durante algum tempo no passado”.

Embora toda a explicação anterior e suas provas, Moore acredita que alguns filósofos ainda se sentirão insatisfeitos, pois entendem por “prova de um mundo exterior” um enunciado  geral de como se pode provar quaisquer afirmações sobre objetos ditos exteriores. Moore acredita que se é isso que é exigido, então não é possível provar a existência das coisas exteriores, pois precisaríamos antes provar que não estamos sonhando. E disso, embora tenhamos evidências conclusivas, não podemos prová-lo, pois não somos aptos a dizer qual é toda essa nossa evidência; assim como não conseguimos dizer como sabemos onde está nossas mãos, embora o saibamos.

Outra razão para a insatisfação é pensar que, porque não é possível dar essas provas extras, então as provas mooreanas não são conclusivas. Isso advém do pensamento de que “se não se pode provar que aqui está uma mão e aqui está outra, então não sabemos tal coisa, pois foi admitido que se não soubéssemos a premissa, a prova não seria conclusiva”. Que é a mesma perspectiva de que “se não posso provar algo, então eu não o sei e, portanto, devo aceitá-lo como uma questão de fé” (perspectiva kantiana). Pode-se mostrar que essa perspectiva está errada ao usarmos premissas que, para serem usadas com veracidade, dependem da existência de coisas exteriores. Embora não pudesse provar como sabia que “aqui está uma mão” e que “aqui está a outra”, Moore sabia que elas estavam onde ele estava falando que estavam naquele momento. Dessa forma, Moore pretende dizer que aqueles que se sentirem insatisfeitos, alegando que ele não sabia o que estava afirmando (sobre a localização de suas mãos), simplesmente não possuem uma boa razão para sua insatisfação e que, portanto, a sua é uma prova completamente satisfatória.


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