sábado, 18 de abril de 2020

Em busca da Pedra Filosofal


Em busca da Pedra Filosofal


         Por um momento, minha alma elevou-se acima
de seus temores degradantes e miseráveis para
contemplar as ideias divinas de liberdade e sacrifício de
que aqueles lugares eram os monumentos e recordações.
Por um instante, ousei romper meus grilhões
e olhar ao redor com um espírito livre e elevado,
mas o ferro corroera-me a pele, e eu afundei novamente,
trêmulo e desesperado no miserável eu.
(Mary Shelley. Frankenstein)

Para começar, trago alguns destaques de matérias de jornais online para a reflexão que pretendemos aqui:

“O nadador Cameron van der Burgh, por exemplo, relatou dias difíceis após a infecção pelo coronavírus. O sul-africano de 31 anos, com uma capacidade pulmonar que lhe rendeu medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 2012, disse estar com problemas para executar tarefas simples”. (Folha de SP, 24/03/2020)

“Um adolescente de 14 anos morreu neste domingo (29) em Ovar, Portugal, infectado pela Covid-19, causada pelo coronavírus. Atleta de um time de futsal da cidade, ele sofria de psoríase, uma doença de pele autoimune”. (G1, 29/03/2020)

“O jovem de 26 anos que morreu no sábado (28) em São Paulo com coronavírus era corredor e participava de maratonas. Maurício Suzuki colecionava medalhas e comemorava cada conquista. Segundo a irmã, Simone, o irmão cuidava da saúde e o rápido avanço da Covid-19 surpreendeu”. (Isto é, 30/03/2020)

O que essas notícias têm em comum?

Todas as notícias falam de pessoas jovens que foram afetadas (algumas mortas) pelo coronavírus. Não só jovens como também atletas e isso não impediu que fossem infectados pelo vírus, nem que tivessem complicações graves. Ao contrário do que se disseminou, o vírus não mata somente pessoas idosas, mas tem uma capacidade alta de prejudicar as pessoas mais jovens, independente do seu porte atlético. A presente pandemia de covid-19 encerra uma geração inteira que se iniciou no final do século XX e perdurou até então. Essa é a geração chamada de “geração saúde”, que via na boa alimentação e exercícios físicos exagerados a solução para a longevidade e uma vida melhor. O século XX foi ao extremo com o culto ao corpo e o século XXI ainda carrega essa marca. Além da alimentação saudável e vício por academias, podemos citar o uso excessivo de cosméticos, cirurgias plásticas e crossfit. Aliás, o termo “fitness” ficou associado à saúde, como se ser fitness fosse sinônimo de ser saudável.
O novo coronavírus veio pôr um fim definitivo à geração saúde, mostrando o quão frágeis somos todos nós como seres humanos, independente do quanto possamos cuidar de nossos corpos, ele continua suscetível à morte por doenças do mesmo jeito. A nossa complexidade biológica não impede que o nosso corpo possa ser destruído por um ser microscópico como um vírus. Por enquanto, a melhor solução encontrada foi o isolamento social para evitar a disseminação da doença pelo contato com outras pessoas.
Em artigo recente de 14 de abril, a revista Science anunciou que se não for desenvolvida uma vacina para covid-19 em breve, o confinamento poderá durar até 2022. Quem melhor para decidir sobre nossas vidas em uma pandemia do que a medicina? A exceção está virando a regra e a epistemologia médica se tornou um saber incontestável. O saber médico reivindica o seu poder em situações de emergência. É nesses momentos de crise como uma pandemia que se recorrem aos médicos como os únicos salvadores. Teria o médico o intuito de tomar o poder soberano? Seria o triunfo da medicina sobre as demais ciências? Muito depende da descoberta de uma vacina.
Começa a corrida para se encontrar a pedra filosofal. Da mesma forma que os magos alquimistas do renascimento buscavam a pedra filosofal capaz de nos garantir a vida eterna, a medicina moderna busca, através das mais variadas formas, perpetuar a longevidade biológica de nossos corpos. Para que salvar almas se podemos viver para sempre? A descoberta da vida eterna será o triunfo da ciência? Enquanto a descoberta não vem, temendo por nossos frágeis corpos naturais, somos enclausurados em nossas casas por determinação do Leviathan médico.
Em seu livro Frankenstein, Mary Shelley conta a história de um ávido cientista em busca da fórmula da vida, que está oculta na natureza. Despois de atingir o ápice de seu trabalho, criando vida através do saber científico, ele vê o seu projeto destruído pela criatura que criou. Seria esse o mesmo fim de toda ciência que busca ir além de suas próprias forças?

Referências

FOLHA DE SP. Histórico de atleta não impediu campeão olímpico de sofrer com coronavírus. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/esporte/2020/03/historico-de-atleta-nao-impediu-campeao-olimpico-de-sofrer-com-coronavirus.shtml. Acesso em: 11/04/2020.

G1. Adolescente de 14 anos com coronavírus morre em Portugal. Disponível em: https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/03/29/adolescente-de-14-anos-infectado-por-coronavirus-morre-em-portugal.ghtml. Acesso em: 11/04/2020.

ISTO É. Jovem de 26 anos que morreu com coronavírus corria maratonas. Disponível em: https://istoe.com.br/jovem-de-26-anos-que-morreu-com-coronavirus-corria-maratonas/. Acesso em: 11/04/2020.

KISSLER, S. M. et al. Projecting the transmission dynamics of SARS-CoV-2 through the postpandemic period. Science, 2020. Disponível em: https://science.sciencemag.org/content/early/2020/04/14/science.abb5793. Acesso em: 14/04/2020.

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