quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Mitologias I




Mitologias I

Inicio uma série de comentários sobre trechos da obra “Mitologias” de Roland Barthes.

Na realidade, aquilo que permite ao leitor consumir o mito inocentemente é o fato de ele não ver no mito um sistema semiológico, mas sim um sistema indutivo: onde existe apenas uma equivalência, ele vê uma espécie de processo causal: o significante e o significado mantêm, para ele, relações naturais. Pode exprimir-se esta confusão de um outro modo: todo o sistema semiológico é um sistema de valores; ora, o consumidor do mito considera a significação como um sistema de fatos: o mito é lido como um sistema factual, quando é apenas um sistema semiológico. (2003, p. 223)


A obra, escrita em 1956, faz uma boa análise sobre o que é um mito e, mais especificamente, sobre o que é um mito contemporâneo. A estrutura mítica faz parte de um sistema semiológico e retrata um signo. Ao lermos “Mitologias” nesse final do ano de 2018, podemos verificar o quanto a obra ainda é atual e permanecerá pelos próximos anos. Se olharmos para as figuras políticas do mundo, podemos ver personalidade se transformando em mitos, ao serem exaltadas além do construto que realmente são. O caso do Brasil é bem específico nesse ponto, onde um dado candidato era chamado pelos seus messiânicos eleitores de “mito”. Isso condiz exatamente com a citação acima: “o mito é lido como um sistema factual, quando é apenas um sistema semiológico”. Há, desse modo, uma naturalização da personalidade, tomando seus atos como simples relações naturais da sua pessoa e não como uma estrutura linguística articulada. Desse modo, muita confusão se cria em cima desse tipo de formulação. O mito não pretende enganar, ele diz claramente sem nada encobrir; o que acontece é a reinterpretação da estrutura mítica de maneira falsamente natural e nada factual, quando, na verdade, ele é o que sempre foi: um mito.

Luiz Maurício Bentim da Rocha Menezes

Bibliografia:

BARTHES, Roland. Mitologias. Tradução de Rita Buongermino, Pedro de Souza e Rejane Janowitzer. Rio de Janeiro: DIFEL, 2003.

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