quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Prometeu Acorrentado




Prometeu Acorrentado
Luiz Maurício B. R. Menezes



Como vimos em nosso post anterior, por ter roubado o fogo divino e entregue aos homens, Prometeu será condenado e castigado por Zeus e será acorrentado no Cáucaso por Hefesto. Essa será a sina de Prometeu: ficar acorrentado pela eternidade tendo uma águia que todos os dias irá comer seu fígado. A representação de Prometeu e suas correntes inquebrantáveis é o paradigma da liberdade. Ao se permitir acorrentar, Prometeu defende a existência e a liberdade dos homens, tornando-se, assim, o primeiro amigo da humanidade (philantrópos).
A liberdade é o tema que perpassa toda a narrativa que move o mito de Prometeu. No Prometeu Acorrentado do tragediógrafo grego Ésquilo, podemos ver como, apesar de agrilhoado e sem liberdade para agir, Prometeu mantém-se a frente em sua visão, sendo que o próprio destino de Zeus depende da liberdade de Prometeu. E nisso, Prometeu desafia Hermes, mensageiro de Zeus:

Fica sabendo ainda: nunca eu trocaria
minha desdita pela tua submissão.
Acho melhor ficar preso a este rochedo
que me ver transformado em fiel mensageiro
de Zeus, senhor dos deuses! Assim mostrarei
aos orgulhosos quão vazio é seu orgulho!
(ÉSQUILO. Prometeu Acorrentado, v. 1283-8)

Prometeu mesmo acorrentado se diz mais livre que Hermes na sua função de submisso mensageiro de Zeus. A liberdade de Prometeu consiste na sua métis, sua astúcia, sua inteligência, isto é, no seu livre pensar que é fruto do seu saber, que o faz sempre estar adiante dos demais. O orgulho do liberto Hermes é vão, pois ele está preso na própria ignorância e não tem como saber, e nem mesmo arrancar, o que diz Prometeu saber. Prometeu é resiliente perante as circunstâncias em que se encontra quando foi acorrentado por Hefesto. A tentativa de intimidá-lo pelo poder das sentinelas de Zeus, Krátos e Bía, de nada adiantou para anular a perspicácia e a coragem de Prometeu frente ao seu destino. Ele se mantém firme e paciente perante a força onipotente e opressora de Zeus. Nesse sentido, Prometeu e Sócrates, tragédia e filosofia, parecem ligados ou acorrentados por princípio, Prometeu no seu saber adiante, Sócrates pelo seu saber que nada sabe. Ambos firmes perante o verdadeiro saber.
O saber que move Prometeu é aquele que o permite estar sempre além de todas as possibilidades. Desse modo, a visão prometéica é aquela que o faz livre e adiante sobre todos os demais deuses. Ao dar o fogo proibido aos homens, Prometeu concedeu-lhes a luz divina, a razão para tomar suas decisões e a vontade para agir. A liberdade humana consiste no conjunto entre ação e reflexão. Viver é se deparar com a angústia da liberdade que temos dentro de nós diante das incertezas do mundo que nos cerca. Cabe-nos a escolha diante da vida perante o tempo que nos é dado. Como o próprio Prometeu nos diz: “o tempo ensina enquanto vai passando...”.

* Esse ensaio foi publicado primeiramente na "Gazeta" do Amapá no dia 14/01/18.

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