segunda-feira, 6 de julho de 2015

Eu penso, logo de-xisto

Inicio aqui uma série de ensaios que tem um intuito de rediscutir questões consagradas dentro do pensamento filosófico. Os ensaios também servem de desafios aos leitores que queiram propor questões e discussões a partir desses ensaios.





Eu penso, logo de-xisto: ensaio sobre o ergo

Ego cogito, ergo sum
- Descartes

Não existem escolhas ruins, somente escolhas.
Entre pensar e existir (ser) há algo que não é apenas um detalhe; tal relação se dá pelo ‘ergo’, o logo de nossa citação. A ligação que se faz entre pensar e existir é, de fato, penosa; no entanto, a existência me parece ser um fardo muito maior do que o pensamento. Existir para o homem envolve escolher. E o que é pensar se não algo que pode não estar comprometido com o agir? A ação envolve reflexão? De tanto refletir, podemos deixar de agir. No entanto, não é do pensamento que quero falar, mas da existência, do pesar que é existir. Existir é difícil! E, no entanto, não podemos deixar de existir se ainda somos (algo). Entre tantas possibilidades que a vida nos apresenta, traçamos até o final dela um único. O que acontece com aqueles todos que não escolhemos? Estaria a nossa felicidade perdida em algum desses infindáveis labirintos? Poderíamos encontrar o fio que nos leva até lá? Não seria ela o nosso minotauro que devemos encarar em nossa existência?

Muitos tomam a vida como um jogo de xadrez sem conseguirem perceber o essencial: não há tabuleiro para se jogar. Se não há tabuleiros não há regras para os movimentos das peças que compõe o jogo. A vida não pode ser racionalizada como em um xadrez de tabuleiro, joguemos fora do tabuleiro e nos aproximaremos da verdade. Tantas e tantas coisas sem explicação. Ao olharmos para a realidade ela nos devolve o olhar sem resposta, apenas enigmática. Para a dor tomamos uma aspirina ou algo que corta o efeito da dor. Mas não seria o caso de nos perguntarmos que elemento é esse que ingerimos e que oculta a nossa dor? E que é a dor que nos vem sem aviso, como algo estranho que não podemos entender, mas somente sentir? E tudo isso nos leva novamente para a existência, a dificuldade de existir. Não seria, talvez, melhor não existir? Não há tanta força no não-ser quanto no ser?
E o problema de existir não se resumiria em ter medo, em querer sempre ter segurança em cada passo que damos? O pensar nesse caso seria essa segurança que afasta a paixão e garante a existência (ego cogito, ergo sum). Mas não há uma multiplicidade de coisas que podemos ser, que se ligam pelo ‘ergo’? “Escrevo, logo existo; “pinto, logo existo”; “sinto, logo existo”... É dessa multiplicidade que surgem os diversos caminhos para se existir. E depois de perpassarmos pelo múltiplo, podemos dizer que no fim se forma uma unidade?
Às vezes em uma sala duas pessoas que se encontram (conhecidas ou não) sofrem o constrangimento da palavra, de termos que algo dizer, quando talvez o melhor seja nada dizer, prezando-se assim pelo silêncio. Não estaria nesse encontro o peso de duas existências por demais pesadas?
Mas e quanto aos casuais encontros em que tanto acontece sem que possamos transcrever em uma palavra sequer? Nesse caso, é como se o múltiplo retornasse a nós, como se infindáveis portas aparecessem sem que pudéssemos escolher uma delas. Não seria isso uma maneira de sonhar? E não seria isso uma maneira de sonhar? E não seriam esses encontros em que deixamos algo no outro e o outro deixa algo em nós? Nos encontramos, ergo somos, o outro está em mim e eu estou no outro, mas o que, de fato somos? Penso, logo de-xisto, viver é estar em uma constante de-existência, em que somos uma multiplicidade de seres. Encontros e desencontros...
O ir e vir dos caminhos que se encontram e se tornam outros caminhos que virarão mais outros ao infinito. Devemos conhecer o máximo possível de caminhos ou nos ater apenas a um? Há alguma maneira de saber ou de sentir isso? Ou estaremos fadados a nossa solidão? Seria a solidão uma espécie de antimatéria do sentir ou, mais ousadamente, a própria matéria do nosso ser? Mas o que constitui a nossa matéria?
Somos “ligados” por partículas fundamentais chamadas de ‘glúons’. Estes estão no interior de prótons e nêutrons e sem eles não seria possível a matéria. Mas que é essa partícula fundamental que liga tudo e permite a matéria existir? Não seria ela o nosso ‘ergo’, o ergo que tudo liga, que nos permite pensar e existir ao mesmo tempo? O ergo que tudo liga a existência humana dando forma a nossas vidas. Sou mais do que o meu pensar, existo apesar deste pensar. Estamos no mundo como seres plenos de existência cuja vida nos abre diversas possibilidades. Agarremos todas aquelas que nos são possíveis. Se os caminhos são muitos, por que nos prender a apenas um? Não há um método correto para se viver e todo discurso sobre tal método é falso. Tal é o absurdo da existência![i]

Luiz Maurício Bentim da Rocha Menezes





[i]Ao contrário do que se poderia esperar, este ensaio não tem por base a obra de Descartes, mas a obra de Julio Cortázar O Jogo da Amarelinha. As diversas possibilidades desta obra são fantásticas para o pensamento do múltiplo.

2 comentários:

Filipe Veloso disse...

Se penso que eu existo, por consequência, defiro peremptoriamente um princípio absoluto, constructo muito mais complexo se ampliado a uma noção que por eu existir, como consciência existente pertinente a um sistema de unidade, então tudo existe da mesma forma. A existência de tudo endossada através da própria consciência lógica supera a contingência da dúvida maior sobre a finitude. O homem é o seu limite enquanto homem porém.

Luiz Maurício Menezes disse...

O problema está justamente no que você chama de 'princípio absoluto'. A unidade do "eu" é uma construção falsa de um delírio da razão. Cito Robbe¬Grillet: "Tudo isso é o real, o fragmento, o fugaz, o inútil, tão acidental e tão particular que qualquer evento aí aparece a cada instante como gratuito e qualquer existência como, afinal de contas, desprovida da menor significação unificadora". A unidade do eu é, talvez, mais uma imposição de uma ordem social do que uma força da razão.

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