terça-feira, 21 de julho de 2015

Ensaio sobre o Sonho


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Ensaio sobre o Sonho


Durmo com a mesma razão com que acordo
E é no intervalo que existo.
- Alberto Caeiro, Poemas Inconjuntos

Se o sonho é real, o que é o real dos sonhos?
Incertezas, dúvidas... a existência é penosa para aqueles que sabem que existem e, para estes, não há alívio em viver. As pessoas depositam umas nas outras suas aspirações e vontades lhes dizendo: “você deve... você precisa...”; e o que poderia ser leve e prazeroso, se torna difícil e penoso.
O sonho é um real escape do real. Mas o que o sonho tem de menos real do que o real? Pensemos com certa atenção sobre o passado. O que este tem de real, se o que o mantém é a memória? Seja a memória individual ou coletiva, o passado nada mais é do que memória. Se o passado for esquecido, ele ainda pode ser considerado como existente, ele pode ser considerado real? Teria o passado existência própria? Por outro lado, não é o sonho também memória? Podemos afirmar que sonhamos se não nos lembramos dele?
Alguns dirão que o sonho se compõe de imaginação e que o real não é assim composto. Mas a estes respondo com Fernando Pessoa no Livro do Desassossego:

Tudo é o que somos, e tudo será, para os que nos seguirem na diversidade do tempo, conforme nós intensamente o houvermos imaginado, isto é, o que houvermos, com a imaginação metido no corpo, verdadeiramente sido. Não creio que a história seja mais, em seu grande panorama desbotado, que um decurso de interpretações, um consenso confuso de testemunhos distraídos[i].

Meu passado nada mais é do que uma interpretação de mim mesmo, “um consenso confuso de testemunhos distraídos”, o funcionamento mais profundo da minha imaginação. O real nada mais é do que uma imagem que faço de mim no mundo. Se devemos viver no mundo que importa se é real ou sonho? Que julgamento poderemos fazer melhor sobre um do que sobre o outro? Sempre estaremos a formar imagens do mundo como ele não é, mas como nos aparece. Podemos negar com veemência e recusar tudo isso, impondo os ditames da razão a um mundo que não os aceita; ou podemos mais facilmente aceitar isso como genuinamente o faz o Sonhador de Dostoievski em Noites Brancas: vivemos aquilo que construímos da realidade que nos apresenta. Em que isso se diferencia do sonho, que certeza posso ter eu de que tal imagem que formo do real me é mais real do que o sonho? Se o sonho é real pela sua própria existência de ser sonho, o que significa ‘ser mais real’, epíteto que designamos para o próprio real? Seria o real, portanto, composto de maior existência? Se sim, o que nos garante isso, a razão? Talvez os seguidores do ‘eu’ uno e indivisível, que pensa (apesar de existir) o mundo como obra puramente racional, possam responder essa pergunta. Quanto aqueles que apenas sentem a questão sem encontrar uma única razão para respondê-la continuarão a existir, apesar de pensarem...
O real é uma imagem que dele fazemos; o sonho é só um outro aspecto do real. O mundo é memória que dele fazemos. Sem memória não há passado, não há sonho, não há real. Da memória não podemos garantir o real, mesmo que dela se faça a verdade. Dizer a verdade é dizer algo que lembramos ou tomamos como verdadeiro. Mas que garantia temos de que essa memória corresponda a verdade? O sonho também consiste em memória. Ao nos lembrarmos dele, por que não podemos toma-lo como real? Como podemos separá-lo totalmente da verdade? Seria o sonho o avesso do real? O sonho tem a sua própria verdade, assim como o real a sua. Isso significa que a verdade não pode vir da memória e, portanto, nada na memória garante a verdade de algo, seja do real ou de um sonho. Como nos diz Caeiro no Guardador de Rebanhos:

A recordação é uma traição à Natureza,
Porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.[ii]

As sensações, o sentir, o sentimento são aquilo que nos torna seres múltiplos, capazes de muitas vivências. Não há razão para o que sinto, simplesmente porque não posso significar racionalmente o sentir. A minha sensação de ontem não é a mesma de hoje e nem será a de amanhã, mesmo que eu pense que sim. De fato, a verdade está mais próxima do que sinto do que do que penso sentir. E se eu, por acaso, mudar o que sinto, muda em conjunto tudo que há em mim. O sonho é a liberdade de poder sentir de modos diferentes, aquilo que talvez não ousemos sentir no real. Mas se ambos são compostos da mesma matéria sensível que nos faz, poderemos saltar de um mundo único, indivisível e racional para um mundo de possiblidades.

Luiz Maurício Bentim da Rocha Menezes






[i] PESSOA, Fernando. Livro do Desassossego, §27. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
[ii] PESSOA, Fernando. “Poema XLIII do Guardador de Rebanhos”. In: _____. Poesia Completa de Alberto Caeiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 69.

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