quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Retorno à Filosofia Política



“Somente os perigos que abarcam a sociedade inteira perturbam o sono tranquilo do filósofo e o arrancam do leito. Pode-se impunemente degolar seu semelhante embaixo da sua janela, basta-lhe pôr as mãos sobre os ouvidos e argumentar um pouco consigo mesmo para impedir a natureza, que nele se revolta, de identificar-se com aquele que assassinam”. – Rousseau, Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens.


Até quando suportaremos atrocidades como a que ocorreu ontem no Egito, onde centenas foram mortos e milhares ficaram feridos num legítimo massacre decretado pelo governo militar no país? O Egito é só um entre tantos exemplos de desentendimentos políticos, econômicos e religiosos que acabam em sangue. A violência é um instrumento dos governos, mas como ela deve ser usada? O que fazer quando a democracia falha? A instauração de um estado policial é a solução para a paz? Liberdade ou mais segurança?

Questões como essas suscitam a Filosofia Política a pensar caminhos para uma melhor relação entre os homens no mundo. A divergência entre pessoas, a dificuldade em encarar o outro esteve presente desde os primórdios. A palavra grega ‘bárbaro’ já indicava um problema encontrado entre os gregos para olhar o diferente, aquele que não fazia parte da mesma cultura, aquele que se apresentava como um elemento estranho, que deveria ser evitado. Sempre seria um não-grego, um bárbaro.

Milhares de anos passaram-se e o outro continua a ser um problema a ser por nós enfrentado. Por que permitimos que a tirania (um clássico problema da filosofia política desde os tempos do velho Platão) resista como forma de governo em pleno século XXI? Legitimamos esse tipo de governo ao determinarmos que alguns não são tão iguais a nós e merecem ser tratados diferentes, como bárbaros. A palavra da moda agora é dizer que o outro é um ‘terrorista’, pois assim qualquer atitude contra este é permitida. Tratamos nossos semelhantes com desigualdade porque eles pensam e agem de maneira diferente da nossa. Não seria a hora de encararmos a diferença como algo bom para a natureza do homem e a diversidade de pensamento como uma forma de melhorarmos e engrandecermos nossa participação nesse mundo que convivemos?

 

2 comentários:

Ana Paula disse...

Essa é minha primeira visita neste blog, estou adorando tudo que estou lendo!
Bom, ousarei deixar um comentário...
O texto me fez refletir e algumas perguntas surgiram, vamos lá:
Seria a igualdade uma forma de aprisionar a liberdade?!
A liberdade nos torna desiguais?!

A meu ver, a liberdade traz com ela a desigualdade. Se um indivíduo é livre, pode optar por ser totalmente diferente de outro.

Ana Paula!

Luiz Maurício Menezes disse...

Prezada Ana Paula,

Obrigado por sua visita. O livre pensamento será sempre bem-vindo aqui. Levantaste boas questões, que dentro do possível tentarei responder.

O problema da igualdade e da liberdade pode ser entendido, no caso indicado, de duas maneiras: (i) que somos iguais enquanto humanos e (ii) que enquanto homens livres temos o direito a pensarmos e agirmos diferente uns dos outros.

O primeiro caso indica que devemos nos respeitar uns aos outros como seres que tem os mesmos direitos. O segundo caso indica que somos livres para sermos diferentes, mas a nossa liberdade para agir não pode ultrapassar o direito do outros, senão não há mais respeito.

A igualdade instituída por classe, credos, religião, tribos, política, etc. acentua a maneira como olhamos para o outro como um estranho que deve ser isolado ou, até mesmo, eliminado. O nome para isso é intolerância.

Enquanto seres racionais e capazes do diálogo, penso que a intolerância não pode ser uma resposta ao outro, ao diferente, pois isso fere tanto a premissa (i) – que garante a nossa igualdade enquanto humanos, quanto a premissa (ii) – que permite sermos desiguais em pensamento e ação.

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