sábado, 23 de março de 2013

Manifesto pela Integração entre Filósofos Analíticos e Não-Analíticos



Prezados amigos filósofos, 

Estou escrevendo este manifesto, pois penso ser importante pensarmos sobre o seu conteúdo. Todos nós que estamos há alguns anos na investigação em filosofia na academia sabemos que há uma divergência persistente entre filósofos chamados "analíticos" e os chamados "não analíticos" ou "continentais". Sob cada um desses termos, jaz inúmeros tipos de filósofos, diferentes em seus métodos e intuições básicas. Talvez a divergência principal entre esses dois tipos gerais seja em suas concepções metafilosóficas fundamentais, com a filosofia sendo uma prática cognitiva ou uma não-cognitiva. Cada tradição teria se fundado em uma posição e daí as práticas pedagógicas de cada uma se lhes teriam adequado. E isso teria aumentado a divergência entre cada concepção. Talvez essa seja a resposta; talvez a distinção esteja em outro lugar. Mas o quanto devemos deixar essa distinção nos levar à guerra? Essa é uma pergunta política e, portanto, exige uma resposta política.

Num país como o Brasil, com recursos ainda bastante limitados para a educação superior em Filosofia, essas tradições acabam brigando por espaço, e essas brigas geralmente paralisam ou diminuem as ações dos departamentos de filosofia. E, muitas vezes, os alunos e professores chegam a se tornar sectaristas de uma tal forma, que é prejudicial para a formação total de um filósofo, seja por não assistir aulas ou não fornecer conhecimentos sobre filosofia analítica ou não-analítica. Um filósofo total deve saber tanto as minúcias da lógica, quanto a ética de Sartre. Mas o quão importante é ser um filósofo total? E em que medida a academia está necessariamente envolvida nesse processo? Não posso responder a primeira pergunta sem um escrutínio grande demais para esse manifesto. Mas quanto à segunda pergunta, a academia tem de fornecer as possibilidades de o interessado na abrangência se formar como um filósofo total, sabendo de muitas teorias de muitas tradições diferentes, e de um interessado na especificidade se tornar um filósofo especialista.

Não precisamos e nem devemos querer pedagogicamente que todo graduado seja um filósofo total, ou que ele seja um especialista. Principalmente porque precisamos de ambos - os totais, para nos dar uma visão de mundo, e os especialistas, para aprofundar cada tema de nossa visão de mundo. Abrindo a possibilidade de formação dos alunos, desde a graduação, para as disciplinas que os interessam, sem obrigá-los a fazer o que não lhes interessa, obteremos alunos muito mais dedicados e interessados. A filosofia tem uma característica diferente  das outras disciplinas: as teorias não são importantes em si mesmas no ensino de filosofia, tal como o são em outras disciplinas (como a engenharia ou a química), mas elas são importantes pedagogicamente apenas na medida em que ensinam os alunos a filosofar, ou seja, ensinam-nos a produzir teorias filosóficas. Além disso, essa possibilidade de escolha das disciplinas tornaria mais fácil amenizar a guerra entre analíticos e não analíticos, que está se tornando algo muito comum em departamentos brasileiros.

Há pessoas que pensam mais analiticamente. E há outras que pensam mais sinteticamente, ou mais historicamente etc. Quanto mais variedade tivermos na filosofia, melhor. Melhor para os departamentos, que receberão mais recursos e poderão realizar mais coisas. Melhor para os alunos, que receberão mais benefícios, podendo aproveitar da integração nas disciplinas e no contato com outras posições. E melhor para a sociedade como um todo, dada a geração de mais filósofos dedicados. E muitas (ou algumas) vezes os trabalhos de uma tradição ou outra podem ser utilizados para adquirir importantes insigts nas próprias investigações. Quantas vezes Nietzsche já não nos forneceu intuições não-cognitivistas sobre a ética? E quantas outras vezes Wittgenstein já não nos iluminou das funções não assertóricas da linguagem?

Manter uma guerra nos departamentos de filosofia, entretanto, é ruim, dado o seu caráter separatista. Ruim para os alunos e professores, que começam discussões agressivas e constrangedoras em sala de aula, que começam a parar de se falar e que deixam de se ajudar em projetos que desenvolveriam a filosofia no Brasil. A universidade, além de ser um local para a investigação da realidade, é um local de formação de grupos para empreendimentos de projetos. Guerrear costuma travar muitos contatos e projetos de acontecerem, muitas  pós-graduações de surgirem, muitos cursos de se manterem etc.

É comum pensarmos que há uma diferença marcante entre analíticos e não analíticos. E talvez haja, tal como há uma diferença marcante entre teóricos universalistas platônicos (transcendentalistas) e aristotélicos (imanentistas). Há uma diferença marcante entre ambos, mas eles ainda podem continuar o diálogo. Podemos ter uma diferença substantiva entre tradições filosóficas, desde que isso não gere quietismo. E, mesmo que o gere, o fato de sermos todos humanos e dedicados à filosofia (cada um segundo sua perspectiva metafilosófica) já nos dá a possibilidade de debate e união. Sejamos mais unidos e tentemos deixar as divergências filosóficas no campo da teorização. Platão e Aristóteles divergiam em muitos aspectos teóricos, mas isso não impediu que ambos estudassem juntos.

Façamos uma filosofia mais aberta, com menos sectarismo. Porém, ao mesmo tempo, com a opção de estudarmos o que gostamos. Isso poderia evitar os embates, embora não seja um caminho para facilitar o debate. Mas acredito que depois que tivermos o respeito e a consideração pelos nossos amigos filósofos de outras tradições, podemos trabalhar numa melhor integração pelo debate. Esta só virá após aceitarmos que o outro pode ter algo interessante a dizer. E só fazemos isso quando respeitamos e consideramos o outro digno de ser ouvido. Pode haver argumentos ou intuições com relação ao relativismo cultural (ou mesmo com relação ao relativismo da verdade) que sejam bastante interessantes, mesmo para um realista moral; tal como pode haver aspectos da lógica modal de primeira ordem interessantíssimos para um metafísico do estilo heideggeriano. Caridade interpretativa e razoabilidade; é isso que esperamos de nós mesmos.

Por favor, alcancemos a paz, o respeito e o desenvolvimento.

Um grande abraço a todos,

Rodrigo Reis Lastra Cid
23/03/2013

6 comentários:

J. V. Stefanelli disse...

Acredito que a sua intensão é realmente boa, mas existem problemas que realmente são espinhosos e somente um individuo, ou um grupo de pessoas, com grande capacidade poderia resolver esses problemas.
Primeiramente o problema dos embates estão justamente nas concepções básicas do trabalho que deve ser feito ou das ferramentas e formas que as utilizamos para os nosso projetos. Ora isso impossibilita o entendimento de ambos os lados, a forma como os analíticos e os sintéticos concebem a linguagem e a forma como ela é entendida e desenvolvida por cada um impossibilita que haja um trabalho em conjunto numa área que usa e dá atenção justamente aos detalhes da lingua para expressar de forma mais acurada as ideias, que é a filosofia.
A separação da questão sendo puramente formal e não tendo nada a ver com o conteúdo da disciplina é algo realmente questionável, talvez em certas áreas de estudo realmente isso não seja levado em conta, mas existem várias concepções que são tomadas como ponto de partida que não são ainda conciliáveis.
Por fim existe um acontecimento espinhoso que não deve ser ignorado nem diminuindo e deve ser visto com atenção, e somente depois de todos avaliarem, tirarem suas conclusões e se entenderem sobre ele é possível esse seu pedido poder ser considerado: o caso Sokal.
Por isso acredito que essa separação apesar de ser prejudicial ao desenvolvimento da filosofia no Brasil ela é um elemento histórico e cultural necessário para o desenvolvimento da filosofia e a negação ou simplesmente ignorar esse problema será pior do que enfrentá-lo até que ele seja resolvido.

Mayra Moreira da Costa disse...

Rodrigo, não está clara para mim a distinção entre cognitivo e não-cognitivo e a relação entre analíticos e continentais. João, sei que vc não está defendendo que é a impostura intelectual que distinguem analíticos e continentais, mas citando o caso histórico. No entanto, acho que essa posição mais forte pode ser considerada. Penso que podemos ter coisas semelhantes ao caso Sokal na filosofia analítica, ou dita analítica. O fato de um trabalho se enquadrar numa determinada tradição não o impede ser impostor. Na minha visão, as imposturas intelectuais estão mais conectadas à falta de ética profissional do que ao "sintetismo" dos seus autores (e a maior parte dos trabalhos aceitos naquela época). Penso que a própria divisão entre analíticos e continentais, ou sintéticos ou seja o que for é mal estabelecida. Que existem tradições diferentes, é um fato, mas o que as distingue é ainda tratado de modo vago e obscuro por ambos os lados, por vezes muito subjetivamente. Se estamos falando, por exemplo, somente da diferença entre fazer filosofia e história da filosofia, a análise é de um modo, se estamos falando de características como rigor, clareza, estrutura do texto etc, as coisas mudam. Eu considero, por exemplo, que um nietzschieano que somente repete o que o mestre disse, não é analítico (embora alguém possa defender as mesmas posições do Nietzsche analiticamente), mas e o Nietzsche, era um filósofo analítico, portanto? O que distingue de fato as duas tradições?

rodrigo cid disse...

Prezado Stefanelli,

O primeiro problema citado por você, o dos embates de concepções básicas de trabalho, eu acredito que pode ser resolvido por meio da liberdade de trabalho. Se os professores tiverem liberdade para estudar e dar aulas do que querem e os alunos tiverem a liberdade de terem aulas do que querem, isso tornará neutra a força da distinção de concepções básicas.

A forma de conceber a linguagem e de utilizá-la na filosofia também é distinta. Mas, tal como conseguimos aprender e ensinar outras línguas, podemos cada um de nós fazer um esforço para compreender e ser compreendido melhor. O que, infelizmente, de fato acontece, é um grupo pensar o outro como ignorante. Não é impossível um trabalho em conjunto: nós todos falamos português, com apenas uma distinção de vocabulário. Embora a concepção de trabalho na filosofia seja diferente, um trabalho em conjunto poderia levar em conta ambas as perspectivas de trabalho (afinal, por exemplo, ser historicista não é incompatível com ser analisador de conceitos).

Por mais que tenhamos várias concepções que são pontos de partida inconciliáveis, podemos ter todas essas concepções na academia e deixar os alunos se dedicarem a uma ou a outra conforme a sua vontade.

Sobre o caso das imposturas intelectuais, não estamos tão aptos a julgar os filósofos de outras tradições, caso nos falte o conhecimento conceitual dessa tradição. Uma maior interação entre as diversas tradições seria proveitoso até para julgarmos o que é e o que não é uma impostura. Mesmo que Deleuze e outros sejam impostores, isso não faz de quem os estuda impostores também. Quem os estuda academicamente investiga algo aprovado por uma banca de doutores. Por mais que não concordemos com o método ou o tema de investigação, no mínimo devemos respeito.

A minha intenção é apenas que atentemos para a razoabilidade (rawlsiana). Minha proposta não é negar a distinção entre analíticos e não analíticos, mas aprender com ela e com membros de outras tradições, para podermos viver numa academia plural e unificada.

rodrigo cid disse...

Oi, Mayra.

A distinção entre uma concepção cognitivista e não-cognitivista da filosofia seria a distinção entre uma concepção que vê a filosofia com a função de obter conhecimento e outra que a vê com a função de, por exemplo, ser uma crítica politicamente emancipatória.

Mas o meu ponto não é tentar alcançar qual distinção é essa. Por mais que a distinção fosse nos termos que eu coloquei, ela ainda seria uma diferença de posições (no caso, metafilosóficas); e, portanto, não deveria gerar guerras - tal como a distinção entre a metafísica platônica e a aristotélica não gerou guerras entre Platão e Aristóteles.

E certamente eu concordo com você que há muitas tradições diferentes - e às vezes inconsistentes entre si - incluídas em cada um dos conceitos "umbrella": filosofia analítica e filosofia continental. Essa conceituação é um tanto artificial e discriminatória. Mas a uso na intenção de ser entendido quando falo da guerra que assola os nossos departamentos de filosofia.

Concordo que um estudante de Nietzsche que apenas o repete não é analítico, tal como também não é um que apenas repete o Russell. Repetir não é algo filosófico. Geralmente se repete para aprender. E, depois que se aprende, passa-se a fazer filosofia (embora, em outro método pedagógico, também possamos aprender fazendo filosofia). Mas como vamos fazer isso, isso dependerá de nossa concepção metafilosófica.

Lembremos que há pouco tempo surgiu no seio da filosofia um novo modo de trabalho chamado de "filosofia experimental". Embora muitos de nós consideramos na época que essa disciplina não era filosófica (e eu fui um deles), não tivemos que entrar em guerra com os filósofos experimentais. Eles atualmente estão unidos à filosofia, fazem seus trabalhos com pouco envolvimento com os chamados "filósofos da poltrona", embora cada lado forneça insights interessantes ao outro.

Não precisamos guerrear por sermos diferentes. Sejamos caridosos e aproveitemos da diferença.

Se pensamos que certos aspectos de outras tradições nos afastam da discussão com elas, podemos fazer um esforço conjunto para minimizar esses aspectos.

Bruno Coelho disse...

Inicialmente, seria importante destacar quais os pontos negativos de se manter a divisão. Em uma avaliação simples, profissionalmente, acredito que temos uma deficiência na qualidade das obras, pois uma disciplina internamente dividida, gera brigas desnecessárias, atrasando os avanços que poderiam ser implantados.

A médio prazo, vejo duas possibilidades. (1)Seguir o modelo presente em língua inglesa, onde se produz com qualidade, mas se deixa determinadas linhas em segundo plano.(2) Manter a influência já existente. Das duas opções, me alinho a primeira, mas admito para implementar isto, há que se obter um consenso mínimo de como as obras, tanto introdutórias, como de pesquisa, devem ser produzidas.

Certamente, há quem esteja insastifeito com a situação, afirmando que poderia estar bem melhor, caso fossemos mais profissionais. No entanto, é inegável que para quem se aproveita do modelo há existente, uma modificação, ainda que benéfica, representa risco.

rodrigo cid disse...

Prezado Bruno,

Concordo inteiramente com você sobre os aspectos negativos da divisão. Eu ainda adicionaria que há aspectos políticos negativos nessa divisão, tais como os que eu citei.

Agora, eu não sei se o modelo analítico é o que deve ser seguido. Há também a possibilidade de que a médio prazo as tradições consigam se misturar. Ou há ainda outra possibilidade, que é a das tradições continuarem fazendo seus trabalhos em suas áreas.

Um filósofo que conheço, muito perspicaz, me disse que costuma dividir a filosofia em três tipos: 1. historicista, 2. relaciona à cultura, 3. analítica. Se ele estiver certo, a opção da liberdade de pesquisa tornará mais fácil a relação entre as tradições. Não é necessário que um modelo substitua os outros. Todos podem conviver.

Pode ser que haja risco na modificação. Mas é mais arriscado ainda apostar na guerra. Se vai haver modificação na pedagogia da filosofia, essa modificação tem de ser feito com muito respeito a outras tradições.

Eu cito novamente o caso da filosofia experimental. Ela segue um método e uma técnica de ensino muito diferente da filosofia analítica de poltrona. Mas é aceitável que esteja dentro da filosofia pela maioria dos analíticos (mesmo que estes aleguem que os problemas interessantes da filosofia não podem ser resolvidos por experimentos).

Pesquise artigos filosóficos na internet

Loading