quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Resenha de Heil, J. From an Ontological Point of View; cap. 1-5. New York: Oxford University Press, 2003.

Introdução


Objetivo do autor: Desenvolver os elementos centrais de uma ontologia que tenha bastante poder teórico, que se adéqüe bem (fits well) às ciências empíricas e à plausibilidade comum, que consiga encaixar a consciência e os qualia num mundo material, e que esclareça, pelo menos em parte, a relação entre os predicados e as propriedades com os sortais (termos substantivos) e as substâncias. Além disso, ele pretende também indicar como a Teoria da Figuração (Picture Theory: PT), por vezes junta de uma certa concepção de análise filosófica, nos leva a enigmas ontológicos que poderiam ser evitados ao abandonarmos tal teoria.
Tese 01: A ontologia não é eliminável, pois as tentativas são auto-derrotantes.
Tese 02: Fazer ontologia é diferente de fazer análise filosófica.
Tese 03: Devemos abandonar PT por nos levar a enigmas e problemas, como: (a) a aceitação da existência de níveis de ser, (b) a fusão entre proposição e estado de coisas (descrição e o que é descrito), (c) a redução ontológica implicar redução analítica (conceitual), e (d) a aceitação da existência de objetos coincidindo espacialmente ou se sobrepondo.
Tese 04: A visão de que fazer verdade (truth making) deve ser visto como implicação lógica (entailment) está, em princípio, mal orientada e é potencialmente enganosa.
Tese 05: Propriedades intrínsecas de concreta são sempre uma dupla de qualidade e disposição (ou, como prefere o autor, qualidade e disposicionalidade).
Tese 06: Propriedades devem ser vistas como modos, e não como universais.


Observações:
  • Autor evita vocabulário técnico, pois teme que ele nos impeça de perceber teorias alternativas. Diz ele que a intensa discordância numa área pode ser formada pela falta de quadro conceitual adequado.
  • PT: família de doutrinas relacionadas frouxamente em que a idéia principal é que a natureza da realidade pode ser lida a partir das representações lingüísticas da realidade (como as da física, as da lógica etc., e não necessariamente as da nossa linguagem natural) e cujo corolário é “todo predicado com sentido corresponde a uma propriedade”.
  • Ter seriedade ontológica: atentar para as implicações ontológicas das teorias.
Motivações para a tese 01:
O mundo tem uma ontologia, queiramos ou não”. Penso que o autor afirma isso, pois pensa que há um modo como o mundo é. Ela indica que, mesmo que pensássemos que o mundo é dependente de teorias (por ser um constructo teórico), tese esta que é uma das mais fortes para rejeitarmos a ontologia, ainda poderíamos perguntar pelo objeto com relação ao qual as próprias teorias dependem. Ainda que a resposta fosse “outras teorias de ordem inferior ad infinitum”, o defensor de tal resposta teria que prover uma ontologia das teorias. A ontologia é inescapável.
A tese de que zumbis (entidades como nós, mas sem estados mentais) são concebíveis (se ser concebível implicar ser possível) depende da aceitação de certas teses ontológicas substantivas, a saber: (i) a tese de que a similaridade funcional garante a similaridade de qualidade (por exemplo, a organização funcional da consciência surgir a partir de sua composição física), (ii) a tese de que as propriedades não são os seus poderes causais (pois é preciso que as qualidades dos objetos possam variar independentemente dos seus poderes causais), (iii) a tese de que leis poderiam variar independentemente das propriedades, (iv) a tese de que há no mundo níveis de ser, e (v) a tese de que o que é concebível é possível. Zumbis são epistemicamente possíveis. Mas como é compatível com algo ser epistemicamente possível que ele seja também impossível metafisicamente, não podemos escapar da ontologia (pois teremos que falar sobre o mundo), mesmo na filosofia da mente.
Motivações para a tese 02:
Um motivo para distinguirmos ‘fazer ontologia’ de ‘fazer análise conceitual’ é que ‘fazer ontologia’ tem um elemento empírico que não é eliminável, já que ela tem de tornar inteligível questões – que antes nos deixavam perplexos – que surgem também no seio das ciências naturais e das humanidades.
Se tomamos as propriedades como independentes da mente, não pensamos ser adequado tentar descobrir propriedades analisando a linguagem. Estabelecer a natureza de um objeto que cai sob um conceito não deve ser feito analisando-se o conceito.
Há uma alternativa para a análise filosófica, a saber, tomar a sério a idéia de fazer verdade (truth making). [A idéia de truth making é: quando uma asserção sobre o mundo é verdadeira, algo com relação ao mundo a torna verdadeira] Além disso, pode haver respostas diferentes para as perguntas “um conceito é analisável em termos de outro(s)?” e “o que faz verdadeira uma certa frase?”
Podemos perceber, pela história da análise, que não conseguimos obter um caminho analítico do conceito ao fazedor de verdade (truth-maker) no que diz respeito a casos disputados.
Motivações para a tese 03:
(a) PT & Níveis de Ser – [Argumento da realizabilidade múltipla] (I) O predicado “está com dor” é aplicável a vários indivíduos de espécies diferentes, entre eles atuais e não atuais. (II) Não é o caso que todas as criaturas que têm dor possuam uma característica física em comum em virtude da qual o predicado se aplica. (III) Logo, ou a propriedade em causa não existe [tese anti-realista], ou a propriedade em causa não é física [tese realista]. (IV) Se quisermos manter o realismo, aceitando o corolário de PT, seremos obrigados a postular propriedades de ordens superiores que sejam dependentes, mas não redutíveis aos seus realizadores de ordens inferiores (que correspondem à maior parte dos predicados).
(b) PT, Proposições e Estados de Coisas – (I) “P” é verdade em virtude de P. (II) “Em virtude de” não é a implicação lógica (entailment), pois tal coisa só ocorre entre representações. (III) Então, dizemos que a proposição “P” implica (entail) a verdade de asserções de que P. (IV) Mas isso é problemático na medida em que ainda não sabemos o que são proposições e como elas podem fazer verdadeiras as asserções. (V) Se elas fazem verdadeiras as asserções (por exemplo, se proposições forem estados de coisas ou conjuntos de mundos possíveis), então elas perdem seu caráter de portadoras da verdade e passam a ser os fazedores de verdade, pois apenas entidades representacionais podem ter valor de verdade e, se elas são representacionais, elas não podem ser fazedores de verdade de representações. (VI) PT nos encoraja a identificar (ou confundir) o que é descrito com a descrição. (VII) Diz o autor que ao abandonarmos PT, abandonamos a razão pela qual postulamos proposições.
(c) PT, redução ontológica e redução conceitual – Se aceitamos que a cada predicação corresponde uma propriedade, do momento que conseguimos reduzir um conceito a outros, isso implicaria que conseguimos reduzir ontologicamente uma entidade a outra. Isso é problemático, por exemplo, na medida em que é possível que haja entidades primitivas que sejam conceitualmente analisáveis em outros termos e na medida em que seja possível uma redução ontológica da realidade, embora não uma redução conceitual (tal como parece ocorrer entre os eventos físicos e os mentais).
(d) PT e a aceitação de objetos sobrepostos – A aceitação de PT nos faz dizer que há 2 objetos sobrepostos numa estátua de bronze: a massa de bronze e a estátua, já que ambos estão no mesmo ponto espacial e são sujeitos de predicações diferentes. Rejeitando-se PT, podemos eliminar a crença em objetos sobrepostos.
Motivações para a tese 04:
O que motiva 04 é a idéia de que entailment é algo que ocorre entre representações, e não entre uma representação e algo que a faça verdadeira. Como um fazedor de verdade não pode ser ele mesmo uma representação, a relação de truth making não pode ser o entailment. A idéia de que truth making é entailment advém de uma confluência que a aceitação de PT nos faz aceitar entre proposição e estado de coisas.
Motivações para a tese 05:
As propriedades tomadas como qualidades e disposicionalidades ao mesmo tempo são a chave para entendermos como encaixar a consciência no mundo material. Por exemplo, os qualia se tornam mais que apêndices de estados materiais, tornam-se propriedades intrínsecas destes. Ele fala que isso não nos comprometeria com bare particulars, pois as propriedades não são vistas como partes que compõem o objeto; só quem pensa que o objeto se junta às propriedades para formar uma entidade estaria comprometido com bare particulars.
Motivações para a tese 06:
Devemos entender as propriedades intrínsecas de concreta como modos particulares que os objetos são, e os objetos como algo que é de vários modos particulares [o que me parece patentemente circular]. A vantagem disso é que daria conta de todos os papéis atribuídos aos universais e teria um adicional com relação a estes. Os universais são utilizados para explicar a semelhança e a identidade qualitativa por meio da mesmidade. No entanto, diz o autor, uma teoria dos universais tem de postular similaridades brutas imperfeitas entre os universais para dar conta de casos de similaridade imperfeita; o que fere a motivação da própria teoria (ao deixar uma similaridade sem explicação). Assim, os modos particulares, como não postulam universais e tomam a semelhança ou similaridade (perfeita e imperfeita) como primitiva, são mais vantajosos que os universais.
Outro problema dos universais é que, em sua versão platônica, a relação de instanciação é um mistério, e em sua versão in rebus, não somos aptos a entender o que significa um universal estar totalmente presente em cada uma de suas instâncias.

Capítulo 2 – Níveis de Realidade

Objetivo do autor: Ele intenta neste capítulo nos mostrar como funcionam, de modo geral, as teorias que dividem a realidade em níveis e quais são as dificuldades aparentes que tais teorias sofrem. Ainda, no final do capítulo, o autor nos indica sua intenção de examinar um certo pensamento e de defender duas teses nos três capítulos que a este se seguem.
A Imagem dos Níveis: Defende uma realidade hierárquica (dividida em níveis), havendo objetos, propriedades, estados de coisas etc. de níveis inferiores e superiores. É possível diferir quanto a se há ou não um nível mais alto ou um nível mais baixo. Geralmente pensa-se que os níveis superiores são dependentes para existir dos níveis inferiores, embora não sejam redutíveis aos inferiores (ou seja, são autônomos, num certo sentido – a negação da autonomia seria considerada um reducionismo científico grosseiro). A idéia fundamental dos defensores dos níveis aqui, pensa o autor, é que eles vêem a realidade compostas de objetos que têm certas propriedades regulamentadas por leis, que, consequentemente, regulamentam os comportamentos dos objetos. Existiriam leis para cada nível (leis horizontais) e leis para regulamentar as relações entre os níveis (leis verticais, ou leis ponte).
Dificuldades Aparentes: Como entidades de nível superior poderiam causar algo se todo o nível inferior já dá conta suficientemente da causalidade (causal closure of the physical)? Mesmo que digamos que a causalidade ocorre paralelamente em cada nível, ainda teremos que explicar como um efeito de nível superior poderia ocorrer sem incluir um efeito de nível inferior. As únicas soluções que visualizamos aqui é ou repudiar o fechamento causal (talvez defendendo que há ocorrências de ordem superior que causam ocorrências de ordem de inferior e que não podem ser explicadas apenas por mecanismos de ordem inferior), ou aceitar o epifenomenalismo, tese em que se defende que a causalidade em níveis superiores é apenas aparente e que existe o fechamento causal do físico.
Objetivo para os três capítulos posteriores: Examinar o pensamento de que devemos escolher entre o comprometimento com entidades de níveis superiores (e a aceitação do epifenomenalismo ou a rejeição do fechamento causal do físico), com o reducionismo ou com o eliminativismo. O autor quer reorganizar as questões e propor (e desenvolver) duas teses independentes, a saber, a de que a idéia de que ‘o que é percebido precisa de níveis de realidade’ advém da aceitação da teoria da figuração.

Capítulo 3 – Predicados e Propriedades

Objetivo do autor: Ele intenta mostrar que a aceitação do corolário de PT (a saber, de (ϕ)) nos faz chegar a problemas evitáveis e à tese de que a realidade é composta de níveis, dado (ϕ) estabelecer uma relação íntima entre predicados e propriedades.
PT: A linguagem figura a realidade de modo que podemos ler características da realidade a partir do modo como representamos a realidade.
(ϕ): “Quando um predicado é verdadeiramente aplicado a um objeto, ele assim o faz em virtude de designar uma propriedade possuída pelo objeto e por todo objeto ao qual o predicado é aplicado verdadeiramente” (p. 26).
PT & Realismo/Anti-Realismo: (a) Realista sobre F – predicados F designam propriedades autênticas possuídas por objetos; (b) Anti-Realista sobre F – (b1) O ficcionalista pensa que predicados F designam propriedades não-autênticas (ex. não existentes) possuídas por objetos; e (b2) o não-factualista pensa que uma asserção declarativa com o predicado F não expressa uma condição de verdade.
Propriedades genuínas: seriam distintas das propriedades humianas (projeções) e das propriedades Cambridge (que não fazem diferença para o objeto), porém trariam alguma contribuição significativa para os poderes ou disposicionalidades dos objetos.
Todo predicado com significado designa uma propriedade? Se aceitarmos PT e (ϕ), diremos que sim e que há uma distinção entre propriedades causalmente operantes e as não causalmente operantes (por exemplo, o fato de os predicados projetáveis – predicados que designam propriedades causalmente operantes – poderem se encontrar em frases de generalização causal (lawlike statements)). O problema aqui seria explicar como propriedades dependentes do ambiente externo (propriedades relacionais) – como crenças e outros estados mentais – podem afetar os poderes ou disposicionalidades dos seus possuidores, tendo em vista a indiscernibilidade entre os aspectos não-relacionais de objetos análogos em duas Terras Gêmeas, ou seja, quer-se saber como compatibilizar a intuição de que as propriedades genuínas têm relevância causal com a intuição de que algumas propriedades que satisfazem predicados projetáveis não têm relevância causal (dado o seu caráter relacional). As soluções geralmente utilizadas aqui são: (A) eliminar a conversa sobre causalidade e passar a falar sobre “explicação” (estados mentais são explicativos e sustentam contrafactuais – de modo que t não faria P se não acreditasse que S), (B.1) negar que propriedades mentais têm relevância causal, ou (B.2) negar que predicados mentais designam propriedades. B.2 é uma forma de eliminativismo (ficcionalismo) ou de niilismo mental.
A aceitação de ϕ implica que a propriedade [genuína (caso sejamos realistas)] em virtude da qual um predicado se aplica a vários objetos é a mesma (ou são exatamente semelhantes, se estivermos defendendo uma teoria dos tropos ou modos). No entanto, há muitas coisas vermelhas, cujas diferentes matizes as tornam vermelhas, e que não possuem nenhuma propriedade genuína em comum em virtude da qual todas são vermelhas. Isso é porque os (...) “predicados se aplicam aos objetos em virtude de propriedades por eles possuídas, mas poucos designam propriedades compartilhadas por todo objeto ao qual o predicado se aplica verdadeiramente” (p. 28). A aceitação de PT borra ou obscurece essa distinção. Há propriedades – como “ter dor” – que podem ser realizadas em vários sistemas físicos de várias espécies de seres diferentes, o que indicaria que não há propriedade física comum entre os vários tipos de sistemas físicos que têm a propriedade de ter dor. Uma propriedade de tal tipo é chamada de “multiplamente realizável”, e uma propriedade F é multiplamente realizável sse é possuída por b em virtude de b possuir alguma outra propriedade G, que é a realizadora de F, e F é possuída por d em virtude de alguma outra propriedade H, e H é diferente de G. A múltipla realizabilidade da dor atesta contra a identidade de tipo entre a dor e algum certo tipo de sistema físico. Se houver propriedades de nível superior e inferior, (ϕ) poderá ser satisfeito. Mas, se continuarmos aplicando esse raciocínio, chegamos a pensar que, por exemplo, há propriedades categóricas que são de ordem inferior e são as realizadoras das disposicionalidades – estas seriam ontologicamente dependentes, porém irredutíveis, àquelas.
Motivações por uma realidade hierárquica: Afasta sentimentos reducionistas e abre espaço para muitas abordagens diferentes para entendermos o mundo (como a intencional e a física).
Objetivos a serem tratadas no próximo capítulo:
  • Indicar os problemas do comprometimento ontológico com níveis hierárquicos.
  • Defender uma concepção de realidade sem níveis e sem aceitar como verdadeiras certas teses atribuídas pelos defensores dos níveis aos seus objetores.
  • Indicar melhor como a aceitação de PT motiva a idéia de que a realidade é hierárquica.

Capítulo 4 – Dificuldades para a Concepção dos Níveis

Anti-reducionismo (A-R): a tese de que a realidade não pode ser reduzida a alguma parte mais fundamental e nem pode ser reduzida a uma super física.
Motivações para A-R: (1) É impraticável reduzir algumas explicações sobre a sociedade a explicações sobre partículas fundamentais. (2) Tal redução nos desumanizaria, pois nos removeria as perspectivas que precisamos para entender o nosso local no mundo.
O anti-reducionismo implica que a realidade é hierárquica, se aceitarmos PT, pois este nos faz aceitar que cada predicado [projetável] verdadeiro de um objeto refere uma propriedade [genuína]. Se abandonarmos (ϕ), não precisamos aceitar que a cada predicado corresponde uma propriedade.
Problema da relevância causal de propriedades de ordem superior: se propriedades de ordem superior têm seus realizadores de ordem inferior, os seus realizadores esgotam toda a relevância causal. De modo que alguém que defenda níveis de realidade, terá que prover uma abordagem sobre como as propriedades de nível superior podem ter relevância causal no que diz respeito ao nosso mundo.
Resposta do defensor da realidade hierárquica (ex. Fodor): a relevância causal das propriedades de nível superior se estabelece pelo fato de essas propriedades estarem presentes nas leis causais. E há uma diferença entre leis sobre propriedades de nível inferior e de nível superior: as de nível inferior (como as da física) são leis sem exceções (mesmo as probabilísticas), enquanto as de nível superior são leis ceteris paribus. As leis de nível superior são irredutíveis a e não deriváveis a partir das leis de nível inferior.
Problemas para o defensor: (i) faltar uma explicação para aparente sobredeterminação causal e (ii) ir contra a tese do fechamento causal do mundo físico. Sobre i, o defensor da hierarquia não consegue explicar como a causalidade de ordem superior difere da de ordem inferior, pois se a propriedade física H1 causa a propriedade física H2 e também a propriedade não física (de ordem superior) F1, e se H2 causa a propriedade não física F2, não há como F1 causar F2 (pois F2 estaria sobredeterminado). Mesmo que digamos que H1 causa H2 e F1, e que F1, por sua vez, causa H2, teremos o problema, então, da sobredeterminação de H2. E, se dissermos que as propriedades de ordem superior causam algo nas propriedades de ordem inferior, teremos de aceitar ii, pois estaria pressupondo que algo de ordem superior ao nível físico estaria causando algo físico – o que seria negar o fechamento causal do mundo físico. E o problema disso seria que a própria concepção de que há níveis de realidade pressupõe o fechamento causal do mundo físico. Isso é evidenciado pelo fato de as leis das propriedades de níveis superiores serem ceteris paribus, enquanto as de nível inferior (o mais inferior) não precisam da restrição ceteris paribus. E isso é assim, pois toda propriedade de nível superior está sujeita a influências de propriedades de níveis inferiores, enquanto as propriedades do nível mais inferior que há não possuem ordens inferiores para haver propriedades de outro nível as influenciando.
Leis: Elas são tomadas pelo autor como regularidades verdadeiras presumidamente sem exceções. Um evento particular causar outro evento particular é uma instância de alguma (ou mais de uma) lei geral. Exemplo de lei sem exceção: Sempre que um evento do tipo c ocorrer, um evento do tipo d se segue. Exemplo de lei ceteris paribus: Sempre que um evento do tipo c ocorrer, em condições C, um evento do tipo d se segue.
Para não ferir o fechamento causal do físico, o defensor da realidade hierárquica, deve defender algo como o paralelismo entre os níveis e a não interferência de um no outro. O autor não provê argumentos significativos contra o paralelismo, a não ser a inflação de ontologia. E, por isso, o autor tentará no livro construir uma ontologia que não postule bagagens desnecessárias, tomando as leis como algo que se fundamenta nos poderes e disposições das coisas. O defensor do paralelismo tem um sério problema a sua frente: explicar como é possível que ocorram co-variâncias regulares entre as ocorrências nos diferentes níveis. Uma explicação comum, diz o autor, é dizer que os níveis superiores sobrevêm ao nível inferior, e tentar definir a sobreveniência assim:
(S): Necessariamente, se algo, digamos x, tem α em A, então há uma propriedade β em B, e necessariamente, se algum x tem β, então x tem α.” (p. 37)
Isso está de acordo com a idéia de que há uma relação de dependência entre os níveis (embora não de redutibilidade). O problema dessa definição de sobreveniência é que não nos explica por que (S) é verdadeira. Exemplos de motivos possíveis: (a) um é causa do outro, (b) um é formado mereologicamente e totalmente do outro, (c) ambos têm uma causa comum, (d) um realiza o outro.
O defensor da hierarquia escolhe d, mas deve também prover qual o truthmaker de (S), para nos explicar o que é a relação de realização. Uma teoria desse tipo seria exemplificada pela teoria de David Chalmers, em que defende os níveis de realidade, e diz que há leis verticais que conectam os níveis e que a natureza dessa conexão é inexplicável (pp. 37-38). O autor pensa que essa posição tem grandes embaraços para lidar, como a multiplicidade de leis que tem de haver para dar conta das propriedades multiplamente realizáveis, leis estas muito diferentes das leis que utilizamos nas ciências naturais – embora nos diga que abordará tais problemas apenas no capítulo 20.
Argumento” anti-reducionista: a preocupação com a conexão entre os níveis é apenas uma preocupação filosófica não compartilhada pelas ciências – dado que suas práticas não envolvem a redutibilidade – e que, se não podemos prover uma abordagem da independência das áreas das ciências, então devemos apenas aceitá-la (dado que a explicação deve parar em algum momento).
Esse argumento perde o ponto, diz o autor. Pois o problema não é sobre a existência de objetos de ordem superior ou sobre a legitimidade das ciências, mas antes sobre se a aceitação da existência das coisas que tomamos como de nível superior implica que devemos nos comprometer com os níveis de ser. Tal comprometimento parece advir, segundo o autor, de um mau entendimento de quais são as demandas do realismo. E o maior problema de se comprometer com tal coisa é que não se consegue obter uma explicação independente para a relação entre os níveis – coisa que não ocorre com a teoria não hierárquica do autor, segundo ele, pois nela não é preciso postular uma relação sui generis entre os níveis.

Capítulo 5 – Abandonando os níveis / Concepção: primeiro passo (p. 40)

O perigo da tese da realidade hierárquica (RH) é que pode acabar transformando os níveis superiores em epifenômenos – o que reduziria o apelo da teoria com relação às pessoas que pensam as propriedades como suas contribuições causais. Para tentar sanar esse problema, o defensor da tese RH pode tentar identificar as propriedades de nível superior com disjunções de propriedades de nível inferior. Contudo, o problema disso é que não poderíamos aplicar a propriedade para novos casos (tomando tal propriedade como multiplamente realizável) fora das disjunções.
A alternativa do autor é rejeitar RH e corolário de PT, ϕ, e dizer que os predicados projetáveis se aplicam aos indivíduos de acordo com uma similaridade não perfeita, e não necessariamente por causa de uma propriedade comum. E isso daria conta das generalizações com a forma de lei que nos utilizamos nas ciências.
Uma idéia de Jaegwon Kim, que o autor acha que devemos estender para todas as propriedades supostamente de nível superior, é fazer uma análise de certas propriedades – as propriedades funcionais – que as conectem com os seus vários realizadores físicos.
Podemos ter duas atitudes para com relação a como os nossos conceitos se relacionam com o mundo: (i) tomar o conceito com um significado fixo e verificar as coisas caem ou não sob o conceito, ou (ii) tomar as situações em que utilizamos certo conceito e ver quais são as coisas que caem sob o conceito.
PT se utiliza de i, dado pensar a redução conceitual como se fosse uma redução ontológica, ao dizer que se algo não pode ser analisado em termos físicos, deve ser algo mais que apenas físico ou deve não existir. Segundo o autor, essa posição toma de modo errôneo as condições de aplicação dos nossos conceitos. Ele prefere ii, pois pensa que, por exemplo, o fato de não termos conceitos para cores que não conhecemos mostra que as condições de aplicação de um termo se conectam com seu uso e com a similaridade não perfeita dos objetos. Isso parece fazer, penso eu, que um conceito que não tenha objetos que caiam sob ele não exista.
O defensor de PT poderia argumentar que um predicado corresponde a uma classe de propriedades em que qualquer uma delas é suficiente para a correta aplicação do conceito. Mas, segundo o autor, isso também não funciona, pois muitos predicados se aplicam de acordo com uma similaridade não perfeita.
Se rejeitarmos PT, poderemos falar de predicados de nível superior sem implicar propriedades de nível superior. E, assim, poderíamos falar que H1 causa H2, e que F1 causa F2, ao pensarmos que “F1 causando F2” tem como truthmaker H1 causando H2. Isso não é uma teoria da identidade (nem de token e nem de tipo), segundo o autor. Para ele, isso não desemboca no epifenomenalismo, se não pensarmos que os predicados de nível superior representam propriedades para além das propriedades dos seus truthmakers.
Termos sortais (predicados como ‘é um cavalo’): designam tipos de objetos individuais; apreendem objetos contáveis por meio determinadas condições de identidade e persistência.
Predicados como ‘é vermelho’: não envolvem ser contável e nem condições de identidade. A identidade de duas instâncias do vermelho não podem ser separadas da identidade de seus portadores.
Predicado e Propriedade nos sortais: (a) ou os sortais não diferem dos outros tipos de predicados e, como rejeitamos ϕ, não precisaria haver uma propriedade ou substância única e comum a todos os portadores de tal predicado, dado pode haver categorização por semelhança não perfeita; (b) ou aplicamos a lei de Leibniz aos sortais e descobrimos que um predicado sortal não é idêntico ao seu portador (como ‘ter a forma de estátua” que o bronze porta – ou o inverso), o que implicaria a existência de dois objetos distintos e coincidentes (o bronze e a estátua); (c) ou tentamos reduzir analiticamente uma coisa a outra (o que parece difícil, dada a incomensurabilidade de condições de identidade entre estátuas e pedaços de bronze); (d) ou aceitamos o eliminativismo, que afirma que há apenas pedaços de bronze com a forma de estátuas, mas não estátuas.
A solução do autor, embora pouco desenvolvida (ele pretende desenvolvê-la no capítulo 16), é dizer que podemos falar que ‘ser uma estátua’ é aplicável a certos objetos em virtude de certas propriedades ou relações, que podem ser imperfeitamente semelhantes, que tais objetos têm. “Realismo com relação a estátuas (...) não requer que estátuas sejam entidades de nível superior e nem que o que dizemos sobre estátuas esteja analiticamente ligado aos truthmakers das nossas sentenças”. (pp. 48-49)
O ponto do autor é que não precisamos crer numa RH para sermos realistas com relação às propriedades e nem para dar conta dos predicados projetáveis irredutíveis utilizados nas ciências; embora, mesmo assim, ainda possamos utilizar níveis para falar sobre descrições e sobre explicações (mas não níveis de ser).
Aqui termina a resenha do quinto capítulo. O nosso objetivo foi apenas prover uma indicação do caminho seguido por Heil para desenvolver sua crítica à teoria da figuração; mas em seu livro há outras teorias importantes, como a sua teoria dos modos. Se você quiser conhecê-la, o livro vale a leitura.

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