quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Entrevista com Guido Imaguire

Entrevistador: Rodrigo Cid


Blog IF: Oi, Dr. Guido. O senhor pode nos contar um pouquinho sobre o seu histórico na Filosofia?

Guido: Tive disciplinas de filosofia no colégio - era um colégio jesuíta, que prezava pela formação humana. As questões abstratas desde sempre me interessaram, e logo procurei livros de filosofia na biblioteca. Mas uma procura bibliográfica cega em filosofia não é nada profícua. Comecei a estudar filosofia seriamente em Porto Alegre, na UFRGS, simultaneamente à graduação em teologia. Mas o curso era muito caótico, e decidi reiniciar os estudos na Alemanha, em Munique. Lá fiz minha graduação na Hochschule fur Philosophie de Munique. O estudo era muito estruturado, mas hoje percebo que era excessivamente histórico. No final, percebi claramente que dos vários paradigmas na filosofia, o mais adequado para o tipo de atividade intelectual que eu perseguia era o analítico. Fiz assim meu "Magister" (que equivale aproximadamente ao mestrado no Brasil) sobre o Tractatus de Wittgenstein. A ideia básica era a superação das categorias ontológicas básicas via teoria semântica (até hoje acho que estava certo na minha hipótese). Ainda em Munique, mas na Ludwig-Maximilians Universität fiz, então, meu doutoramento. O tema era o realismo proposicional de Russell, aplicado à metafísica e à filosofia da matemática. Ali, ao estudar a teoria das descrições definidas de Russell, percebi o poder da análise lógica na solução de problemas da metafísica. Essa teoria é minha inspiração básica a todo meu fazer filosófico posterior. Voltando ao Brasil, comecei a me dedicar mais à filosofia da matemática e filosofia da linguagem. Mas os problemas que ali encontrei me remeteram, novamente, à metafísica. Nominalismo, Platonismo, categorias ontológicas são algumas das questões que me ocupam no momento.

Blog IF: Sabemos que o senhor é um dos poucos filósofos brasileiros envolvidos diretamente com a metafísica. O senhor pode dizer aos nossos leitores o que é a metafísica?

Guido: Existem pelos menos duas concepções concorrentes a respeito do que é metafísica. A primeira, de origem Aristotélica, entende a metafísica como um estudo das estruturas mais gerais da realidade como um todo. Generalidade e totalidade são, assim, os conceitos fundamentais. A metafísica se distingue das outras ciências, ditas particulares, porque ela não seleciona um domínio particular da realidade. Enquanto a matemática estuda apenas estruturas formais, a físicas os seres materiais, a biologia os organismos vivos, a metafísica estuda tudo o que há, não deixando nada de fora do seu escopo. Aliás, até mesmo entidades consideradas não reais, como objetos meramente possíveis, ficções e, às vezes, mesmo objetos impossíveis constituem seu objeto de estudo. Totalidade significa, assim, abrangência máxima. A generalidade da metafísica diz respeito ao modo como essa totalidade é investigada. As entidades que constituem esse super-domínio não são investigadas numa perspectiva regional. Em outras palavras, um mero agrupamento da matemática, física, biologia e todas as demais ciências particulares (que pode incluir, claro, a teologia) não nos forneceria um teoria metafísica da totalidade, embora seja, claro, uma teoria totalmente abrangente. Essa teoria diria algo sobre insetos, algo sobre números primos e algo sobre Deus – mas ela não diria nada sobre como todas essas coisas estão relacionadas. E exatamente isto se espera de uma teoria metafísica. Uma analogia pode ser elucidativa: medicina, psicologia e sociologia são ciências que têm um mesmo objeto de investigação – o ser humano. Mas elas se distinguem pelas perspectivas como estudam este objeto. A metafísica não estuda a realidade sob um ponto de vista particular, mas sob o ponto de vista mais genérico possível. Esse é o sentido da fórmula Aristotélica: a metafísica é o estudo do Ser enquanto Ser. A metafísica estuda o Ser (toda a realidade) sob o ponto de vista mais genérico, como Ser (e não como coisa física, psicológica, etc.). A segunda concepção, de origem Platônica, entende a metafísica como a disciplina que pretende descobrir a estrutura da realidade por detrás de toda a aparência. A dualidade Ser versus Aparência está no centro dessa concepção. Pelo menos, essa parece ser a lição central da famosa alegoria da caverna. Nossos sentidos nos fornecem um conhecimento primeiro e imediato da realidade. Mas esse conhecimento é falho, superficial. O verdadeiro conhecimento, aquele que o filósofo deve almejar, só pode ser alcançado através de um processo de superação da aparência. Somente cumprimos essa tarefa epistêmica quando desenvolvemos a habilidade da reflexão racional, ultrapassamos os recursos empíricos, e, assim, percebemos a verdadeira estrutura do ser. Enquanto a primeira concepção era mais ontológica, essa segunda tem um cunho fortemente epistêmico. As duas concepções podem, claro, convergir. Há um certo consenso na metafísica que conhecimento parcial é conhecimento de aparência, e, assim, somente o conhecimento mais genérico consegue superar a aparência. Eu, sem duvida alguma, pauto minha pesquisa na  primeira concepção, Aristotélica. Mas reconheço, claro, a importância das questões do segundo tipo - elas são inevitáveis. 

Blog IF: O que é o nominalismo, qual a forma de nominalismo que o senhor defende e quais as suas motivações para tal?

Guido: Nominalismo, mais do que uma teoria, é uma atitude filosófica. Eu definiria nominalismo negativamente: qualquer um que rejeita Platonismo é um nominalista. Basicamente, o nominalista rejeita entidades abstratas e universais. Os motivos são vários, também o grau de radicalidade varia muito. Eu tenho defendido ultimamente o chamado "nominalismo de avestruz" ou "nominalismo austero". Basicamente, essa forma de nominalismo rejeita universais porque considera um fato do tipo "Fa" (como Sócrates é mortal) um fato básico, sem possibilidade de explanação. Nisso, ele se contrapõe não somente ao Platonismo, mas também às outras formas de nominalismo que pretendem explanar esse fato em termos de classes, relação de similaridade, etc. 

Blog IF: Vimos que o senhor tem um capítulo num livro sobre Deus. O senhor se interessa por filosofia da religião? E tem alguma posição quanto à existência de Deus ou à racionalidade da crença em Deus?

Guido: Como eu estudei filosofia da religião, Deus sempre foi um problema central para mim. Mas nunca trabalhei diretamente o problema da sua existência. Na verdade, a teodiceia, o problema da justificação da existência do mal no mundo face à pretensa bondade e onipotência divina, me interessou mais desde quando estudei Leibniz. Para mim é claro que a crença é racional - no sentido que ela não é irracional. Mas a plausibilidade é muito reduzida, já que a teodiceia não tem nem aproximativamente uma resposta razoável. 

Blog IF: Quais as suas expectativas para o futuro da Filosofia no Brasil?

Guido: Eu sou bastante otimista com o futuro da filosofia no Brasil, em particular no caso da filosofia analítica. O progresso filosófico é sempre algo lento, gradual, e somente a paciente sucessão de gerações pode trazer um amadurecimento definitivo. Claro, isso faz parte da natureza do conhecimento filosófico. Descobrir que existem verdades necessárias a posteriori, p.ex. não é noticia de jornal, e uma geração inteira precisa amadurecer e assentar teses e argumentos filosóficos. Mas nos últimos dez anos já se pode perceber um amadurecimento da pesquisa nacional. Muitos fatores contribuem para isso. Em primeiro lugar, acho que são inegáveis os esforços dos professores das gerações anteriores e atual para dar a melhor formação possível aos alunos. Muitos desses professores se formaram em grandes centros mundiais e trouxeram essa experiência para o Brasil. Isso foi possível graças à generosa oferta de bolsas de estudo de instituições brasileiras, que continua apoiando muitos estudantes e docentes. Em segundo lugar, devido à crise de oferta de empregos nas universidades européias (muito anterior à crise econômica atual), muitos investigadores europeus de ótimo nível tem se estabelecido no Brasil, reforçando o quando discente de modo significativo. Também temos promovido em nossas universidades muitos eventos de alto nível, com palestrantes de primeira linha. Finalmente, eu destacaria a democratização da ciência global como outro importante fator de desenvolvimento. Tenho aqui em mente o fácil acesso a revistas internacionais pela internet. Ainda me surpreendo quando meus orientandos, pesquisando um tema muito pontual, conseguem os artigos mais recentes sobre o tema publicados em revistas de todo o mundo. Isso não era imaginável há dez anos atrás. Tudo isso se converte, concretamente, em dissertações de mestrado e teses de doutoramento com excelente nível. Mas algumas coisas ainda precisam se consolidar. O pesquisador brasileiro de filosofia ainda é muito tradicional, quase arcaico, preferindo livros a revistas. Livros, em geral, apresentam sistemas, revistas são o espaço para discussão. O estudante brasileiro mediano lê mais livros que revistas. Além disso, ele não discute nas revistas, não lê o que é produzido aqui e não cria, assim, uma cultura de discussão. Mas também isso é algo que, aos poucos, já vem mudando significativamente. 

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