quarta-feira, 18 de julho de 2012

"É a Forma Substancial o Princípio de Individuação das Coisas Materiais?", de Suárez

Resenhista: Rodrigo Cid


  • Cid, Rodrigo (2012). Resenha de: Suárez. "Seção IV da Disputa Metafísica V: Individual Unity and Its Principle"; trad. Jorge Gracia. Wisconsin: Marquette University Press, 1982.

PI: Princípio de Individuação das Coisas Materiais

Teses: A forma sozinha não é o PI (tem que ser junto com a matéria), mas ela é o principal contribuinte para o PI, já que por vezes ela pode ser suficiente para denominar o mesmo indivíduo, enquanto a matéria não pode.

Posição Pró: A forma substancial é o PI

Justificativas:

(I) Autoridades.
(II) Aristóteles: a forma constitui o PI da substância.
(III) Tomás: as coisas têm ser e individuação a partir do mesmo objeto (sentido abrangente).
(IV) Argumentos pela forma como principal contribuinte para o PI

Argumentos a favor de II:
  1. O PI é intrínseco.
  2. O que é intrínseco constitui a substância.
  3. O que é intrínseco é mais próprio à substância.
  4. Logo, PI deve ser substancial.
  1. Esta substância é um ser por si mesmo e substancial.
  2. Acidentes não constituem substâncias ou esta substância.
  3. Logo, PI não pode ser acidental.
  1. Esta matéria poderia estar em outras formas.
  2. Se esta matéria estivesse em outra forma, ela seria outro indivíduo.
  3. Logo, esta matéria não é mais própria a este indivíduo [do que esta forma].
  4. Logo, PI não pode ser a matéria.
  1. Se esta forma estivesse em outra matéria, ela seria o mesmo indivíduo.
  2. Logo, esta forma é mais própria a este indivíduo [do que esta matéria].
  3. Logo, o PI é a forma.
Argumentos a favor de III:
  1. Tudo que tem unidade tem forma.
  2. Logo, a forma é o princípio de unidade.
  3. Tal como diz 14, o princípio de individuação de entidades é a forma.
  4. Se o PI é a forma, então os princípio de unidade e de entidade são o mesmo.
  5. Logo, os princípio de unidade e de entidade são o mesmo, a saber, a forma.
  1. Se algo é uma entidade, então é uno.
  2. Logo, entidade implica unidade.
  3. O ser de todas as coisas advém da forma. [reformulação de 15]
  4. Logo, a unidade de cada entidade é implicada pela forma.
  1. A unidade não adiciona à entidade nada de positivo.
  2. A unidade só adiciona uma propriedade negativa.
  3. O que for o PI tem de adicionar algo positivo à entidade.
  4. Só adiciona algo positivo à entidade o princípio da própria entidade.
  5. Logo, não pode haver outro PI que não o princípio da própria entidade.
Argumentos a favor de IV:

Argumento A (Suárez)
  1. Se uma matéria que é numericamente a mesma fosse aniquilada, ela seria restaurada ao conectarmos outra matéria com a mesma forma. 
  2. A unidade de algo que muda continuamente (como um rio) é preservada ainda que haja mudanças na sua forma (embora tal coisa não tenha unidade verdadeira).
  3. Matéria e forma são causas intrínsecas da unidade individual nas substâncias materiais.
  4. A matéria de algo, se tomada sem a forma, é indistinta de outras matérias.
  5. A forma de algo pode ser tomada sem a matéria.
  6. Logo, a matéria é potencial e indiferente, e se une a forma para se tornar a substância.
  7. Logo, a forma é o principal contribuinte para a individuação.
  8. Logo, a forma pode ser pensada formalmente como o PI.
Argumento B (Aristóteles):
  1. O princípio que constitui uma coisa é o mesmo princípio pelo qual tal coisa é distinta de outras.
  2. Logo, a mesma forma que individua uma coisa a distingue de outras.
  3. O ato é o que distingue.
  4. Logo, a forma é o ato da potência que é a matéria.
  5. Logo é a forma que completa a noção de indivíduo.
Argumento C (Argumento Linguístico e Epistêmico de Suárez):
  1. Falamos como se houvesse uma unidade em Pedro que persiste às suas mudanças corporais.
  2. Pedro não é composto das mesmas partes que o compunham no passado.
  3. Logo, a unidade de Pedro só pode vir da alma de Pedro (que não muda).
  4. Se uma alma numericamente distinta fosse unida a um corpo com a mesma matéria, não pensaríamos que o resultado seria estritamente o mesmo indivíduo, mas um distinto.
  5. Logo, a forma de um ser humano é a sua alma.
  6. Logo, 45 é um sinal de que o PI é tomado primariamente como a forma.

Posição Contra: Não é o caso que a forma substancial seja PI

(I) Argumento a favor da matéria contribuindo para o PI:
(II) Argumentos a favor de somente a matéria contribuindo para o PI:

Argumento a favor de I:
  1. A matéria é um princípio intrínseco da substância.
  2. Portanto, ela tem de contribui para o PI, seja sozinha ou junto com a forma.
Objeção de Durandus:
  1. Se outra matéria se juntar à numericamente mesma forma, a matéria torna-se numericamente a mesma.
  2. Logo, é a forma que tem o poder de individuar os compostos e, inclusive, a matéria.
Resposta a Durandus (Posição de Suárez):
  1. A matéria que estava no que foi corrompido se mantém naquilo que foi gerado.
  2. Se 52 não fosse o caso, o sujeito no qual a geração ocorre não seria numericamente o mesmo.
  3. O sujeito no qual a geração ocorre é numericamente o mesmo.
  4. Logo, 52 é o caso.
Outra Razão por 52:
  1. É impossível que a coisa que antes era numericamente distinta de outra torne-se depois da corrupção numericamente a mesma que a outra coisa e que a coisa que era numericamente una torne-se distinta em seu todo.
  2. Portanto, a matéria que é numericamente una sob a forma de comida não pode se tornar numericamente outra somente pelo fato de estar dentro da forma da alma.
  3. As matérias de Pedro e Paulo são numericamente distintas.
  4. Logo, essas matérias não poderão se tornar numericamente unas, ainda que as matérias de ambos tomem a forma de apenas um deles.
Argumentos a favor de II:

(II.A)


Argumento do Ser Específico (aplicado à forma)
  1. A forma confere ser específico.
  2. Se a forma conferisse necessariamente ser numérico e individual ao que tem forma, então tudo que tem forma seria um isto.
  3. Nem tudo que tem forma é um isto.
  4. Logo, a forma não confere necessariamente ser numérico e individual àquilo que tem forma.
  5. Logo, a forma só confere ser numérico e individual ao que é um isto.
  6. Logo, aquilo que faz a forma ser um isto que é o PI.
Continuação do argumento do ser especifico para estabelecer a matéria como PI
  1. Se a forma não é o que faz algo ser um isto, só sobra a matéria para fazer a forma ser um isto.
  2. A forma não é o que faz algo ser um isto.
  3. Logo, só sobra a matéria para fazer a forma ser um isto.
  4. Logo, a forma é um isto em virtude da matéria.
  5. Logo, a matéria é o PI.
(II.B)
  1. A forma é um isto em relação com a matéria, e não o inverso.
  2. Logo, a matéria é o PI da forma.
  3. Portanto, a matéria é o PI de todo o composto.
(II.C)
  1. Formas são numericamente multiplicadas na medida em que são multiplicadas em diversas matérias.
  2. Formas não são numericamente multiplicadas se não forem recebidas em matéria.
  3. Portanto, as formas são individuadas pela sua relação com a matéria.
  4. Portanto, a última determinação de o que é um indivíduo ocorre pela matéria.
  5. Portanto, a forma é um isto em virtude da matéria.
  6. Portanto, a matéria é o PI.
Resposta de Suárez ao Argumento do Ser Específico [argumento do ser específico aplicado à matéria]:
  1. A forma não é o PI, se a tomarmos como algo que determina a espécie.
  2. A forma só é o PI na medida em que ela é um isto.
  3. Mas a matéria também é específica.
  4. Se matéria sozinha constitui um indivíduo, então ela o faz apenas na medida em que ela é um isto.
  5. Portanto, a matéria também não é suficiente para a constituição do indivíduo.


Questão a Suárez: Se a matéria sozinha é específica e não um isto, então por que razão a matéria é um isto, quando ela o é?

Solução 01:
  1. A vontade de Deus faz com que a matéria seja isto.
Resposta à Solução 01:
  1. Uma boa resposta para a pergunta sobre a razão da matéria ser um isto nos diz o que é o PI.
  2. Dizer “a razão da matéria ser um isto é a vontade de Deus” não nos diz o que é o PI.
  3. Portanto, dizer que a razão da matéria ser um isto é a vontade de Deus não é uma boa resposta.
Solução 02 [favorecida por Suárez (vai tratar desta solução na próxima seção)]:
  1. Esta alma é um isto porque Deus quis infundir esta, e não outra.
  2. E esta forma é um isto porque Deus determinou a sua cooperação com a alma.
Solução 03:
  1. Esta matéria é um isto em virtude da quantidade.
Objeção 01 à Solução 03:
  1. A quantidade pressupõe matéria.
  2. Logo, a matéria não pode ser individuada pela quantidade.
  3. Logo, 91 é falso.
Objeção 02 à Solução 03:
  1. Nada substancial pode ser individuado por acidentes.
  2. Portanto, a matéria é algo uno por si mesmo e que se contrai por si mesmo.
  3. A matéria e esta matéria não são distintas ex natura rei (na natureza das coisas).
  4. A quantidade da matéria é um acidente da substância.
  5. Portanto, esta matéria não pode ser intrinsecamente individuada pela quantidade (já que a quantidade é apenas um acidente) e nem pode se individuar por esta quantidade (já que esta quantidade pressupõe esta matéria).
Objeção 03 à Solução 03 [Reaplicação do Argumento do Ser Específico à Quantidade]:
  1. A quantidade, tal como a matéria e a forma, é uma noção específica a menos que seja um isto.

Argumento pela Substância como Isto por Si (Posição de Suárez)
  1. Logo, o mesmo argumento que aplicamos à matéria e à forma é aplicável à quantidade.
  2. Tal argumento é aplicável a qualquer objeto.
  3. Logo, se o utilizarmos continuamente, cairemos sempre em círculos viciosos e regressos ao infinito.
  4. Portanto, se quisermos evitar os regressos ao infinito e círculos viciosos, devemos parar num ponto no qual algo seja isto por si mesmo.
  5. A substância é prioritária e absoluta por si mesma.
  6. Logo, a substância deve ser isto por si mesma.
Argumento pela Individuação da Forma e da Matéria pela Relação que há entre elas
  1. Suponha que dois seres incompletos são individuados por sua relação um com outro.
  2. A forma e a matéria são individuados por sua relação um com o outro.
  3. Substância e acidente não são individuados por sua relação um com o outro.
  4. Logo, o PI adviria antes da relação entre forma e matéria do que entre substância e acidentes.
Argumento de Autoridade pela Primazia da Forma em Detrimento da Matéria para ser o PI
  1. Todos os argumentos dados podem concluir o mesmo sobre a forma e a matéria.
  2. Portanto há alguma igualdade entre matéria e forma.
  3. No entanto, a matéria supera a forma no fato de que ela produz várias formas individuais.
  4. Aristóteles disse que a forma supera a matéria no fato de que ela constitui primariamente o indivíduo.
  5. Logo, a forma constitui primariamente o indivíduo.
  1. No entanto, a forma não é o único constituinte da individualidade de algo que é um isto (há também a matéria), embora seja o mais importante.

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