quinta-feira, 21 de junho de 2012

CAIXA DE PANDORA: O Círculo do Silêncio



CAIXA DE PANDORA: 
Exercícios de Filosofia com Crianças e Jovens


O Círculo do Silêncio

Tive a ideia de criar este exercício a partir de um jogo que uma amiga me contou que costumava fazer com as educadoras e amigos na sua “pré-escola”: o jogo do silêncio. Durante alguns minutos todos se sentavam no hall de entrada da escola deixando-se estar simplesmente em silêncio. No fim desses minutos os alunos tinham de partilhar com o grupo os sons que ouviram nesse silêncio.
Pensei imediatamente que esse “jogo do silêncio” poderia ser uma excelente forma de ajudar os meus alunos a concentrarem-se no processo do diálogo “desligando” temporiamente todo o ruído exterior que nos afecta diariamente e nos impede de ouvir qualquer coisa além do barulho. Com tanto barulho à nossa volta ouvimos tudo e acabamos por não ouvir nada.

Um pressuposto presente em qualquer sessão de Filosofia com Crianças é que os alunos devem procurar dialogar entre si e resolver cooperando os problemas que vão surgindo e não simplesmente responder isoladamente às perguntas do professor ou dos seus colegas. Quando se consegue esse diálogo entre os alunos os resultados são imediatamente sentidos e todos saímos da sessão com a sensação de termos conseguido algo muito difícil e muito importante: comunicar.

São, no entanto, muito raras e difíceis de conseguir essas sessões em que há verdadeira comunicação, em que o sentido do diálogo parece fluir facilmente entre os participantes e onde realmente se progride cooperativamente em direcção a um resultado qualquer, com os alunos se ouvirem-se com atenção e mostrando um verdadeiro interesse no que os outros têm para dizer.

O exercício “Círculo do Silêncio” serve exactamente para habituar os alunos a ouvirem-se mutuamente criando um espaço dentro da sessão em que apenas lhes é pedido para ouvir e não para falar. Delimitar geograficamente na sala esse “espaço de silêncio” é muito importante para o sucesso deste exercício pois indica claramente aos alunos que quando estão nesse espaço devem ficar em silêncio a ouvir o que os outros têm para dizer e pensar no que lhes é dito. Esse espaço para ouvir é o “Círculo do Silêncio”.

O tempo que os alunos passam a ouvir os outros em silêncio dentro do “Círculo do Silêncio” é vivido por eles de uma forma muito diferente do tempo que passam calados numa sessão simplesmente à espera a sua vez para falar. Este tempos passado no “Círculo do Silêncio” é passado apenas a ouvir e, por isso mesmo serve simultâneamente três objectivos essenciais:

- torna o "ouvir" um processo consciente ao criar um espaço físico na sala de aula dedicado apenas ao “ouvir os outros”, livre de qualquer pressão para falar ou sugerir hipóteses;
- ajuda os nossos alunos a “treinar o ouvido crítico” e a distinguir aquilo que numa sessão é “ruído” daquilo que realmente interessa para o diálogo;
- controla o ímpeto natural dos alunos em querer falar e exprimir impulsivamente a sua opinião acerca de tudo o que se passa na sessão. É esta vontade em se exprimir e mostrar que provoca aquela situação conhecida de todos os professores em que todos falam por cima de todos e ninguém se ouve.

Com os alunos mais novos (4-6 anos) costumo dividir o exercício em duas sessões. Uma primeira sessão curta de cerca de 30 minutos onde apresento o grupo ao “Círculo do Silêncio” e experimentamos um pouco aquilo de que o silêncio é capaz.

Numa segunda sessão procuramos aproveitar os benefícios que essa “dinâmica de silêncio” pode ter para um dos nossos Diálogos Filosóficos. Para isso criamos dois espaços distintos dentro do grupo: O “Círculo do Silêncio” (exterior) e o “Círculo do Diálogo” (interior).



Sessão 1 – O Círculo do Silêncio
Com esta primeira sessão queremos que os alunos experimentem o silêncio na sala de aula e sintam de que forma o silêncio é importante para estarem mais atentos ao que os rodeia.
Durante 5 minutos deixamo-nos estar todos sentados em círculo procurando fazer o máximo silêncio possível. Ultrapassados os momentos iniciais de estranheza com esta situação tão incomum na sala de aula e controlados os risinhos nervosos de alguns alunos este grupo conseguiu alguns minutos de muito bom silêncio.

“O que é que ouviram durante este silêncio que normalmente não ouvem na sala de aula?”
- Ouvi os carros lá fora;
- Ouvi o vento;
- Os pés dos meninos nos chão;
- Uma camioneta;
- Ouvi três pássaros;
- Ouvi o telefone a tocar lá em baixo;
- Ouvi uma cadeira a bater no chão;
- Ouvi o som das árvores;
- Ouvi a Fátima directora a subir as escadas;
- Ouvi a chuva.
- Ouvi risos;
- Ouvi a Catarina a suspirar;
- Ouvi a tampa da tua caneta a fechar.

Para finalizar a sessão perguntei aos meninos “o que gostaram e o que não gostaram nos 5 minutos de silêncio?”
-Não gostei de estar calado;
- Não gostei do silêncio;
- Não gostei de não conseguir parar de rir no início;
- Eu gostei porque estivemos calmos no fim;
- Eu gostei porque ouvi as árvores lá fora.


(duas semanas depois)

Sessão 2 – O Círculo do Silêncio e o Círculo do Diálogo
No início desta sessão lembramos os alunos do “Círculo do Silêncio” que fizemos na sessão anterior. Depois dividimos a turma em dois grupos e pedimos-lhes que se sentassem em dois círculos, um exterior e outro interior. Dizemos-lhes que o círculo de fora é o “Círculo do Silêncio” mas que desta vez não vão estar atentos aos barulhos que ouvem mas ao diálogo que os seus amigos vão ter no círculo de dentro, o “Círculo do Diálogo”. A meio da sessão os grupos trocam de lugar e os que estão no “Círculo do Siêncio” passam para o “Círculo do Diálogo” e vice-versa.
Desta forma queremos que os alunos dirijam para o diálogo dos seus amigos toda a atenção que na sessão anterior colocaram a ouvir os diversos barulhos dentro e fora da sala de aula. Ao respeitarem o seu papel de ouvintes no “Círculo do Silêncio” as crianças estarão a ganhar o hábito de ouvir os outros e controlar os seus impulsos em falar por cima uns dos outros.

O facto de os alunos estarem no papel de observadores no “Círculo do Silêncio” pode fazer com que alguns alunos percam o interesse na sessão por não poderem participar oralmente (algo muito fácil de acontecer sobretudo com os meninos mais novos). Para evitar que isso aconteça o professor deverá delegar nesses alunos a tarefa de resumir, clarificar e explicar aos outros o que se vai passando no diálogo sempre que tal for necessário. Os alunos do “Círculo do Silêncio” também poderão ter o papel de escolher a ordem daqueles que falam dentro do “Círculo do Diálogo”. O conteúdo do diálogo deverá, porém, ser da inteira responsabilidade dos membros do “Círculo do Diálogo”.

Ao cabo de cerca de 30 minutos os papéis invertem-se, os alunos do “Círculo do Silêncio” são chamados para continuar a sessão no “Círculo do Diálogo” e os que dialogavam passam a assumir o papel de atentos ouvintes.



Outros exercícios da CAIXA DE PANDORA aqui

Tomás Magalhães Carneiro

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