quarta-feira, 21 de março de 2012

Apresentação e entrevista de Tomás Carneiro


Começo por agradecer ao Rodrigo Cid simpático convite para participar no seu blog "Investigação Filosófica". Espero poder contribuir regularmente com textos relacionados com a minha área de pesquisa e de trabalho: o Diálogo Filosófico dentro de fora do contexto académico. Poderão acompanhar o meu trabalho nesta área aqui e aqui. Para me apresentar aos leitores deste blog, será interessante publicar uma pequena entrevista que me foi feita recentemente por alguns pais da Associação de Pais do Centro Escolar de S. Miguel de Nevogilde, aqui no Porto, que se mostraram interessados em conhecer um pouco melhor isto da Filosofia com Crianças. Julgo que é uma boa introdução ao meu trabalho e ao posicionamento que tenho face a esta área. De futuro espero partilhar convosco algumas sessões de Diálogo Filosófico tanto com crianças como com adultos, e ao mesmo tempo divulgar alguns exercícios de Diálogo Filosófico em sala de aula, exercícios estes que os professores poderão aplicar com os seus alunos.



Um forte abraço lusitano,

Tomás Magalhães Carneiro





ENTREVISTA


APAIS - Quem é o Tomás Magalhães Carneiro e o que faz?

TOMÁS - O meu nome é Tomás Magalhães Carneiro, nasci em Évora em 1977 mas com seis meses trouxeram-me para o Porto cidade onde vivo desde então. Não sou professor de filosofia no sentido em que não ensino filosofia mas procuro levar as pessoas (adultos e crianças) a filosofar comigo. Dinamizo sessões de Diálogo Filosófico em espaços públicos (Cafés Filosóficos, Ciclos de Leituras Filosóficas, Formações de Diálogo Filosófico na Sala de Aula) e em escolas e jardins de infância (Projectos Jovens Filósofos e Filósofos a Brincar). Recentemente, fundei com um amigo músico o "Clube Filosófico do Porto" que pretende aproximar a filosofia da cidade, o local onde nasceu há 2500 atrás, em Atenas com Sócrates. Aceitei o convite para colaborar neste blog pois interessa-me partilhar com os pais a alegria e a força criativa que sinto ao desenvolver sessões de Filosofia com Crianças. Regularmente publicarei aqui alguns exercícios e sessões, assim como indicações e técnicas para estimular e orientar um Diálogo Filosófico com as crianças. Tenho compilado estes exercícios e técnicas numa página do meu site a que dei o nome de CAIXA DE PANDORA:


APAIS - Começaria por lhe pedir que nos explicasse o que é a Filosofia para Crianças?

T - Prefiro a designação Filosofia com Crianças pois transmite melhor o que se passa numa sessão de Filosofia: uma experiência de Diálogo Filosófico com as crianças a partir das suas próprias ideias e não uma transmissão de ideias e valores (de outros filósofos ou do professor) para as crianças. Uma forma de explicar o que é a Filosofia com Crianças é dizendo o que ela não é. Existem muitas formas e metodologias de fazer Filosofia com Crianças, mas todas devem partilhar do seguinte pressuposto fundamental: a filosofia como algo que deve ser experimentado e construído por cada um e não transmitido por um professor e assimilado pelos alunos. É neste ponto que a Filosofia com Crianças se afasta radicalmente do ensino comum da Filosofia (tanto no ensino secundário como no superior) uma vez que o foco de uma sessão de Filosofia com Crianças não são ideias, livros ou autores alheios à sessão mas sim as intervenções das próprias crianças, as suas ideias, hipóteses e razões que avançam em Diálogo com os seus colegas para defender e testar essas suas ideias. Por outras palavras, se o ensino tradicional da filosofia se insere num paradigma da transmissão de ideias filosóficas, a Filosofia com Crianças insere-se num paradigma da experiência do filosofar.


APAIS - De que forma a mesma é importante para as crianças – hoje e no futuro?

T - Qualquer pessoa reconhece que aprender a pensar é importante em qualquer área da vida humana e facilmente reconhecerá que a melhor forma de se aprender a pensar é... pensando. Numa sessão de Filosofia com Crianças procuramos criar esse espaço para o pensamento livre e autónomo que cada um deve fazer por si mesmo e em contacto com as ideias dos outros. O Diálogo livre, tranquilo e responsável com os nossos semelhantes é a forma mais natural de aprender a pensar. Num Diálogo aprendemos a pensar em cooperação com os outros, ouvindo os outros, esforçando-nos por compreender o que dizem e por que o dizem, aceitando as suas críticas às nossas ideias e aceitando também mudar de ideias quando nos corrigem e nos mostram que não temos razão. Estas atitudes (humildade, empatia, interesse pelo outro, responsabilidade, etc.) são "atitude filosóficas" mas também atitudes cívicas, sociais e humanas de inquestionável valor para qualquer pessoa (criança ou adulto) e é preocupante constatar que essas atitudes são muito raras. O grande contributo da Filosofia com Crianças para o cultivar destas atitudes fundamentais está, exatamente, em criar situações de Diálogo em que as crianças são convidadas a ouvir o outro, a reconhecer e aceitar a sua diferença, percebendo que o outro pensa diferente de nós mas que poderá ter boas razões para o fazer. Perceber o nosso lugar no mundo passa por perceber que os outros têm também um lugar no mundo.


APAIS - Como se desenvolve / se processa uma sessão?

T - A partir de um estímulo qualquer (que pode ser uma pergunta, um pequeno texto, uma imagem ou um exercício) as crianças são convidadas a tentar resolver em Diálogo com os amigos um ou vários problemas filosóficos que vão surgindo, apresentando as suas razões, concordando ou discordando com os seu amigos, analisando as ideias em jogo, levantando mais problemas, etc. No entanto, para conseguirmos que as crianças dialoguem entre si não basta fazer com que esperem de dedinho no ar pela sua vez de falar. Para conseguirmos que as crianças dialoguem entre si é preciso que as crianças queiram dialogar, i.e., é preciso que queiram verdadeiramente ouvir o que o outro tem para dizer e não porque as regras do diálogo o exigem (não falar na vez do outro, esperar que o outro acabe de falar, levantar o dedo para falar, etc.). Cumprir essas regras é necessário para o bom funcionamento de um Diálogo, mas não é suficiente. É necessário ainda reconhecer que é bom para nós ouvir o que o outro tem para nos dizer. Conseguir este "patamar mínimo" de Diálogo entre as crianças é um trabalho muito demorado mas, ao mesmo tempo motivador e aliciante e que deve ser a preocupação principal de quem começa a fazer Filosofia com Crianças. Aquilo que as crianças dizem, as opiniões que vão avançando e as formas criativas que têm de lidar com conceitos e ideias são o "sumo" de uma sessão de Filosofia com Crianças, mas não nos devem distrair do que realmente é importante: criar durante a sessão as condições propícias para o Diálogo e cultivar nas crianças as atitudes dialogantes adequadas.


APAIS - Qualquer pessoa pode realizar sessões de Filosofia com as Crianças?

T - Pelo que acabei de escrever percebe-se claramente que não, da mesma forma que nem todas as pessoas podem realizar sessões de Música com Crianças, por exemplo. Uma sessão de Filosofia com Crianças não é uma aula de filosofia mas também não é uma sessão de conversa mais ou menos "solta" sobre temas filosóficos, à semelhança das conversas que temos com os nossos amigos no café. Uma sessão de Filosofia com Crianças é muito exigente, tanto para as crianças como para o professor (facilitador) pois o que se pretende é, exatamente, evitar que o Diálogo se torne numa conversa inconsequente em que cada um expressa o que muito bem entende. Saber dialogar é uma arte como outra qualquer e, nesse sentido, se nem todas as pessoas estão preparadas para ensinar as crianças a pintar, a fazer desporto, a falar inglês ou a tocar um instrumento, quem não é capaz de dialogar também não será capaz de ensinar a dialogar. Uma regra de ouro em que acredito é que as crianças não fazem o que lhes dizemos para fazer mas fazem aquilo que efetivamente fazemos. Ou seja, por muito que lhes digamos que têm de ouvir os outros, dialogar entre si, respeitar as diferentes opiniões, pensar por si mesmos de forma autónoma e responsável, etc. se nós que lidamos com elas diariamente não o praticamos com elas diariamente as crianças não se vão ouvir, não vão dialogar, não vão pensar por si mas, antes, vão esperar pelos pais ou pelos professores para pensarem por elas, para dialogarem por elas, para ouvirem por elas. O espaço de Diálogo criado numa sessão de FcC é um espaço de verdadeira democracia (em que a opinião de todos vale exatamente o mesmo) e basta um pouco de realismo para vermos que a sala de aula ou mesmo o ambiente familiar não é, neste sentido, um espaço democrático. Há uma hierarquia estabelecida em que há conhecimentos a serem transmitidos e a adquirir, valores a conhecer e a respeitar, etc. E é natural e até mesmo necessário que assim seja. Mas o espaço da sessão de Filosofia não é um espaço natural. A sessão de Filosofia é um espaço artificial, uma espécie de “laboratório de ideias” em que tudo é possível. Como trabalhamos sobretudo com base em hipóteses uma sessão de Filosofia com Crianças é um espaço aberto à livre, mas rigorosa, especulação, onde tudo pode ser posto em causa desde que devidamente justificado. Fazer Filosofia com Crianças é aceitar correr o risco de deixar as crianças pensarem realmente por elas próprias, por muito estranho e perigoso que isso possa parecer aos pais, a alguns pedagogos e à própria consciência moral do professor de filosofia com crianças. Este é o desafio (o maior desafio) que se coloca a quem está disposto a fazer Filosofia com Crianças: deixar de existir para as crianças começarem a existir. Se não aceitar correr esse risco e se não tiver a humildade para“deixar de existir” estará a fazer Moral com Crianças, Educação Cívica com Crianças ou Pedagogia com Crianças ou, na pior das hipóteses, estará a dar uma aula de Filosofia, mas não estará a fazer Filosofia com Crianças.


APAIS- Com que regularidade se deve realizar uma sessão?

T – Uma vez que de uma prática se trata (a prática do pensar e dialogar) as sessões de Filosofia com Crianças só fazem sentido se tiverem alguma regularidade. Como são sempre sessões exigentes para ambas as partes (alunos e professor) julgo que a regularidade ideal está entre mensal e quinzenal ao nível do pré-escolar (4-5 anos) e quinzenal e semanal ao nível do 1 ciclo (6 – 9 anos).


APAIS -Quantas crianças podem participar nas mesmas?

T – Uma turma normal entre 15 e 25 alunos.


APAIS - Qual a duração das sessões?

T – Depende sempre da maturidade do grupo. Hoje mesmo fiz uma sessão de filosofia com alunos de cinco, seis anos da Escola Infantil a Flor, no Porto. Durante 1h30m discutimos “o que escolhemos e o que não escolhemos”(os pais, os amigos, estar zangado, estar doente, os sonhos, os pensamentos, etc.). Foi uma sessão muito intensa onde nem demos pelo tempo a passar. No entanto, quando comecei a trabalhar com este grupo no ano passado, as primeiras sessões não duravam mais que 30 minutos. Numa sessão de FcC não importa a quantidade de minutos mas a qualidade das ideias.


APAIS -Os grupos podem ser heterogéneos ou é conveniente as idades serem idênticas?

T – Com os meninos mais novos (3-4 anos) é bom mantê-los num grupo homogéneo. À medida que amadurecem e aprendem a dialogar é muito interessante misturá-los em grupos com crianças de várias idades e ver como se ajudam mutuamente a resolver problemas filosóficos “bicudos”.


APAIS- Que sugestões nos deixa para o usarmos no nosso dia a dia com os nosso filhos?

T – Nas formações que dou a professores do ensino básico e secundário que querem aprender a cultivar o Diálogo com os seus alunos em sala de aula digo-lhes que para o fazerem devem deixar de ensinar, de falar, de explicar para as crianças começarem a pensar, a falar, a explicar, numa palavra, a Dialogar. Ou seja, devem deixar de ser professores. Uma vez que me pede uma sugestão para os pais, por coerência só posso deixar a sugestão mais difícil de todas: para cultivarem o Diálogo Filosófico com os vossos filhos devem… deixar de ser pais!



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