terça-feira, 13 de julho de 2010

Resenha de Prior, A. “Changes in Events and Changes in Things”; in: Le Poidevin, Robin and Murray MacBeath. The Philosophy of Time. Oxford University Press, 1993.


O objetivo central de Prior neste texto é investigar a questão sobre a existência do fluxo do tempo. Ele diz que o problema dessa questão é que um fluxo genuíno ocorre no tempo e leva tempo para ocorrer; e, assim, o fluxo teria uma velocidade [rate]. Dessa forma, se o tempo tem um fluxo, tal fluxo teria de ter uma velocidade. No entanto, a velocidade de um fluxo é a razão entre a quantidade de movimento e de tempo. Assim, o que seria a velocidade do fluxo do tempo?

A resposta analisada por Prior é a de que o fluxo do tempo é uma metáfora. Uma metáfora para falarmos sobre o tornar-se mais passado que todos os eventos estão submetidos. Por exemplo, quando um evento passa do futuro distante ao futuro próximo e, então, para o presente e, depois, para o passado próximo e para o passado distante, ele está se tornando cada vez mais passado. E prover uma velocidade para esse fluxo pareceria uma tarefa simples: um evento torna-se 1 ano mais passado ao passar 1 ano, de modo que o fluxo do tempo seria de 1 ano por ano.
Prior pensa que essa resposta poderia ser considerada estranha por dois motivos: (1) a medida da velocidade é estranha, pois é dada em termos de tempo por tempo, e (2) a idéia de eventos mudando é estranha. Prior pensa que, se levarmos em conta o modo como rotineiramente falamos, coisas sofrem mudanças, e eventos ocorrem embora não sofram mudança. Ele examina a justificativa de que eventos não mudam pelo fato de eles próprios serem mudanças, e indica que ela não é boa, pois o fato de algo ser uma mudança não implica que tal mudança não possa mudar. Por exemplo, o evento “Lula se torna presidente do Brasil” é uma mudança com relação a Lula; no entanto, se Lula se tornar presidente do Brasil duas vezes, tais mudanças podem ocorrer de modo diferente, ou seja, podem mudar. Assim, tal justificativa não seria boa para defender que eventos não mudam. Além disso, sobre a medida da velocidade ser estranha, Prior nos diz que a medida da aceleração (espaço/tempo/tempo) também parecia tão estranha quanto a que visa ser atribuída ao fluxo do tempo (tempo/tempo). E, se não precisávamos imaginar um super-tempo para a aceleração, por que precisaríamos para o fluxo do tempo? – se pergunta Prior. Prior pensa que (1) não resolve a questão, e nem (2) se for por meio das justificativas apresentadas.
Mas ele levanta uma justificativa interessante para (2), o fato de toda mudança que ocorre em um evento (em seus objetos), que não seja sua mudança de posição no tempo, ser uma mudança que ocorre enquanto o evento está ocorrendo; enquanto as mudanças de posição no tempo – as passagens do futuro para o presente e para o passado, ou seja, o fluxo do tempo – ocorrem também com eventos que não estão ocorrendo. Por exemplo, um homem que fica careca é uma mudança que ocorre em um homem existente que se encontra em um evento que está ocorrendo, a saber, a mudança de um homem existente e não-careca que no presente se torna careca; e não uma mudança que ocorre num homem não-existente careca do futuro de tornar-se existente. Assim, diria Prior, predicar mudança de eventos não-existentes seria estranho.
Uma objeção, traçada por C. D. Broad, é que não pode ser verdade que haja um fluxo do tempo, pois isso seria fazer com que o evento, ao mesmo tempo, seja uma mera ocorrência momentânea e tenha uma história indefinidamente grande. Prior responde que não há nenhuma contradição em algo ser um pedaço pequeno de história e ter uma história indefinidamente grande. Por exemplo, a história da morte da rainha Anne seria um pequeno pedaço de história, embora tenha uma grande história, que faz parte da história da rainha Anne, que é maior ainda e faz parte de outra história etc.
O problema, se é que há algum, segundo Prior, seria, no máximo, sobre a duração do presente. Ele nos lembra de Agostinho se perguntando sobre quando um tempo longo é longo (no presente, no passado ou no futuro?). A resposta inicial deste último foi dizer que um tempo só pode ser longo enquanto ocorre, dado que apenas coisas presentes (existentes agora) podem ter características, como ser longo. No entanto, ele é demovido dessa idéia pelo fato de algo poder estar ocorrendo (estar presente) há um ano, embora nem todas as ocorrências desse um ano não estejam presentes num único instante. E tal raciocínio pode ser estendido para, por exemplo, uma hora, um minuto, um segundo etc. Mas o ponto de Prior ao citar Augustinho é mostrar outro argumento interessante, a saber, que se o passado e o futuro existem, de modo os eventos provirem do futuro e se direcionarem ao presente e ao passado, eles devem se encontrar em algum lugar secreto de onde eles podem provir e se dirigir quando não estão presentes. E o problema disso é que, se eles se encontram em qualquer lugar, têm de se encontrar como presentes, e nunca como passados ou futuros.
Prior, então, passa a falar sobre gramática a fim de mostrar que, quando asserimos uma frase com um verbo no passado ou no futuro, o que fazemos é exatamente semelhante a colocarmos um advérbio na frase. Por exemplo, ao dizermos que “não é o caso que P”, que “possivelmente P”, que “alegadamente P”, ou semelhantes, o que fazemos é adicionar um advérbio como um operador unário da sentença. As frases com advérbios são chamadas de “frases adverbiais”, e tais advérbios têm a característica de poderem ser reaplicados à sentença a fim de formar uma frase ainda mais complexa. Por exemplo, “é alegadamente possível que ele não virá” seria traduzível por “[é dito que (é possível que (não é o caso que (ele virá)))]”. Se considerássemos as predicações de futuro e passado também como advérbios, poderíamos traduzir da mesma forma tais predicações – como se fosse advérbios. Por exemplo, traduziríamos “eu tomarei café da manhã” por “[será o caso que (eu tomo café da manhã)]”; e o mesmo para o passado. E, segundo Prior, poderemos também reiterar advérbios temporais, como em “eu terei tirado o meu casaco”, que poderíamos traduzir por “[será o caso que (foi o caso que (eu tiro meu casaco))]”.
O autor nos fala sobre que podemos pensar linguisticamente um evento como uma coisa em vez de como uma proposição, o que faria a predicação temporal passar de advérbio que opera numa frase para um verbo que opera um substantivo; por exemplo, (a) “agora faz seis anos que foi o caso eu cair da escada” poderia ser reescrita como (b) “a minha queda da escada retrocedeu seis anos no passado”. Falamos de um evento que ele retrocede no passado, segundo Prior, quando o tratamos como um objeto, como um substantivo, como uma coisa. Mas não precisamos tratá-lo dessa forma. Para cada sentença que substantiva o evento, há uma frase em que o evento é apresentado como uma proposição – como no caso de (a) e (b).
Ele se questiona, então, se essa resposta consegue dar conta da morte da nossa já conhecida rainha Anne. Prior é defensor de (a) e, assim, acredita que devemos predicar advérbios temporais da proposição “a rainha Anne está morrendo”, com esta última dizendo respeito a uma pessoa x que existiu chamada Anne e que foi rainha etc., e que atualmente não existe. Segundo Prior, poderíamos dizer que a verdade de “foi o caso que a rainha Anne está morrendo” implicaria a verdade da proposição “foi o caso que a rainha Anne está morrendo e não é mais o caso que a rainha Anne está morrendo”.
O problema aqui seria que “foi o caso que a rainha Anne está morrendo e não é mais o caso que a rainha Anne está morrendo” não implica em nenhuma mudança genuína, pois, embora pareça ser uma mudança, por ter a forma proposicional “foi o caso que P e não é mais o caso que P”, a mudança genuína apenas ocorre no que existe e no que está acontecendo, e tal mudança seria uma mudança de um evento não-existente tomando o lugar de um que existe, que, então, torna-se não-existente – o que não corresponderia à mudança genuína. Isso faria com que o fluxo do tempo não passasse de uma metáfora para expressar a característica de as mudanças temporais implicarem também que “foi o caso que P e não é mais o caso que P”.
           Pergunta-se ainda Prior se o enunciado sobre a rainha Anne morrendo enuncia um fato individual sobre a rainha Anne ou um fato geral sobre x. Sua resposta, em congruência com sua posição, é que o enunciado é um enunciado geral sobre x predicando-lhe propriedades. O retrocesso da morte de Anne no passado, nesta perspectiva, não é uma mudança, dado que não há agora nenhuma rainha Anne (ou sua morte) que estaria envelhecendo. Mas esse envelhecimento, esse retrocesso no passado, o fluxo do tempo, embora não seja uma mudança, é uma quasi-mudança, no sentido de que compartilha com as mudanças genuínas, os fluxos genuínos, a verdade da forma proposicional “foi o caso que P e não é mais o caso que P”.

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