domingo, 20 de junho de 2010

Resenha de McTaggart, John (1908). “The Unreality of Time”. Mind: A Quarterly Review of Psychology and Philosophy: n. 17, pp. 456-473.

O objetivo deste texto de McTaggart é indicar os motivos pelos quais ele pensa que o tempo é irreal. Ele pretende realizar tal objetivo apresentando-nos duas maneiras que distinguimos posições no tempo, as séries A e B, e depois tenta nos mostrar que a série A é essencial para o tempo e que ela leva a uma contradição; o que faria o tempo, tal como a série A, não poder ser real. Na série A os eventos são pensados como presentes, passados ou futuros. Os eventos que são presentes tornam-se passado, enquanto eventos futuros tornam-se presentes. Tal série é pensada por McTaggart como uma série dinâmica, pois os eventos mudam suas características temporais. Por exemplo, o evento do nascimento de Rodrigo Cid é passado, mas alguma vez foi presente. Os eventos são os estados de coisas que ocupam cada momento da série temporal. Na série B os eventos são pensados como anteriores, simultâneos ou posteriores a outros eventos. Um evento que é anterior a outros eventos é para sempre anterior a tais eventos, e ele nunca muda suas características temporais. Este é, inclusive, o motivo pelo qual tal série é pensada como estática. Por exemplo, se o nascimento de Rodrigo Cid é posterior à Queda da Bastilha, então ele é sempre posterior.


McTaggart indica essas duas formas de percebermos os eventos no tempo e se pergunta se tais séries seriam objetivas (partes da realidade) ou meramente subjetivas. Então, ele tenta aplicar a noção de tempo e das séries A e B à realidade. Ele acredita que tanto a série A, quanto a série B são condições necessárias para o tempo, mas que apenas a série A é suficiente. Pela série A ser necessária para o tempo, se não houver série A, não haverá tempo. A primeira parte de seu argumento é como se segue.

(1)   O tempo envolve necessariamente mudança. [De modo que um universo sem mudança seria um universo sem tempo.]
(2)   A mudança só ocorre quando há mudança em alguma característica do evento.
(3)   A única característica do evento que pode mudar, sem torná-lo outro evento, é sua posição na série A (se ele é passado, presente ou futuro).
(4)   Se o tempo se constituísse apenas da série B, não haveria mudança. [Pois na série B nenhum evento muda.]
(5)   Logo, a série B não é suficiente para o tempo.

(6)   Mas o tempo precisa de uma série com relações de anterioridade, simultaneidade e posterioridade.
(7)    Logo, a série B é necessária para o tempo.

(8)    Sem a série A, não haveria mudança. [Pois (3).]
(9)    Sem mudança, não haveria tempo. [Pois (1).]
(10) Logo, a série A é necessária e suficiente para o tempo.

(11) Logo, não pode haver uma série B sem uma série A.

(12) Logo, não pode haver tempo sem uma série A.

Há inúmeras objeções com relação a muitas das premissas de McTaggart, mas não vamos abordá-las todas, pois nosso objetivo aqui é meramente expositivo.

McTaggart nos indica também um modo de mostrarmos que a série B não é fundamental para o tempo. Ele faz isso nos mostrando que a união da série A com uma terceira série, chamada “série C”, pode originar o tempo sem a necessidade de postularmos uma série B. A série C seria apenas uma ordenação não temporal, sem as relações da série A (passado, presente e futuro) e sem as direções da série B (antes e depois); seria como a série das letras do alfabeto. Assim, mesmo que houvesse uma série C, nela não haveria mudança e nem uma especificação da direção que devemos ler os membros de tal série. Por exemplo, uma série P, Q, R, se for uma série C, poderia ser lida como R, Q, P, pois faltaria ainda a direção da ordenação. Enquanto se fosse uma série B, já estaria determinado que P é anterior a Q e a R e que Q é anterior a R. Desse modo, a série C não é apropriada para substituir a série B, mesmo que aceitemos que em C, os eventos P, Q e R mudam. No entanto, junto com a série A, a série C é capaz de formar o tempo, já que a série A proveria a mudança e a direção da ordenação, e a série C proveria o próprio conjunto de eventos/momentos. Desta forma, se apenas com as séries A e C podemos originar o tempo, estas são fundamentais para o tempo, enquanto a série B não o é.
Mas o ponto principal que McTaggart quer traçar não é que a série A é mais fundamental que a série B, mas antes que sem a série A, não há tempo; de modo que se as distinções da série A não se aplicarem à realidade, não haveria realidade no tempo.
Há ainda uma objeção com dois argumentos, que McTaggart trata em seu artigo, contra a tese de que a série A é essencial para o tempo. O primeiro argumento envolve ficções; ele diz que as ficções, embora não formem uma série A (p. ex.: as estórias da Turma da Mônica não ocorrem no passado, nem no presente e nem no futuro), elas formam uma série B (pois a Mônica bate no Cebolinha depois de ver seu coelho Sansão amarrado).
A resposta de McTaggart é dizer que se algo está no tempo, então existe; uma ficção não existe; logo, não está no tempo. E, assim, a série formadas por elas não é realmente temporal. No entanto, se alguém imaginasse ou acreditasse que certas ficções são ocorrências históricas, certamente também imaginaria ou acreditaria que elas estão numa série A, ou seja, que elas são parte do passado, do presente ou do futuro.
O outro argumento em objeção ao argumento de McTaggart é o seguinte: se existissem várias séries temporais diferentes e independentes, existiriam muitos presentes independentes que não estão em sequência. Se esse fosse o caso, então não haveria relações temporais entre os diversos presentes e as diversas séries. E, se fosse assim, haveria objetos existentes e que não estão no tempo (na série A).
A resposta do filósofo aqui resenhado é afirmar que, num caso como esse, os diversos presentes seriam apenas presentes de diferentes aspectos/partes do universo, de modo que existiriam diferentes tempos; e, para cara um deles, a série A seria essencial. De todo modo, pensa McTaggart, se a existência de muitos tempos for incompatível com a essencialidade da série A para o tempo, então é a existência de muitos tempos que deve ser rejeitada, e não a essencialidade da série A, já que há evidência positiva a favor da série A (o argumento de McTaggart), enquanto a existência de muitos tempos é apenas uma hipótese sem evidências. A partir daí, McTaggart passa à segunda parte de seu argumento, onde tenta provar que há uma contradição na série A e que, por isso, nem ela, nem o tempo podem ser reais:

(1)   Passado, presente e futuro (as qualidades/relações providas pela série A) são incompatíveis, de modo que nenhum evento pode ter mais de um deles.
(2)   Na série A, todos os eventos são passados, presentes e futuros.
(3)   Logo, a série A é contraditória.

McTaggart expõe a objeção que percebe facilmente surgir ao observarmos seu argumento, a saber, que tais determinações da série A são incompatíveis somente quando são simultâneas, pois não há problemas em um evento ser futuro, presente e passado sucessivamente.
A contra-objeção de McTaggart divide-se em três partes. (a) Utilizar flexões verbais como “foi futuro” e “será passado” é pressupor a série A para explicar a série A, já que “será passado” apenas significa que “no futuro é passado”; e isso é um círculo vicioso. Outro problema é (b) que ao utilizarmos tais flexões verbais para fugirmos da contradição (de um evento que é passado e é futuro), passamos a uma segunda série A, onde novamente encontraremos outras contradições (como “foi futuro e foi passado”, “é presente e é futuro”, entre outras) que só poderão ser eliminadas ao passarmos para uma terceira série A, onde encontraremos novas contradições, ad infinitum – assim nunca escaparíamos da contradição na série A. Além disso, (c) talvez não faça sentido falar que uma série A existe em outra série A (“no futuro é passado”). Dessa forma, se a aplicação da série A à realidade envolve contradição, assim também seria com o tempo; e, consequentemente, o tempo não pode ser aplicado à realidade sem contradição – o que quer dizer que o tempo não pode ser real e que, se percebemos algo no tempo, então percebemos o mundo tal como ele não é.
Uma objeção que pode ser feita é que pressupormos o tempo para explicar o tempo não é um círculo vicioso que nos faria ter que rejeitar o tempo, pois tal característica poderia advir de ele ser um elemento último (tal como a verdade) e não sujeito a explicações que o reduzam a outra coisa. McTaggart responde que o que um tal objetor não percebe é que não é o círculo vicioso na explicação do tempo que é a maior evidência contra a sua realidade, mas sim o fato de a série A implicar em contradição.
Entretanto, pergunta-se McTaggart, se, por hipótese, ignorarmos a contradição da série A, conseguiremos encontrar razões positivas para aceitarmos a realidade da série A (que ela é verdadeira da realidade)?
Ele responde a isso dizendo que a crença na realidade do tempo advém de nossas experiências subjetivas de ter uma memória, de ter uma percepção e de ter uma antecipação de um evento. Em nossa mente, os eventos têm as características de serem presentes (se no momento da percepção), de serem passados (se estiverem apenas na memória) ou de serem futuros (quando pensamos sobre como será o futuro, ou seja, quando temos antecipações do futuro). A partir de observarmos tais características nos objetos de nossas memórias, percepções e antecipações, passamos a aplicá-las aos eventos na realidade também.
O problema de ver o tempo como subjetivo, como tendo a ver com o momento da percepção, será que algo poderá ser presente para uma pessoa, enquanto é passado para outra. Por exemplo, se duas pessoas estão vendo um piano, o piano é presente a ambas; mas do momento que uma delas não está mais percebendo o piano, embora a outra esteja, teremos que dizer que o piano é tanto presente, quanto passado. O que não geraria problemas, caso o tempo fosse apenas subjetivo, pois tudo que teríamos que fazer é relativizar a série A, dizendo que o piano é presente para uma e passado para outra. Mas se tentarmos tomar o tempo como objetivo, como parte da realidade, então não poderemos relativizar a série A; e, consequentemente, encontraremos a contradição de algo ser presente, passado e futuro simultaneamente. O presente de um tempo objetivo, diz McTaggart, difere intimamente do presente desse tempo meramente subjetivo que expomos (“presente ilusório”, que é como o filósofo chama o que é presente no momento de nossa percepção). No tempo objetivo, os diversos presentes que ocorrem em momentos diferentes não podem ser todos presentes a não ser que sucessivamente.
A objeção à distinção entre o presente e o presente ilusório é que se o presente objetivo é completamente diferente do que percebemos como presente (presente ilusório), então não há motivos para atentarmos ou acreditarmos na existência de um tal presente objetivo. E ainda: se houvesse um tal presente, qual seria sua duração?
Primeiramente, McTaggart responde que devemos acreditar no presente porque os diversos presentes ilusórios (os presentes de cada percepção) não podem estar em outros presentes ilusórios, embora, certamente, eles estejam no tempo (já que uns ocorrem antes de outros) – de modo que eles têm de estar num tempo objetivo. Sobre a duração do presente, ele nos diz que devemos pensar o presente apenas como um ponto que é a intercessão entre o passado e o futuro e que é a fronteira que os separa.
McTaggart termina o texto concluindo que o tempo é irreal, pois a série A não pode ser aplicada à realidade sem contradição. E, consequentemente, como a série A é necessária e suficiente para o tempo, enquanto a B é apenas necessária, se não pode haver tempo com a série A, não pode haver tempo com a série B. Quanto à série não-temporal C, se os eventos poderiam se localizar em tal série e se tal série existe, McTaggart deixa em aberto para discussões futuras.



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