domingo, 20 de junho de 2010

Resenha de Lowe, E. J. (1987). “The Indexical Fallacy in McTaggart’s Proof of the Unreality of Time”. Mind, New Series: vol. 96, n. 381, pp. 62-70.

No artigo acima referido, Lowe pretende mostrar três coisas: (I) que há um problema com o uso dos indexicais no argumento de McTaggart contra a realidade do tempo, (II) que um teórico da série A pode dar uma caracterização melhor que a de McTaggart para o fluxo do tempo, e (III) que há uma forma de mostrarmos que o tempo, em detrimento do espaço, é a dimensão da mudança.




Lowe inicia seu artigo nos indicando as duas formas de McTaggart em que podemos posicionar temporalmente os eventos, a saber, a série A e a série B. Enquanto na série A os eventos são pensados como presentes, passados e futuros, na série B os eventos são pensados como uns anteriores, posteriores e simultâneos uns aos outros. A principal diferença, alertada por Lowe, entre as duas séries é que numa as proposições que afirmam a existência de um evento no tempo variam seu valor de verdade, enquanto noutra tais proposições são invariáveis no que diz respeito ao valor de verdade. Por exemplo, uma proposição afirmando que um evento é futuro é verdadeira em alguns momentos e falsa em outros, enquanto uma proposição afirmando que um evento é anterior a outro nunca muda seu valor de verdade.
McTaggart, segundo Lowe, pensa que para o tempo ser real é necessário que a série A seja real, pois a mudança seria uma característica essencial do tempo e ela só poderia ser explicada por meio das expressões da série A. No entanto, ele também pensa que as expressões da série A envolvem contradições, de modo que não podem representar a realidade.
Contra a noção de “mudança” de McTaggart, Bertrand Russell tentou mostrar que podemos falar sobre ela sem referência à série A, a saber, dizendo que a mudança consiste apenas da diferença de propriedades que um objeto apresenta em dois momentos diferentes. Porém, segundo McTaggart, tal noção de mudança não captura a mudança essencial para o tempo, pois haver diferença de propriedades em um objeto em dois momentos diferentes.é análogo a haver diferença de propriedades em duas partes de um objeto, e esta última não implica mudança, pelo menos não uma mudança que nos permita distinguir o espaço do tempo; “somente a participação na série A parece ser suficiente” (p.62, tradução livre) para isso. Lowe, em seu artigo, pretende nos mostrar que podemos distinguir o tempo do espaço, como a dimensão da mudança, e que podemos explicar a mudança essencial para o tempo em termos de “fluxo do tempo”.
O modo o qual Lowe descreve o argumento de McTaggart é bem reduzido e pressupõe a leitura anterior do texto do último. De toda forma, vale à pena apresentá-lo (p. 63, tr. livre):

(1)   O tempo essencialmente envolve mudança.
(2)   A mudança só pode ser explicada através de expressões da série A.
(3)   As expressões da série A envolvem contradições; e, assim, não podem representar a realidade.
(4)   Logo, o tempo é irreal.

Lowe, então, nos fala de um objetor, Hugh Mellor, que aceita (3) e nega (2). Ele afirma que McTaggart mostra apenas que o tempo verbal [tense] é irreal, ou seja, que não há fatos tensionados, mas não que o tempo seja irreal. Ele pensa assim porque, embora acredite que crenças tensionadas são indispensáveis para a ação racional, pensa que a mudança pode ser explicada sem referência à série A. Lowe, por sua vez, rejeita Mellor, pois aceita (2) e rejeita (3). Mas antes de começar a exposição de suas razões, Lowe apresenta as próprias razões de McTaggart para aceitar (3).
            McTaggart pensa que se um evento é passado, ele não é ipso facto nem presente e nem futuro; no entanto, todo evento futuro torna-se presente e então passado, de modo que um mesmo evento é passado, presente e futuro – o que, por sua vez, é contraditório. A saída a isso, observada pelo próprio McTaggart, é dizer que um evento não pode ser passado, presente e futuro simultaneamente, pois de um evento que é presente, podemos dizer que foi futuro e que será passado. Tal resposta, segundo McTaggart, seria apenas a passagem para uma segunda ordem de tempos verbais [tenses], pois “b foi futuro” significaria apenas “no passado b é futuro” e “b será passado” significaria apenas “no futuro b é passado”. Segundo McTaggart, a mudança de ordem não impediria a contradição, pois ainda encontraríamos contradições na segunda ordem. Por exemplo, um evento b que no passado é futuro é também passado no passado; e, assim, a contradição persiste.
            Dummett, segundo Lowe, mostra um motivo interessante pelo qual não podemos evitar a contradição. Se numa primeira ordem – onde um evento é passado, é presente ou é futuro – encontramos uma contradição, a encontraremos também na segunda – no –, pois três dos nove termos da segunda ordem, a saber “ no ”, são exatamente equivalentes aos três da primeira ordem. E, se a contradição está presente na primeira ordem, tem de estar também nos equivalentes da segunda ordem.
            Lowe, então, pergunta-se se, para evitarmos as contradições, temos que nos mover para uma segunda ordem de tempos verbais [tenses] e se faz sentido a noção de “ordens superiores”. Por exemplo, é verdadeiro de um evento futuro que ele será presente (é presente no futuro)? Sua resposta é não; e sua justificativa é que dizer “sim” é cometer a falácia indexical que ele irá explicar. Ele pensa que o correto seria dizer que “se b é um evento futuro, então haverá um tempo em que a sentença ‘b é presente’ é verdadeira” (p. 64). Mas “o que queremos dizer com uma sentença tal qual ‘b é presente’?”, pergunta-se Lowe.
Daí, ele passa a examinar uma característica interessante das expressões da série A, a saber, sua indexicalidade (ou token-reflexividade). Assim, ‘b é presente’ poderia ser interpretada como ‘b está ocorrendo agora’, e “agora” é patentemente uma expressão indexical. Os indexicais, segundo Lowe, fazem com que as condições de verdade das elocuções de sentenças com indexicais seja intimamente dependente de contexto. Assim, “a elocução de um token da sentença ‘b está ocorrendo agora’ é verdadeira se, e somente se, o token é elocucionado num tempo t, tal que b está ocorrendo em t” (p. 65, tr. livre).
Essa é a regra que Lowe sustenta que é quebrada pelo uso dos indexicais (como o “agora” ou “presente”) por McTaggart. Antes de dizer o motivo pelo qual Lowe pensa dessa forma, ele nos indica que Dummett aprova o uso dos indexicais por McTaggart, e o aprova pois considera tal uso – “no futuro b está acontecendo agora” – tão legítimo quando dizermos “b está acontecendo no aqui do lá”. Dummett parece aceitar que os indexicais sejam setas apontando para certos pontos no tempo e pensa que o uso de McTaggart respeita essa idéia.
Por sua vez, Lowe acredita que o uso dos indexicais por McTaggart é incoerente. Seu motivo para acreditar nisso é o seguinte: as condições de verdade de uma elocução com “agora” não teriam um agora nelas próprias, mas teriam o momento referido pelo “agora”. Para imaginarmos bem isso, digamos que 21:00h-Brasília de 21/12/2009 o evento b ocorre e digamos que eu diga ‘b está ocorrendo agora’. As condições de verdade dessa elocução é b estar ocorrendo 21:00h-Brasília de 21/12/2009 e a elocução ocorrer 21:00h-Brasília de 21/12/2009. Tal teoria dos indexicais parece-me pressupor que os indexicais são termos diretamente referenciais – de modo que uma proposição que expressa uma elocução de uma sentença com indexical tem no local do indexical aquilo que o indexical refere.
McTaggart utiliza a sentença “no futuro b é presente”. E, segundo a teoria indexical de Lowe, essa sentença seria contraditória, pois dizer de b que ele é presente implica dizer que b está ocorrendo agora, e “agora” refere um momento específico, o momento em que b ocorre e que dizemos que b ocorre, a saber, 21:00h-Brasília de 21/12/2009. Assim, não seria legítimo falar de um evento que não está ocorrendo aqui que ele está ocorrendo no aqui do lá. Da mesma forma como seria ilegítimo dizer de b que não está ocorrendo agora que ele está ocorrendo no agora do futuro. Segundo Lowe, deveríamos dizer que lá uma elocução da sentença ‘b está ocorrendo aqui’ seria verdadeira, e não que b está ocorrendo no aqui do lá; tal como deveríamos dizer que no futuro uma elocução da sentença “b está ocorrendo agora” ou “b é presente” seria verdadeira, e não que b é presente no futuro. O que penso – e que não compreendi de todo se é pensado também por Lowe – é que ao reduzirmos, como McTaggart, “b é futuro” a “b será presente” e, enfim, a “no futuro b é presente”, fazemos com que b esteja ocorrendo no futuro agora e implicamos, assim, a existência de um futuro no presente; algo que, sem explicações adicionais, parece contraditório, e que muitos teóricos da série A não gostariam de aceitar.
Essas foram as razões pelas quais Lowe rejeita a premissa (3). A falácia indexical de McTaggart – o uso de um indexical sem que ele indique o referente – faz com que McTaggart pense que é coerente falar de uma segunda ordem para a série A. Lowe pensa que as expressões da série A não precisam ser tais que levem a contradições. Podemos simplesmente pensar ‘b é presente’ como ‘b está ocorrendo agora’, ‘b é futuro’ como ‘b irá ocorrer’ (ou seja, “será possível expressar uma proposição verdadeira por meio de uma elocução da sentença ‘b está ocorrendo agora’”), e ‘b é passado’ como ‘b ocorreu’ (ou seja, “foi possível expressar uma proposição verdadeira por meio de uma elocução da sentença ‘b está ocorrendo agora’”).
Outra solução para evitar a contradição de McTaggart é apresentada por Richard Sorabji, um opositor de Hugh Mellor; no entanto, é rejeitada por Lowe. Ele diz que podemos, em vez de falar em termos de uma segunda ordem da série A, falar de pontos numa série B (datas). Por exemplo, ao invés de falarmos de um evento presente b que ele é futuro no passado, presente no presente e passado no futuro, diríamos que em 2009 b é futuro, em 2010 b é presente e em 2011 b é passado. Segundo Lowe, essa resposta não é satisfatória porque, primeiramente, pressupõe que datas podem ser identificadas sem referências à série A e, em segundo lugar, porque quando, por exemplo, ela diz de um evento presente b que ele é futuro em 2009, cai na mesma falácia indexical que McTaggart, pois supõe que isso significa que em 2009 b é presente, ou melhor, que em 2009 b está acontecendo agora. Como “agora”, dito em 2010, implica que é 2010, não poderia ser agora em 2009.
Sobre, então, a aceitação da premissa (2) por Lowe, ele nos indica que a aceita, embora não nos termos de McTaggart. A idéia de McTaggart é que o futuro torna-se presente e, então, passado – de modo que parece provável que McTaggart assuma alguma realidade para o futuro e para o passado; enquanto Lowe rejeita essa idéia por estar compromissado com o presentismo, posição que sustenta que apenas o presente é real. Como Lowe aceita o presentismo e que a mudança só possa ser descrita por expressões da série A, ele tem de conseguir explicar a mudança essencial para o tempo (que é descrita por McTaggart como os eventos futuros tornando-se presentes e os presentes tornando-se passados) sem falar de eventos sendo futuros ou sendo passados, se quiser evitar a falácia indexical indicada por ele mesmo.
A noção de “mudança” encontrada por Lowe, que escapasse à falácia indexical e que fosse essencial para o tempo, foi a de “fluxo do tempo”. Mas há muitas formas de pensarmos o fluxo do tempo. Uma delas é dizer que a mudança é apenas a existência de fatos tais que “o que pode ser dito verdadeiramente ao asserirmos ‘b ocorrerá amanhã’, amanhã só poderá ser dito verdadeiramente se asserirmos ‘b está ocorrendo hoje” (p.68, tr. livre). O problema dessa idéia, segundo Lowe, é que ela apenas indica ocorrências no tempo (como se estivessem numa série B), embora nada nela implique mudança – tal como nada na “mudança de Russell” implica mudança (a mudança essencial para o tempo, o fluxo do tempo). E se nada nessa idéia implica mudança, ela não pode distinguir o tempo do espaço como a dimensão da mudança.
A idéia de Lowe é que podemos distinguir o tempo do espaço e pensar nele como a dimensão da mudança ao levarmos em conta a inevitabilidade do tempo [ineluctability of time], já que parece ser esta última que nos leva a pensar no tempo como um rio em movimento. Lowe ressalta que isso não se explica com o fato do tempo ter uma direção, pois o espaço também poderia não ser isotrópico. Ele pensa que para explicarmos a inevitabilidade do tempo, devemos pensar em rotas no espaço (s) e no tempo (t). Uma rota seria composta de uma sequência de pares ordenados da forma <(s1;t1), (s2;t2), ..., (sn;tn)>, e a inevitabilidade do tempo seria descrita como a possibilidade de, por escolha própria, podermos fazer variar sn, enquanto tn tem de variar de modo constante. Ou seja, podemos fazer variar s por nossa escolha, enquanto não podemos lutar contra o modo como t varia. Qualquer rota possível para uma pessoa tem de ser da forma <(_;t1), (_;t2), ..., (_;tn)>, com o “_” representando uma possibilidade de posição espacial, .embora não possa ser da forma <(s1;_), (s2;_), ..., (sn;_)> , com o “_” representando uma possibilidade de posição temporal diferente da habitual sequência 1,t2,t3,...,tn> .
O próprio Lowe sugere que, embora as rotas capturem a idéia de inevitabilidade do tempo e, assim, apreendam a noção de mudança ou fluxo, elas parecem não envolver referências a nenhuma expressão da série A. A saída de Lowe é indicar que podemos pensar uma rota não como algo sub specie æterninatis, mas como uma sequência de perspectivas espaço-temporais. Ou seja, devemos pensar as rotas não como rotas completas existentes, mas antes como uma sequência de pares ordenados que está em algum ponto. Uma tese consistente com essa idéia, apenas indicada mas não explorada por Lowe no artigo aqui resenhado, é a de que o futuro não é real e/ou de que o passado não é real. Lowe nos mostra que é possível defender essa idéia ao dizermos que é justamente pelo futuro ainda não ser real e pelo passado não mais ser real que podemos dizer que o tempo é real. Mas não continua a defendê-la, talvez por falta de tempo.
Dessa forma, podemos resumir o artigo de Lowe ao dizermos que ele pensa ser possível defender uma teoria A – uma teoria que defenda que a série A é fundamental para o tempo – sem cair na contradição indicada por McTaggart, conseguindo distinguir o tempo do espaço como a dimensão da mudança. Para isso, ele tenta mostrar que a contradição de McTaggart surge apenas se tomarmos como verdadeira a idéia de que um evento presente visto do passado é futuro, o que seria cair no que Lowe chama de “falácia indexical”. Para fugir da falácia indexical e salvar a teoria A, Lowe sugere que podemos pensar a mudança essencial para o tempo – que, se o argumento de McTaggart contra Russell estiver correto, não pode ser a mudança de Russell – como o que chamamos de fluxo do tempo, e que o fluxo do tempo, por sua vez, poderia ser caracterizado em termos de inevitabilidade do tempo. Esta última pôde ser explicada por meio da idéia de rotas espaço-temporais pensadas antes como perspectivas espaço-temporais inacabadas do que como rotas espaço-temporais completas vistas sub specie æterninatis.

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