domingo, 20 de junho de 2010

Resenha de Garrett, Brian (2006). What is this thing called metaphysics?; capítulo 5. Oxon: Routledge.

Este capítulo do livro de Garrett intenta apresentar o argumento de McTaggart a favor da irrealidade do tempo e as principais objeções já apresentadas contra ele. Nesta resenha pretendo, de modo resumido, tanto cumprir a intenção de Garrett, quanto apresentar minhas próprias objeções ao argumento de McTaggart. Antes de sermos apresentados ao argumento, temos de ser apresentados às duas formas de McTaggart de distinguir posições no tempo: a série A e a série B; o que farei agora. 




Na série A, os eventos são posicionados no tempo através das noções de passado, presente e futuro; e o teórico da série A é aquele que defende que a série A é essencial para o tempo. Tal tipo de posicionamento tem um caráter dinâmico, pois permite que os eventos mudem sua posição temporal, dado que um evento que é futuro torna-se presente e depois passado. E, assim, falar de um evento que ele é futuro é às vezes verdadeiro e às vezes falso. Por exemplo, a proposição “o nascimento de Rodrigo Cid é futuro” é verdadeira durante todo o tempo passado ao meu nascimento e é falsa durante todo o tempo futuro ao meu nascimento. O posicionamento temporal provido pela série A permite que haja uma mudança no valor de verdade das proposições que descrevem os eventos.
Contrariamente, a série B é pensada por McTaggart como estática, pois não permite a mudança no valor de verdade das proposições que descrevem os eventos nela posicionados, e nem permite que haja mudanças em suas posições temporais. E não o permite justamente porque o posicionamento dos eventos é realizado através das noções de anterioridade, posterioridade e simultaneidade. Se, por exemplo, “o nascimento de Rodrigo Cid” é anterior à “concepção de Rodrigo Cid”, então nada que ocorra poderá mudar sua posição temporal. O que faz a proposição “o nascimento de Rodrigo Cid é anterior à concepção de Rodrigo Cid” nunca mudar seu valor de verdade – que, no caso, é o verdadeiro. Por sua vez, o teórico da série B é aquele que defende que a série B é essencial para o tempo.
O argumento de McTaggart pela irrealidade do tempo envolve dizer que a série A é necessária para o tempo (parte I) e que ela é contraditória (parte II); donde, o tempo, como seria fundamentado em algo contraditório, não poderia ser real. Apresento a seguir o argumento mais de modo mais formal.


O Argumento de McTaggart pela Irrealidade do Tempo:

Parte I
(1)   O tempo necessariamente envolve mudança.
(2)   A mudança só é possível na série A.
Logo,
(3)   O tempo necessariamente envolve a série A.

Parte II
(4)   Todo evento é passado, presente e futuro.
(5)   Nenhum evento pode ser passado, presente e futuro.
Logo,
(6)   A série A é contraditória.


Objeções e Justificações da Parte I

O argumento é claramente válido dedutivamente. O que parece entrar em debate é a verdade das premissas. McTaggart toma (1) como um truísmo. E o problema ao fazer isso é que se cai em petição de princípio contra o teórico da série B, pois se assume que a mudança típica da série A (que não ocorre na série B) é essencial para o tempo. Todavia, há dúvidas sobre se (1) é realmente necessário para o argumento.
            Pela verdade da premissa (2), McTaggart argumenta dizendo que os eventos localizados na série B e as relações entre as posições temporais desses eventos nunca muda; donde ele conclui que a série B não permite mudança. E diz também que o único aspecto de um evento que pode mudar é se ele é passado, presente ou futuro; o que o permitiria concluir que a mudança só é possível na série A.
            Vemos claramente com a justificação de McTaggart que ele tem uma concepção de mudança que é um tanto debatível se é fundamental para o tempo. Para ele, tal mudança ocorre quando um evento ou fato muda sua posição na série A. Bertrand Russell, objetando à verdade da premissa (2) de McTaggart, sugere outra concepção de mudança, favorável ao teórico da série B. Sua concepção diz que há mudança quando uma coisa (um objeto) tem propriedades incompatíveis em momentos diferentes, ou seja, quando há uma diferença de valor de verdade entre uma proposição sobre uma certa entidade num certo tempo e uma proposição sobre a mesma entidade num outro tempo, permitindo que essas proposições se distingam apenas pelo tempo em que ocorrem .
A diferença principal entre essas duas concepções é que a mudança de Russell ocorre nas coisas, e não nos eventos, como exigiria McTaggart. A objeção de Russell é que se entendermos a mudança tal como ele sugere, ela só necessitaria da série B. E, além disso, podemos dizer que uma afirmação de que P é passado/presente/futuro é verdadeira se, e somente se, respectivamente, P for anterior/simultâneo/posterior à afirmação. Tal dependência de uma elocução, segundo Russell, faz a série A ser dependente da mente e relativa ao sujeito; e como o tempo não é dependente da mente, a série A não poderia ser fundamental para o tempo. Outra conclusão que poderíamos extrair da bicondicional de Russell é que a série A é dependente da série B e que, por isso, se a série A é essencial para o tempo, então a série B também o é.
Contra a concepção de mudança de Russell, McTaggart argumenta que as proposições que descrevem os eventos/fatos da série B nunca mudam seus valores de verdade, e tal permanência do valor de verdade não pode causar nenhuma mudança nos objetos. Mas se não mudarem os fatos (e os valores de verdade das proposições), não pode haver mudança nos objetos. E fatos só mudam na série A, onde um fato dá lugar a outro quando este outro se torna presente. A primeira objeção que nos ocorre, exposta por Garrett, é que se definirmos “mudança” de modo que ela só possa ser pensada com referência à série A, cometeremos petição de princípio contra o teórico da série B.
Uma outra objeção, que eu mesmo traço, é que não há outra forma de haver uma mudança em um evento que não havendo uma mudança nas propriedades das coisas do estado-de-coisas que compõe o evento, pois se não houvesse mudança em nenhuma propriedade de nenhuma coisa do estado-de-coisas que compõe o evento, não poderíamos falar com razão que o evento tenha mudado. Assim, a mudança nos eventos é sobreveniente à mudança nas propriedades das coisas; e, portanto, a mudança nas coisas é mais básica que a mudança nos eventos e é pressuposta por esta última.


Objeções e Justificações da Parte II

            Quando chegamos à parte II, podemos perceber que a premissa (5) é claramente verdadeira, pois está claro que nenhum evento pode ser passado, presente e futuro, pois tais posições temporais são incompatíveis simultaneamente. As objeções geralmente direcionam-se contra a premissa (4). Uma delas é dizer que não é o caso que um evento é futuro e é passado, mas que ele é futuro e será passado. McTaggart tem uma saída na manga para tal objeção. Ele diz que ao sairmos das posições de nível 1 da série A (é passado/é presente/é futuro) e flexionarmos o verbo temporalmente para evitar a contradição, passando às posições de nível 2 da série A (foi/é/será passado/presente/ futuro), encontraremos combinações incompatíveis de posições temporais (como: foi passado/foi futuro, é passado/é presente etc). A única maneira de eliminar essa incompatibilidade é passando a um nível 3 da série A, onde encontraremos novas incompatibilidades apenas elimináveis pela passagem a um nível 4, ad infinitum. Isso, segundo McTaggart, mostra que a série A nunca escapa da contradição. Minha objeção a esse argumento é que as contradições encontradas em certas combinações temporais só mostram que aquelas combinações não são possíveis; e não que a série A, como um todo, é contraditória. Se, por exemplo, nenhum evento é presente e é futuro simultaneamente, isso só mostra que a posição é presente/é futuro não existe na série A.
            A objeção de Dummett é que a premissa (4) pressupõe que seja possível uma descrição completa da realidade, onde um evento possa ser avaliado em sua posição na série A em todos os momentos do tempo. Por exemplo, em 2009, 2008 é passado, e em 2007, 2008 é futuro; donde, numa descrição completa da realidade, 2008 é passado e é futuro. Assim, defende Dummett, se o teórico da série A não aceitar tal pressuposição, ele se salva da contradição.
            A objeção de Horwich é que se o teórico da série A abandona a completude, ele fica com uma concepção de “fato” um tanto inadequada. Pois pensamos que fatos são representados por proposições que são verdadeiras simpliciter, e não por proposições que são verdadeiras segundo alguns pontos de vista e falsa segundo outros. Se dizemos “P é passado”, utilizamos uma concepção incompleta de fato, tal como quando afirmamos que “X está a esquerda de Y”, dado que dependendo do ponto de vista (espacial ou temporal) as proposições expressas serão ou verdadeiras, ou falsas. Para descrevermos completamente tal fato espacial e fazermos com que sua verdade não dependa de pontos de vista, teríamos que dizer “X está a esquerda de Y em relação a Z”. O que também ocorre com a proposição que representa o fato temporal: teríamos que dizer “P é passado com relação a Q” para expressar um fato completo cuja verdade independe de pontos de vista. E falar de “passado em relação a outro evento” é transformar a série A na série B, pois estaríamos fazendo com que “passado com relação a”, “presente com relação a” e “futuro com relação a” estivessem cumprindo a mesma função de, respectivamente, “anterior a”, “simultâneo a” e “posterior a”.
            O último ponto do texto é uma rápida distinção entre as teorias A e B. Garrett nos mostra que os defensores da teoria A enfatizam a diferença entre o tempo e o espaço, pensando a realidade como dinâmica e mutável em virtude da passagem do tempo – o “agora” está em movimento. Normalmente, a teoria A tende a aceitar que apenas o presente é real (Presentismo), ou que apenas o presente e o passado são reais (C. D. Broad), embora seja possível uma posição como a de McTaggart, que não respeita o ideal da série A de prover uma posição ontológica privilegiada ao presente. Os teóricos da série B, por sua vez, pensam que não há fluxo do tempo e enfatizam sua semelhança com o espaço, não provendo uma posição ontológica privilegiada ao passado, presente ou futuro (os três são igualmente reais).



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